O futebol é solícito a fúrias imprestáveis mas é difícil aplaudir uma equipa tão rica a jogar tão pobre e um selecionador que conclui que essa pobreza é valiosa
Se Davinson Sánchez calçasse 42 em vez de 46, a biqueira da sua rosa bota não estaria fora de jogo aos 90+1 minutos, o seu golo teria sido validado, Portugal teria perdido o jogo e a Colômbia teria sido uma justa vencedora. Mesmo assim, teríamos ficado em segundo lugar no grupo, mesmo assim enfrentaríamos a Croácia, mesmo assim Roberto Martinez teria provavelmente dito no fim que “foi um jogo fantástico”, “um teste muito valioso” e “ganhar o grupo nunca seria uma vantagem” e tudo isto seria assim porque Roberto Martinez é mesmo assim.
Ganhar nunca seria uma vantagem.
Isto podia ser uma declaração de frieza, mas é só propaganda. A propaganda de esconder que Portugal foi a grande deceção da fase de grupos, que jogamos com medo e prisão de mente, lingrinhas sem sede e sem desejo. A centralidade de Ronaldo é até conveniente para Martinez, enquanto se discute o rei sol não se fala da ursa menor, mas tanta propaganda no final do jogo é embaraçosa: um discurso de autoajuda só serve para falsa autoestima e não chega para autoconfiança.
Pode-se jogar bonito e perder e pode-se jogar feio e ganhar. Foi o que o João Sundfeld explicou aqui sobre o Brasil de Ancelotti: não é futebol de encanto, é futebol pragmático e está tudo bem. Mas a seleção de Martinez não joga nem para a beleza nem para a eficácia no relvado, joga uma paciência num pano de feltro, demora-se, atrasa, contém a potência, faz-se represa de talento, não destrói nem desobstrói, anda para ali, dilemática, como se à espera que um dos génios saia da lâmpada esfregada ou salte do banho de imersão e eureka!, golo!, e tudo se resolva, não por causa da estratégia comunicacional ou da tática campal de Roberto Martínez, mas apesar delas e apesar dele.
Estamos a assistir à autoproclamada fernandosantinização de Roberto Martinez, que sonha repetir o mapa do tesouro de 2016 e chegar longe pelo lado lento da pista: evitar o fantasma de Carlos Queiroz no Gana, evitar o carreiro da Argentina e Brasil e fazer carreira pelo lado da Croácia e da Espanha e França. Podia ser um plano brilhante, mas não é: é renomear o azar (desde quando a Croácia é fácil?! A Croácia que ficou em terceiro em 2022 e em segundo em 2018 é fácil?") e é tentar a sorte. Como a sorte contra a Colômbia. Como a sorte de os pés de Sánchez serem grandes. Como a sorte até de as mãos de Diogo Costa serem enormes, o rapaz merecia milhões como o Vozinha depois de tanto e tão bem defender.
Com tanta autossatisfação, Martínez devia ser contratado pelo governo para explicar que os nove meses de negociação do Código Laboral falhado foram “um teste muito valioso”, que o coito interrompido entre o PSD e o Chega para aprová-lo “foi um jogo fantástico” e que ainda bem que ficou tudo na mesma porque “ganhar nunca seria uma vantagem”.
Temos de reconhecer exageros e ciclotimias, um jogo bom e os humores viram: por nossas vontades, teríamos trocado de selecionador mais vezes que o Reino Unido trocou de primeiro-ministro nos últimos dez anos. Mas desde 2016 que não jogamos tão rentes ao chão, sem modelo nem estilo de jogo, tão pouco protegidos da exaustão, mesmo se temos uma das melhores seleções de sempre.
Espero estar enganado, espero que Martínez seja o génio que não descortinamos, espero que ganhemos à dificílima Croácia e sigamos pela Espanha e França adentro, espero aqui voltar para nesse caso dizer que, bem vistas as coisas, génio é ele, génio como não há outro, e toinos, bom, toinos somos nós.
