Não se vê liderança. Não se vê aquele momento em que um treinador bate na mesa, muda o rumo do jogo ou explica claramente as suas escolhas. Quando a partida pede uma resposta, aparece uma invenção. Quando a equipa parece precisar de estabilidade, surge mais uma experiência. Existirá plano para travar Modric?
Crónica de um regresso anunciado
Podia começar com o título de um filme: “Once Upon a Time in America”. Mas esta história é outra. É uma história de expectativas, de talento desperdiçado e de uma seleção que parece procurar constantemente uma identidade que nunca encontra.
Analisar a forma como joga Portugal tornou-se, nos últimos tempos, quase um exercício de contradição permanente. Há um treinador que parece viver numa realidade paralela, onde cada jogo é apenas mais um teste e onde a palavra “atitude” surge como resposta para tudo. Mas talvez seja precisamente aí que esteja o maior problema: a atitude.
Não se vê uma chama coletiva. Não se sente uma equipa ligada, intensa, com fome de dominar os jogos. E isto acontece numa seleção que tem um dos melhores meios-campos do mundo, laterais de enorme qualidade e jogadores ofensivos capazes de decidir partidas. No entanto, sob o comando de Roberto Martínez, muitos parecem uma versão menor de si próprios.
Os laterais, reconhecidos pela capacidade de desequilibrar, aparecem presos a um modelo que lhes retira impacto. Os extremos correm muito, mas nem sempre sabem para onde. O avançado que tantas vezes carregou a equipa já não é o mesmo jogador de outros tempos — e pior, parece cada vez mais isolado, sem a bola e sem o apoio necessário para voltar a ser decisivo. O seu “I’m Back” ameaça transformar-se rapidamente num “I’m Back Home”.
Roberto Martínez vive de teste em teste. O problema é que, mesmo quando vencer, a dúvida continuará presente: será suficiente? Porque parece existir uma distância cada vez maior entre o talento disponível e aquilo que a equipa realmente apresenta em campo.
A explicação pode estar em dois cenários: ou o treinador não consegue transmitir aos jogadores aquilo que pretende, ou simplesmente não tem capacidade para extrair mais desta geração. E é difícil não acreditar que, por vezes, ele próprio sinta a frustração que muitos adeptos sentem. A diferença é que guarda tudo para dentro.
Não se vê liderança. Não se vê aquele momento em que um treinador bate na mesa, muda o rumo do jogo ou explica claramente as suas escolhas. Quando a partida pede uma resposta, aparece uma invenção. Quando a equipa parece precisar de estabilidade, surge mais uma experiência. E assim cresce a sensação de que talvez esta seleção seja capaz de muito mais, mas não sabe como lá chegar.
O futebol apresentado por Portugal parece distante da exigência das grandes seleções atuais. Um futebol previsível, pesado, quase de outro tempo, com dificuldades evidentes para controlar os momentos decisivos e chegar ao final dos jogos com a mesma intensidade com que os começa.
Contra James, ficou evidente. Parecia ter vinte anos, tal a liberdade e o espaço que encontrou. Faltou plano, faltou reação, faltou capacidade para limitar aquilo que todos viam. E a pergunta inevitável é: existirá plano para travar Modric? Existirá uma resposta quando o adversário subir de nível?
Os cantos defensivos são apenas o retrato mais visível de um problema maior. O espaço oferecido, a falta de concentração e a desorganização nesses momentos mostram uma equipa que não parece preparada para sofrer — e essa responsabilidade começa sempre no banco.
Que Deus os proteja, então. Mas não vale a pena preocuparmo-nos demasiado. Afinal, dizem que Jesus está a chegar.
