O Mundial-2026 é uma decepção de fio a pavio, da RD Congo à Espanha. Como disse Jesus noutra ocasião, ‘jogam muit’a poucachinho’. Mas há boas nuances a retirar
Alan Rickman. Aquela voz é qualquer coisa. Então no papel de Hans Grüber, n’O Assalto ao Aranha-Céus, vai lá-vai. Lembra-se daquela cena no fim em que ele, o vilão, está entre a vida e a morte, só seguro pelo metal da senhora McClane? Quando John McClane (Bruce Willis) consegue arrancar o relógio do pulso da mulher, Grüber inicia a descida até ao piso 0 sem elevador. A cara dele é um poema. A malta ri-se. Eu rio-me, pelo menos. E a explicação para a gargalhada inesperadamente fortuita só me foi dada a entender há pouco, já depois da morte do próprio Rickman. A cena é gravada com um entendimento entre ator e equipa de produção: “contamos até 3 e depois largamos-te”. O que acontece? Os homens largam-no ao 1. Daí aquela expressão cómica. Aquilo é realismo, not acting.
Um, dois, três. O número de países anfitriões do Mundial-2026. Um a um, day by day, eliminados: Canadá no sábado, México na segunda, EUA na terça. Um, dois, três. O número de países de língua portuguesa do Mundial-2026. Um a um, day by day, eliminados: Cabo Verde no sábado, Brasil no domingo, Portugal na segunda.
Ai Portugal Portugal
De que estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Jorge Palma. E, digo, milhões de portugueses. Eu sou um deles, sem dúvida. Quando revejo mentalmente os jogos da selecção em Mundiais e Europeus, tenho de rebobinar muito a cassete para encontrar um de alto gabarito. E não é em que o melhor em campo seja um guarda-redes, como o da final do Euro-2016. Ou um em que o melhor seja o goleador de serviço por falta de comparência do avdersário, como o 5:0 vs. Uzbequistão. Tem de ser um em que a incerteza do marcador perdure os 90 minutos com um futebol de qualidade, sem medo e taco-a-taco. Assalta-me logo á memória a derrota 2:1 vs. França no Euro-2000. Que jogaço, senhoras e senhores.
Quando revisito essa França, mon Dieu. Onze jogadores, onze craques do além: Barthez, Thuram, Desailly, Blanc, Lizarazu, Vieira, Deschamps, Petit, Zidane, Henry e Anelka. Suplentes, Trezeguet, Pires e Wiltord. Porra, vão-se catar. Se isto fosse o Monopólio original, todos eles, sem excepção, seriam o Rossio. Depois meto-me a pensar no onze de Portugal, meu Deus. Ele é Baía, Abel Xavier, Couto, Jorge Costa, Dimas, Costinha, Vidigal, Conceição, Rui Costa, Figo e Nuno Gomes. Suplentes, Paulo Bento, JVP e Rui Jorge. Quase todos Rossio, um ou outro Rua Augusta.
Quero lá saber da mão, do penálti e da confusão. Lembro-me, isso sim, do sol de fim de tarde sobre o relvado, do tratado de bola, da competitividade, da raça, do golo do nada de Nuno Gomes com o pé esquerdo, da defesa espantosa de Barthez ao cabeceamento de Abel Xavier aos 89 minutos e 56 segundos e meio, do empate do Henry com a bola a passar por entre as pernas de Couto, de uma recepção de bola de Zidane com o peito e depois o domínio de bola com a parte de fora do pé direito, com Dimas à ilharga, no limite da área. Enfim, uma série de artistas, uma infinitude de detalhes.
Portugal 1 - França 2
28 de junho de 2000,
Estádio Rei Balduíno, Bruxelas,
meia-final do Euro 2000
Adiante. Passam-se quatro anos, Portugal vs. Inglaterra. O ambiente na Luz é um mimo. A culpa é dos ingleses. Os adeptos, of course. Que festival. Se não fossem eles, o Euro do “como-uma-força” da Nelly Furtado seria assim pró fraco. Lá dentro, entrega total, velocidade furiosa, 120 minutos de tudo e mais alguma coisa. Owen marca primeiro, Postiga entra e empata, Rui Costa entra e dá a volta com um pontapé do meio da rua, Lampard fixa o 2:2. Nos penáltis, falham Beckham e Rui Costa, ambos com bolas para a fila Z, mais a do David, verdade seja dita. Na segunda série, Ricardo tira as luvas, a pedido de Eusébio, e adivinha a intenção de Vassell. No quadradinho seguinte, é o próprio Ricardo quem assume a responsabilidade de fixar o resultado.
Portugal 2 - Inglaterra 2
6-5 no desempate por penáltis
24 de junho de 2004
Lisboa, Portugal
Quartos-de-final do Euro 2004
Avançamos no tempo? Avançamos no tempo! E chego ao Euro-2012, vs. Holanda, terceira jornada da fase de grupos. É obrigatório ganhar para passar aos quartos-de-final. Van der Vaart assina o ponto, Ronaldo responde uma e outra vez, além de acertar duas bolas no poste. Ganhamos 2:1, é um jogo equilibrado e vibrante. Portugal ganha (muito) bem e convence. Daí para cá, entre Mundial-2014, Euro-2016, Mundial-2018, Euro-2021, Mundial-2022 e Euro-2024, talvez o 3:3 vs. Espanha na Rússia e that’s all folks. Exagero? Não, para mim não. Portugal é um constante bluff. Portugal deve-nos uma. Mais até, mas fiquemo-nos por uma. Uma exibição de sonho, queremos dizer. Daquelas que nos deixe orgulhosos, a sair de casa de peito feito, a cantar sozinho o hino, a imitar (quase) a papel químico no meio da rua as jogadas mais virtuosas do prélio. Perde-se a pica de puxar pela selecção é o que é.
Portugal 2 - Países Baixos 1
17 de junho de 2012,
Kharkiv, Ucrânia
Jogo do Grupo B do Euro 2012
Portugal 3 - Espanha 3
15 de junho de 2018
Sochi, Rússia
Jogo do Grupo B do Mundial 2018
A pica, pois é. O Mundial-2026 é uma decepção de fio a pavio, da RD Congo à Espanha. Poucos remates à baliza, pouca ambição, pouca intensidade, pouco domínio, pouco controlo, pouco tudo. Como diria Jesus, a propósito das criticas do alemão Bernd Schuster, então treinador do Real Madrid, ao estilo de jogo do Belenenses no Torneio Teresa Herrera, ‘jogam muit’a poucachinho’. E isso é irritante, o bluff e o poucachinho. É como o Alfa Pendular. Ele dá 250 km/h, mas só consegue ir aos 220 km/h por limitação das infraestruturas de ferrovia. Baaahhhh. E só dá 220 km/h em três troços. Curtos. Ao todo, 78 km. Porra, não me lixem. Ou seja, 23% do trajecto. Só 23%. P-o-r-r-a, n-ã-o m-e l-i-x-e-m. Muit’a poucachinho. É o país que temos, é a selecção que tempos. Jorge Palma, palmas.
Atenção, há nuances boas a retirar do Mundial-2026. Renato Veiga, por exemplo. Diogo Costa, outro. Se escolhesse ser um jogador deste Portugal, ei-lo. Sem sombra de dúvida. Quero ser Diogo Costa. Só é pena aquele golo da Espanha nos acréscimos. E com o pé esquerdo. Se ainda fosse o pé esquerdo do genérico dos Monty Python, vá, agora o de Merino, tssss tssss. Nada a fazer no um para um, Diogo. Estiveste bem, o melhor de todos.
É um exercício frequente, o meu de vestir a pele de um jogador em determinado evento. Só Mundiais, por Portugal. Seria Eusébio em 1966. Pela cabeça engessada na estreia, vs. Hungria, pelo golo fulminante ao Brasil, o do 3:1, pelo lance individual da linha lateral até ao duplo penálti vs. Coreia do Norte e pelos apertos de mãos aos guarda-redes por ele ludibriados nos penáltis da ½ final e 3.º e 4.º lugares, Banks (Inglaterra) e Yashin (URSS).
Vinte anos depois, no México, a segunda participação de Portugal em Mundiais. A minha escolha é Diamantino. Aquele nó cego a Fenwick e o posterior cruzamento rasteiro para o golo de Carlos Manuel à Inglaterra é um hino ao futebol de rua, à malandrice, à convicção suprema de toma lá-dá cá aquela palha. Um ano antes (acho), já ele desenhara um lance idêntico num jogo europeu vs. Sampdoria, na Luz. Pura e simplesmente, Diamantino muda de velocidade e deixa o mundo todo para trás. Dessa jogada resulta o golo de cabeça de Rui Águas (acho, outra vez). Dois achos pendurados, mil desculpas. É que não quero rever o lance, senão deixo-me hiptonizar e não acabo o texto.
E é tudo. No século XX, digo. Portugal volta ao maior palco em 2002, na Coreia do Sul. Aqui, Pauleta. Digam o que disserem de Ronaldo, elogiem-no com pompa e circunstância, ele merece tudo, tudo, tudo e mais alguma coisa, mas Pauleta é Pauleta e vice-versa. É o maior da aldeia (a nossa, a de Portugal. A sua história de vida desportiva é a mais gloriosa. O homem nasce nos Açores. Ya, Açores. Naquele tempo, a distância entre Açores e Portugal Continental é quase como daqui, do planeta Terra, até à Lua. Vai-se lá uma vez e e e e e e é quando o rei faz anos. Então não é que Pauleta é o primeiro português a destronar o King Eusébio no topo dos melhores marcadores da selecção?
Calma, muita calma nesta hora, porque Pauleta só tem 19 golos aos 29 anos de idade. Depois, em 2003, chega Scolari e há uma mudança significativa. Pauleta passa a ser o indiscutível 9 e acumula nem mais nem menos que 28 golos em 46 jogos. Chega aos 47, Eusébio ‘só’ tem 42. Mais incrível ainda é o trajecto deste Senhor: zero jogos na 1.ª divisão portuguesa. Zero. E, jovem, ainda júnior, é contratado pelo FC Porto. Por um ano, a vida é bela – embora longe de casa, a chutar lágrimas para canto numa base diária.
No segundo ano de júnior, o treinador Augusto Inácio diz-lhe que a dupla de avançados é Miguel Bruno e Toni. Se Pauleta quiser, pode ser emprestado a uma equipa nortenha. Pauleta não quer e opta pelo regresso a casa. Quão difícil é desistir de um sonho e quão complicado é dar a volta por cima? Pauleta tem a resposta, a dupla resposta. Faz-se à vida, é melhor marcador da Taça de Portugal por uma equipa açoriana (Operário), é melhor marcador da 2.ª divisão espanhola (Salamanca) e vira ídolo xxl na 1.ª divisão francesa (PSG). Nesse Mundial-2002, Pauleta assina hat-trick vs. Polónia. Quero ser Pauleta, ponto.
Em 2006, já sou Ricardo. Com luvas, defende três penáltis da Inglaterra – só o engana Hargreaves. Ainda por cima no dia de aniversário centenário do meu clube. Há lá coisa melhor. Em 2010, na África do Sul, sou Liedson. Fala sério, um cara é empregado de supermercado no interior da Bahia em 1999 e marca um golo pela selecção portuguesa no Mundial daí a 11 anos? É filme, só pode.
É, filme de Liedson. Só começa a jogar futebol aos 21 anos, faz pela vida nos dois maiores do Brasil (Flamengo e Corinthians) e, de repente, aterra em Portugal. Pelo Sporting, marca 11 golos ao Benfica, torna-se o melhor marcador nas competições da UEFA e ainda o melhor marcador estrangeiro da história, à frente de Yazalde. Convocado por Queiroz para o Mundial, entra aos 77’ vs. Coreia do Norte e só precisa de três minutos para festejar, de cabeça.
Dois-mil-e-catorze é no Brasil. Aí, óbvio, sou Éder. A quantidade de insultos que recebe, meu Deuuuus. É de bragar aos céus. Sim senhor, ele joga no Braga e marca golos. Pela selecção é que não. E falha alguns. Tanto assim é que eu, nas infinitas viagens de autocarro, táxi ou avião naquele continente chamado Brasil, como enviado-especial ao Mundial pelo jornal i, ouço troçar do nosso número 11 vezes sem conta. Como só tiro a credencial ao peito para dormir, é ver os brasileiros a detectar a minha nacionalidade e dirigir-me impropérios como se eu fosse o Éder. O mais comum é ‘como é possível uma selecção boa como Portugal ter aquele perna de pau, o número 11?’ Bem, dois anos depois, a resposta do perna de pau é um pontapé do meio da rua a dar o golo solitário na final do Euro-2016, vs. França, em pleno Stade de France. Mais mágico é impossível. HERÓI.
Rússia-2018, aí vamos nós. Ronaldo, agora sim. Marca três golos à Espanha, o último dos quais é um formidável livre directo, aos 88 minutos. Depois mais um golo, de cabeça, vs. Marrocos. A lenda cresce. Até o jogo com o Irão é um carrossel de emoções. Falha-se penálti e tudo. Se Messi falha (vs. Islândia), também quero, olha olha. Catar-2022 é um pau de dois bicos. Mesmo. Estou indeciso entre Rafael Leão e Ricardo Horta. Um marca ao Gana e a sorrir com aqueles dentes todos, o outro marca à Coreia do Sul e inscreve o Braga na lista de honra dos golos da selecção em Mundiais. Tic tac tic tac. Zero pressão, simplesmente não me consigo decidir. Admiro os dois em doses idênticas, industriais. Talvez o sorriso faça a diferença.
O sorriso que nos faltou constantemente neste Mundial-2026. Se Portugal fosse o Bruce Willis, o Arranha-Céus ficava desfeito em 1…
