Portugal, está na hora de acordar: "Em dia de Diogo Jota, passem a deuses"

2 jul, 08:00
O português Diogo Jota comemora após marcar o primeiro golo da sua equipa durante um jogo amigável internacional de futebol entre Portugal e a Croácia, no Estádio Nacional de Oeiras, nos arredores de Lisboa, no sábado, 8 de junho de 2024. (AP Photo/Pedro Rocha)
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A selecção portuguesa devia pagar multa por velocidade reduzida na autoestrada para a glória - e Martínez também, pelas conferências de imprensa. Mas no dia em que passa um ano sobre a morte de Diogo Jota, Portugal pode dar-lhe nuvens - e ganhar à Croácia.

Ema, sempre ela. Só cinco anos de idade e tantas frases fora da caixa, umas em forma de perguntas, outras afirmações do arco da velha.

- Se todos nós vamos morrer, porque é que estamos preocupados com o ter casa ou não?

- Não quero ser mãe, eu é que mando no meu corpo!

- Se as pessoas morrem e vão para o céu, elas alimentam-se de quê: nuvens?

- Não quero cozinhar para ninguém em toda a minha vida!

- Não quero levar picas de nenhum médico, nem aos dez anos nem em toda a minha vida!

- Porque é que os pais não têm bebés na barriga?

- Porque os rapazes têm pilinha e as meninas não?

Agora é a minha vez.

- Porque é que a selecção me dá sono?

- Porque é que a selecção me desencanta?

- E porque é que a análise de Martínez depois dos três jogos me faz lembrar uma determinada frase de Basil, interpretado pelo inimitável John Cleese na série cómica Fawlty Towers, da BBC?

Fotograma retirado da série "Fawlty Towers", em que John Cleese diz "You wouldn't understand, it's called style / Não irias perceber, chama-se estilo". Pode ver o excerto aqui.​​​

Vem ai a Croácia, para os 16 avos, em Toronto. É o nosso primeiro jogo no Canadá neste Mundial. E o último. Calma, muita calma. Não sou eu a falar, é o calendário. Daqui para a frente, seja Espanha ou Áustria, EUA ou Senegal, França ou Marrocos, jogamos sempre nos EUA. O que é pena, porque falhámos México. Devíamos ter ido lá, mais não fosse para recuperar créditos perdidos de 1986 e sambar na cara da sociedade.

Croácia, dizia eu. Estou muito bem na casa de Lisboa a ressacar do Alemanha vs. Paraguai quando a minha mãe me dá a achega: ‘temos um filme para ver do Bertolucci, ‘Um Chá no Deserto’, queres?’ Play. Debra Winger e John Malkovich. A Debra proporciona-me altos voos e evoca-me o Portugal dos bons, com wingers (extremos): Figo do Euro-1996, Conceição do Euro-2000, Ronaldo do Euro-2004 (‘tadito do Raúl Bravo). Já o John adoece, nem faz o filme todo e puxa-me para baixo, é uma espécie de Portugal dos pequeninos, o do Mundial-2026. Googlo e espanto-me: Malkovich é cidadão croata desde Maio. Os seus bisavós são de Ozalj, um vilarejo na zona centro da Croácia, e emigram para os EUA.

Euro 96, Inglaterra. 19 de junho: Nikola Jurcevic, da Croácia, e Luís Figo disputam a bola durante o jogo do Grupo D do Euro 1996 da UEFA no City Ground, em Nottingham, Inglaterra. Portugal ganha por 3-0, com golos de Figo, João Vieira Pinto e Domingos. Foto de Stewart Kendall/Sportsphoto/Allstar via Getty Images
Euro 2000, Países Baixos. 20 de junho: Sérgio Conceição marca o seu segundo golo enquanto o alemão Thomas Linke tenta impedi-lo, durante o jogo do Grupo A do Campeonato Europeu de 2000, no Estádio De Kuip, em Roterdão. Portugal ganha à Alemanha por 3-0, três golos de Conceição. (AP Photo/Diether Endleicher)
Euro 2004, Portugal. 30 de junho: Cristiano Ronaldo marca de cabeça na meia-final entre Portugal e a Holanda, no estádio José Alvalade, em Lisboa. Portugal vence por 2-1, golos de Ronaldo e Maniche por Portugal e autogolo de Jorge Andrade. AP Photo/Dusan Vranic

Croácia, sempre a Croácia. Ponto prévio: amo Modrić, tenho até uma camisola dele do Real Madrid, número 10 e cor de laranja. No dia em que a estreio, aqui em Porto Covo (isso, já apanhei um Flixbus, logo às sete da matina, qu’isto de ficar em Lisboa é para velhos), dou de caras com os pais da Kika Nazareth no restaurante Zé Inácio, onde passo alegremente o tempo e só não durmo à noite por falta de cama e almofada, embora olhe para a garrafeira de quando em vez como quem diz ‘ora aí está um spot bem simpático para descansar, ali entre um Cultus e um Convento da Tomina’.

E também vou à bola com Ivković, meu grande ídolo das balizas na ressaca de Meszaros e Mlynarczyk. Vejo-o vezes sem conta, a ele Ivković, sobretudo no José Alvalade, a defender a baliza do Sporting e, claro, é um nome inquestionável na história do futebol planetário por ter defendido dois penáltis de Maradona na mesma época, em duas competições. Ironia do destino, Maradona sai a festejar em ambas: Nápoles (Taça UEFA-89) e Argentina (Mundial-90). E é ele, Ivkovic, o último croata a abandonar a Jugoslávia. Lembro-me bem desse momento jornalístico, captado pel’A Bola.

Na época, a guerra dos Balcãs assusta qualquer um. É ao vivo e a cores. As imagens televisivas transmitem-nos horror, insegurança, perplexidade. A Jugoslávia, como selecção de futebol, queremos dizer, continua a jogar a qualificação para o Euro-92 por entre os pingos da chuva, das bombas, das mortes.

Em Setembro 1991, com o apuramento bem encaminhado, à falta de dois jogos, ambos fora, vs. Ilhas Faroé e Áustria, a Jugoslávia joga com a Suécia, capitaneada pelo benfiquista Thern. Na baliza jugoslava, o sportinguista Ivković. Acaba 4:3, bis de Dahlin e Savicevic. Quem fixa o 4:3 é precisamente Thern.

De regresso a Portugal e ao Sporting, o guarda-redes Ivković desliga-se por completo da selecção. “Jugoslávia nunca mais. Estou muito triste e desiludido com o que se está a passar no meu país. Nunca pensei que as coisas viessem a atingir estas proporções. Pensava, em princípio, que houvesse bom senso e concórdia entre os povos mas, afinal, o ódio e a guerra estão em crescendo. Todos os dias ouço e vejo os noticiários àcerca do meu país e fico perplexo e incrédulo com as imagens quer nos chegam.”

Mundial 90, Itália. 14 de junho: o guarda-redes da seleção da Jugoslávia, Tomislav Ivković, comemora o golo do seu colega Davor Jozic contra a Colômbia. AP Photo/Karl Heinz Kreifelts

Sem se deixar interromper pelo jornalista, à frente da porta 10-A, Ivković continua a falar. “Ando a viver um grande stress por saber que a minha família em Zagrebe anda a correr de um lado para o outro a fugir aos bombardeamentos. Telefono para os meus pais e sinto o drama que se está a viver, num pânico constante. Nunca pensei numa situação destas. Por isso, como croata que me prezo ser, volto a afirmar, e peço que A Bola publique oficialmente, nunca mais volto a jogar pela Jugoslávia. O meu último jogo foi na Suécia.”

Só mais esta declaração de amor sobre a Croácia. Só a vejo duas vezes ao vivo, ambas no Mundial-2018, ambas em Moscovo, vs. Inglaterra, na ½ final, e França, na decisão. Antes, nos ¼, passo o dia em Samara, uma cidade-praia, e acompanho ‘in loco’ o insosso Inglaterra 2:0 Suécia. À noite, no hotel, começo a ver pela televisão o Rússia vs. Croácia. Estou sozinho, na boa. De repente, o hall é invadido por russos. Todos a puxar pela Rússia. Sou o único croata. Sem o ser. Calado, sou um poeta. Tempo regulamento, prolongamento e penáltis. Que silêncio, que sufoco. Nem quando Rakitic fixa o 4:3, puxa vida. Só quando os russos desertam, aí sim, posso dar largas à minha alegria.

Quatro anos, no Brasil, uma sensação diferente. É o jogo de abertura do Mundial-2014, lá em São Paulo, no Itaquerão. Eu, também em São Paulo, mas longe do novo estádio, numa loja de cachorros quentes, encostada à Avenida Paulista. Ao intervalo, 1:1. Saio para espairecer. Silêncio total. Incrível. Entro na Avenida Paulista e? Silêncio e zero tudo. Zero é mesmo zero. Não há pessoas a esbarrar umas nas outras, não há peões nas zebras (passadeiras), não há carros a cruzar as ruas, não há restaurantes abertos, nem botecos, nem shoppings, nem livrarias. Só os semáforos continuam os mesmos, a funcionar direito. De resto, é uma cidade fantasma, só alimentada pelo som das cornetas aqui e ali. Arrepiante, até porque a Avenida Paulista é um centro de emprego e também residencial – se fosse encaixada em Portugal, só perderia em habitantes para Lisboa, Porto e Braga.

Croácia, mais uma vez. Ponto de prévio, outro. Amo a Croácia. Desde Abril 2002, quando a percorro de carro desde Zagrebe até Dubrovnik, à boleia do imortal César de Oliveira, ao volante de um Fiat Stilo branco. É uma viagem de tirar a respiração, tal é a beleza do mar, da terra, do ar. Viajamos dentro de uma paisagem, dentro de um postal ilustrado. Com uma excepção (Liubliana, Eslovénia) ou outra (Parque Plitvice), só vejo mar à minha direita durante 14 dias.

Zagrebe. É pequena e simpática. Os carris dos eléctricos serpenteiam por toda a cidade. Quando somos despejados no centro, há um certo deslumbramento no ar. A Praça Jelacica é grande, com não sei quantas ruas secundárias imperdíveis. Dá vontade de percorrê-las a todas e espreitar todos os cantos e recantos. O ideal é largar o Fiat num lugar qualquer e andar a pé. Também há a Catedral de São Marcos, a rua pedonal de Tkalciceva e o Teatro Nacional, pontos obrigatórios de passagem antes de nos fazermos à estrada, junto ao mar, sempre encostado ao mar. É melhor é, até porque já acumulamos duas multas por estacionamento indevido.

De Zagrebe para Rovijn e, depois, Plomin. Estamos sempre a esbarrar na história da ex-Jugoslávia. Há monumentos a perder de vista e há história em todo o lado. Esta Croácia da marginal é assim, repleta de igrejas centenárias de mil quinhentos-e-troca-o-passo e casas no seu estado mais puro, avesso a mudanças e guindastes. Viva o presente preservado pelo passado. De Plomin para Opatija, uma espécie de Riviera croata, nas redondezas de Rijeka. Há uma promenade de 12 quilómetros a fazer lembrar a de Oeiras-Cascais, com pequenos bares e restaurantes estrategicamente colocados, sem atrapalhar a paisagem. Belíssima, por sinal.

Agora a pergunta de um milhão: poderá haver uma cidade sem vogais no nome? Pois bem, apresentamos Krk. Beba um shot e experimente dizê-la. Outro shot. Mais um. Se tiver soluços, diz Krk como eles, os croatas. É a maior cidade (5 mil habitantes) na maior ilha no Adriático. Ocupada por austríacos, italianos e alemães (isto só no último século), Krk é uma preciosidade. Tal como Vrbnik e Malinska. Tudo vilazinhas costeiras, de um encanto admirável. Há prédios datados de 1471 e algumas pessoas também parecem saídas dessa época, tudo com estilo e classe do além.

Já é noite cerrada à chegada do parque Plitvice e só nos apercebemos da magnitude do cenário na manhã seguinte. É uma área imensa, imensa, imensa. Como estamos em Abril, zero de turistas. Só o guia. E a visita é personalizada, com uma paragem mais demorada que o habitual sobre os singulares lagos Plitvice, classificados Património da Humanidade pela UNESCO. O que salta mais à vista é a força das cores (o azul da água e o verde da vegetação), misturada com os sons de todos os animais possíveis e imagináveis. É um festival assustador, porque só estamos habituados aos sons urbanos e, de repente, estamos metidos numa selva organizada, em que o mínimo barulho de um lagarto a escapar-se por um molho de folhas dá-nos a impressão de estarmos no Parque Jurássico. Sem dinossauros, óbvio.

De um Património da Humanidade para outro. Fundada pelos gregos no século III a. C., Trogir é um mimo. É uma cidade tão pequenina que nos apetece abraçá-la, envolvê-la nos nossos braços e levá-la para casa. O seu centro histórico tem dez igrejas mais fortalezas, muralhas, castelos, palácios e catedrais.  Um pouco à frente é Primosten, conhecida pelas extensas vinhas, candidatas a Património da UNESCO. Na manhã seguinte, avista-se Makarska, outra localidade cativante com três igrejas (a mais antiga do século XIII) e uma estátua de Auguste de Marmont, braço-direito de Napoleão.

A chegada à ilha de Brac equivale à descoberta de um vasto areal. A capital Bol é uma praia famosa no Verão, agora deserta e com o mar a sussurra-nos em forma de pequenas ondas, inofensivas. Está na altura de partir para outra, de voltar a ver pessoas. Orebic, aí vamos nós. A vila só tem 1949 habitantes e está relegada para um segundo plano pela proximidade a Dubrovnik – 51 quilómetros feitos num abrir e fechar de olhos. Bem, o melhor é nem sequer fechar os olhos porque (mais uma vez) o cenário é deslumbrante, com montes escarpados à esquerda e mar à direita.

Dubrovnik transmite mais vibrações positivas, por se tratar de uma cidade fortificada parada no tempo. Dentro das muralhas, todo um mundo novo e, ao mesmo tempo, medieval. O dramaturgo irlandês George Bernard Shaw sintetiza a minha ideia na perfeição: “Se quer ver o paraíso na terra, venha a Dubrovnik.” Sem esforço, por lá ficaríamos. No paraíso. E ainda sem pagar as duas multas de Zagrebe.

Multas? Insisto, a selecção portuguesa devia pagar multa por velocidade reduzida na autoestrada para a glória e Martínez também, pelas conferências de imprensa. As palavras do espanhol soam àquele cartoon da Mafalda, na sala de aula. A professora prende a atenção dos alunos. “Quem me sabe dizer uma palavra começada por P?” E eis Manelinho, geralmente muito cabeça no ar e pouco interventivo, levanta o braço e põe-se de pé ao lado da secretária. Mafalda antevê o pior: “Lá vem asneira”. E Manelinho diz: “Política.” O desabafo de Mafalda é elucidativo: “O que é que eu dizia?”

O selecionador de Portugal, Roberto Martinez, durante uma conferência de imprensa na véspera do jogo da seleção contra a Colômbia, em Miami Gardens, na Flórida, a 26 de junho de 2026. AP Photo/Rebecca Blackwell

Agora a sério, sem ser uma tira de Quino, o que é aquilo? “Quando marcámos o primeiro golo, essas emoções foram negativas (…) Parabéns a toda a equipa pela exibição de hoje.” (RD Congo) “Tentámos ganhar (…) Ganhar o grupo não dá uma vantagem” (Colômbia). Jogamos esta madrugada e, atenção, muita atenção, Portugal tem cerca de zero vitórias em Mundiais a uma sexta-feira. Em quatro momentos: Coreia do Sul 2002 (derrota), Brasil 2010 (empate), Espanha 2018 (empate) e Coreia do Sul 2022 (derrota). Está na hora de uma vitória. Será?

A preguicite aguda atrapalha-nos à grande e à portuguesa. Ou à espanhola, caso queiramos despejar toda a culpa em cima de Martínez, homem já vivido em Mundiais, com um terceiro lugar em 2018, pela Bélgica. Nesse evento, na Rússia, é engraçada a atitude de Martínez. Já apurada para a fase seguinte, após a segunda jornada, a Bélgica muda sem medos nove jogadores – só se mantêm o guarda-redes Cortouis e o central Boyata. Qual é o adversário? Nada mais nada menos que a Inglaterra. Acaba 1:0 para a Bélgica, vencedora do grupo, e, depois, vitoriosa vs. Japão (que reviravolta, de 0:2 aos 52 minutos para 3:2 aos 90+4) e Brasil (2:1 sem cambalhota no marcador) até cair com um golo solitário de Umtiti (França), na ½ final. Na despedida, em São Petersburgo, a Bélgica volta a enganar a Inglaterra, agora por 2:0. Martínez ganha créditos e, no fundo no fundo, é igual à selecção portuguesa: acaba em terceiro lugar no seu primeiro Mundial.

10 de junho de 2013, Genebra.Cristiano Ronaldo e Luka Modrić num jogo amigável da entre Portuga e Croácia. Foto de Fabrice Coffrini / AFP via Getty Images

E agora? Como somos ambiciosos desde o tempo de D. Afonso Henriques e resilientes desde o terramoto de 1755, não nos passa pela cabeça repetir os Magriços. The only way is up, só a final interessa. E o primeiro obstáculo de quatro é a Croácia, em Toronto. Repetimo-nos, em Toronto, onde o encanto está no ar. E a história protege-nos. É lá, nessa cidade canadiana, que a selecção portuguesa ganha o primeiro título da sua história, em Janeiro de 1995. E podem dizer o que quiserem, ah e tal é um torneio triangular, ah e tal o Canadá não era uma equipa de amadores, ah e tal a Dinamarca apresentou a equipa B.

Pouco interessam os argumentos, porque Portugal chega ao Canadá com um plantel de 18 convocados espalhados por 10 equipas nacionais, sem qualquer emigrante de luxo, Paulo Sousa, Rui Costa, Couto e Futre, ou artistas de primeira água ainda com Portugal, como Figo, Baía e JVP. A lista inclui Neno, Paulo Madeira, Nelo (Benfica), Secretário, Jorge Costa, Folha (FC Porto), Nélson, Oceano, Sá Pinto (Sporting), Alfredo, Rui Bento (Boavista), Vado, Paulo Alves (Marítimo), Calado (Estrela), Tulipa (Salgueiros), Barroso (Braga), Caetano (Tirsense) e Barbosa (Vitória SC).

A competição é no Inverno, em Toronto, com 13 graus negativos, num estádio coberto, com piso sintético e fiscais-de-linha femininas. O prémio pela vitória é de 200 mil contos e Portugal levanta a taça. Quem faz o obséquio é o capitão Nelo, então o número 10 do Benfica, para delírio de todos os emigrantes. Fala-se em 13 mil. Acreditamos piamente, a comunidade portuguesa é sempre numerosa. Uma vez apanhei o seleccionador António Oliveira no Porto e ele ofereceu-me uma versão mais dramática da revolução sentimental provocada pelo golo da vitória vs. Dinamarca, no último minuto, por Paulo Alves. Ouçamo-lo.

“O Barbosa está podre de cansaço e eu levanto-me do banco para o incentivar. Insultei-o tanto: ‘morre no teu posto, meu g’anda ****’. Ele começa a correr, vai à linha e cruza para a área, onde aparece o Paulo Alves para fazer o golo da vitória à Dinamarca e também o do torneio.” Nem imagino a festa? “Você não imagina é o antes.” Então? “Tínhamos sido tão enxovalhados mas tão enxoavalhados pelos emigrantes que aquele golo libertou-nos e acabou por transmitir finalmente sintonia entre os dois lados.” Emigrantes? “Não levámos a equipa principal e eles estavam... E explicar-lhes isso? Não estavam os craques, os gajos que eles adoram. Digo-lhe, nunca vi tanta gente exaltada como aí. Garanto. Nunca entrei tanto em pânico. Julguei ‘vão matar-nos’. Porque a fúria era visível, através dos insultos. A carga verbal era enorme. Pergunte a qualquer um dos jogadores desse torneio, eles confirmam. Palavra de honra.” E com o golo do Paulo Alves? “Aí foi uma festa. Passámos a deuses, num abrir e fechar de olhos.”

Olha olha, fantástica maneira de acabar o texto com uma ideia vencedora para o jogo desta madrugada: passem a deuses. Em dia de Diogo Jota, passem a deuses. Ele vai comer mais nuvens ainda e nós recuperamos a autoestima. Além de nos sentirmos nas nuvens por mais uns dias.


Foto no topo: Lisboa, 8 de junho de 2024: Diogo Jota comemora após marcar o primeiro golo da seleção nacional durante um jogo amigável entre Portugal e a Croácia, no Estádio Nacional de Oeiras, nos arredores de Lisboa. AP Photo/Pedro Rocha

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