Uma antecipação que inclui futebol feminino, Carlos Queiroz e até Pelé
Nobel. Einstein tem razão naquilo da teoria da relatividade. Dez minutos a ver o Sporting-Ovarense é um bocejo, dez minutos à conversa com as sportinguistas Carolina Mendes e Joana Marchão é uma vida extra. Vamos por partes. O desnível entre as duas equipas é enorme. Diz o resultado (6:1), diz a falta de intensidade (a primeira falta é aos 20 minutos, uma inofensiva mão na bola a meio-campo), diz a superioridade evidente (a Ovarense só entra com propriedade na grande área do Sporting durante a segunda parte). Salvam-se o hat-trick de Wilkinson, as correrias da guarda-redes para o abraço às goleadoras de serviço e alguns truques das ovarenses Beatriz (número 20), Flávia (10) e Betinha (7). Haja espectáculo e descontracção xxl entre roletas, passes de calcanhar e fintas em espaços reduzidos, tudo tudo tudo sem excepção junto à sua área, onde o perigo espreita a olhos vistos.
Seis-um. Acaba o monólogo e os adeptos saem tranquilamente pelo próprio pé. Esvazia-se a bancada central do Estádio Aurélio Pereira num abrir e fechar de olhos. Já só se vê no horizonte uma nuvem de mosquitos a pairar sobre o terreno pantanoso à volta do centro de estágio do Sporting e uma lua arrebatadora. Branca mais branca, não há – os italianos têm uma expressão curiosa para essa cor: mórbido (sou fã). É hora de descer as escadas para a zona das entrevistas, a uma semana do primeiro dérbi feminino entre Benfica e Sporting no Estádio da Luz.
Já à nossa espera, Carolina Mendes. Olhos verdes, equipamento verde. Check. Meio envergonhada, a avaliar pela mão esquerda no ombro direito insistentemente a puxar e a esticar a alça do soutien, fala sobre as suas viagens por esse mundo. Turismo 1, Futebol 0. Dona do blog “As Viagens da Carol”, a avançada de então 31 anos abre o horizonte à sua maneira: Equador, Galápagos, Islândia, Colômbia, Japão, Madagascar, Cuba, Moçambique e, imagine-se, até Berlengas. Uauuuuu, craque. “Comecei a escrever por brincadeira, até porque estava a jogar fora de Portugal e era uma maneira de estar ocupada.” Das viagens mais especiais, aquela de Madagascar, com os dois irmãos. “Fiz pela Turkish e fui parar a Saint Marie, curiosamente descoberta pelos portugueses. Como ainda não está explorada, é o paraíso. Estamos na praia sozinhos, com água transparente e areia limpa. Este ano, por exemplo, fui a Bali e saí desiludida. Há muito turismo, demasiado até.” E mais e mais? “Galapágos, aquilo é fantástico” e faz uma careta engraçada. “Parece o Parque Jurássico.”
Sai Carolina de cena, entra Joana Marchão. Defesa, 22 anos de idade, é ela a histórica autora do primeiro golo de sempre em dérbis, num particular no Restelo por Moçambique. Sabemos por portas e travessas que a Joana gosta de ler. Pois bem, faça-se a sua vontade. Se o dérbi deste sábado fosse um livro... Joana olha-nos nos olhos, sorri, pensa um segundo, dois e sai a resposta: “Quero que seja um do Saramago, muito fluído, sem pausas.”
Agora é a minha vez de fazer uma careta engraçada. Para dentro, claro. Saramago. Quem diria, hein?! Durante anos, anos e anos, convivi com o nome do homem cá em casa. Porque ele é isto, porque ele fez-me aquilo. Nunca o vi ao vivo. A ele, ao José. Nem o lera até então (só depois me ensinam o que é bom e começo pelo "Intermitências da Morte" e faço questão de me agarrar ao “Homem Duplicado”), embora os meus pais exibissem as suas obras do na primeira fila de uma das infinitas estantes de livros no escritório da minha mãe.
O assunto S é muitas vezes falado aqui em casa, nunca num tom pacífico, sempre em modo revolta. Lá está, porque ele é isto, fez-me aquilo etecetera e tal. A conversa torna-se particularmente repetitiva a partir de Fevereiro 2014, momento em que é publicado um livro do investigador Pedro Marques Gomes intitulado 'Os Saneamentos Políticos no Diário de Notícias'. O dito cujo fala de Saramago, então adjunto do director Luís de Barros no DN, como iniciador do processo de saneamento de 24 jornalistas, em nome do pluralismo. Um desses saneados chama-se.
Isso mesmo, Rui Tovar.
A distância é grande, de 1975 até 2014. Para mim. Quero dizer, em 1975 nem era nascido. Para o meu pai, a distância é escandalosamente mínima. Como se a Rua da Betesga engolisse o Rossio de um só trago. Às tantas, canso-me das queixas do meu pai. E faço um contra-ataque com sete perguntas.
- Pai, o que é que te fez o Saramago?
- Esse gajo? [a ferver] Saneou-me do DN.
- E depois?
- Depois? [a escaldar] Voltei para a Lourinhã.
- E depois?
- E depois? [em ebulição] Aguentei-me lá uns tempos até voltar para Lisboa.
- E depois?
- E depois, e depois o quêêêêêê? [explosivo]
- E depois, em Lisboa?
- Ajudei a fundar o jornal 'O Dia'
- Boa. E quem é que conheceste n'O Dia?
- A tua mãe.
- Boa. E quem é nasceu uns meses depois?
[game over, nunca mais o ouvi falar dele, do S]
Rui Tovar, Nobel. Tout-court, Nobel.
Portugal vs. Colômbia é, para mim, Saramago vs. García Márquez. Porque cada país tem o seu Nobel da Literatura. Se García Márquez é do ano de Paolo Rossi (1982), Saramago é o de Zidane (1998). Se o caso Saramago está arrumado e fechado, o de García Márquez ainda está por abrir. E vejo-me (again) no olho do furacão. A culpa (sort of speak) é de Carlos Queiroz. E também de André Figueiredo.
O Carlos Queiroz é o Carlos Queiroz, revolucionário do futebol português nos anos 70/80. O André Figueiredo é um amigo meu desde 1987, ano de entrada no Colégio Académico, ali na esquina da Avenida da República com a Duque de Ávila, cercado por instituições lisboetas do alto, como Versailles, Galeto, Bingo do Belenenses e, mais tarde, McDonald’s. Pois bem, o bom do André emigra para a Colômbia em 2012. Queiroz imita-o em 2019, como seleccionador nacional. Um amigo do Carlos sabe do bff ‘colombiano’ e encomenda-me / lhe um estudo sobre as vicissitudes da Colômbia. O André esmera-se e envia-me umas seis páginas de apontamentos. A indicação mais preciosa tem a ver com o Nobel da Literatura. Então?
García Márquez não é (era) uma figura consensual entre os seus. O de sempre, cor política e tal. Tal como Saramago, aliás. Queiroz lê o relatório, agradece-me / lhe e é testado numa das primeiras intervenções junto da imprensa, numa entrevista em directo para a Radio Caracol. Quando lhe perguntam sobre a referência maiúscula de Gabriel García Márquez, a resposta é cuidadosa. E também certeira. Ganha pontos, pois claro. Feliz da vida, o meu sentimento quando me transmitem esse momento radiofónico. Nobel. Tout-court, Nobel.
Portugal e Colômbia. Um dois três, vamos lá outra vez? Agora é bola, só bola. Dois nomes próprios. Um é Joaquim Campos, outro é Guillermo Velásquez. Quem? Dois árbitros, ambos expulsam Pelé. Aliás, os únicos a expulsar Pelé. Que reis. Por ordem cronólogica, em 1968, começamos pelo colombiano. Se não existisse, teria de ser inventado. Ele mesmo, Guillermo ‘El Chato’ Velásquez. Ex-pugilista, é o único da história a bater em cinco jogadores em vez de os expulsar e também é o primeiro a expulsar Pelé em vez de lhe bater.
O público colombiano em Bogotá indigna-se e os 50 mil espectadores no Estádio Campín manifestam-se ruidosamente. ‘Queremos o Rei, Queremos o Rei, fora El Chato.” O jogo particular entre o Santos e a selecção olímpica da Colômbia pára por instantes e só se reinicia com a substituição do árbitro. Isso mesmo, a organização relega El Chato para o papel secundário de fiscal-de-linha e autoriza a reentrada de Pelé.
O lance da revolta popular acontece aos 35 minutos, já há 1:1. Pelé cai na área e queixa-se de um penálti. Ao levantar-se, o brasileiro chama todos os nomes à mãe de Chato e este não vai de modas. A confusão instala-se. Claro, quem ousa expulsar o Rei? Diz o árbitro: “dos 28 jogadores, dirigentes e outros profissionais do Santos que me cercam, ‘só’ 25 é que me agridem; a excepção foram um jornalista, um massagista e o próprio Pelé.” O jogo interrompe-se por meia-hora, com El Chato na enfermaria.
Reatado o jogo na aparente normalidade, o Santos ganha por 4:2. Quando todos já pensam no regresso a casa, eis que Velásquez processa o Santos e nomeia um advogado, que interpõe nessa mesma noite uma ordem de prisão a todos os jogadores do Santos. E agora? Todos eles permanecem em Bogotá mais dois dias, a ver o sol aos quadradinhos, e só saem depois de pagas as despesas médicas do árbitro agredido pelos tais 25 santistas mais um pedido de desculpa por escrito!
Com 776 jogos oficiais na carreira, El Chato é ainda hoje uma instituição pública na Colômbia. Dos cinco casos mais graves de agressão a jogadores, dois ganham mediatismo nacional pela força do impacto. Não social nem desportivo, tão-só físico. Mas o caso mais famoso é, sem dúvida, o de Pelé. A propósito deste acidente, El Chato culpa os compatriotas. “Temos fama de feios, porcos e maus. Pensamos que todos os outros são melhores que nós e que os outros têm sempre razão. Somos pequeninos e diminuímo-nos ainda mais perante os outros, sejam eles quem forem. Se o Pelé assaltasse um banco em Bogotá, seria aplaudido.”
Um ano depois, em 1969, Joaquim Campos imita Velásquez. Como é que se diz El Chato em português? Ora bem, Joaquim Campos é um árbitro formidável, do mais sério que há, sem manias. Como árbitro e bandeirinha, faz nove jogos em Mundiais, cinco em 1958 e quatro em 1966, e é convocado pela federação paulista para apitar à europeia 20 jogos do Estadual e educar os jogadores brasileiros em preparação para o Mundial-70, o primeiro de todos com cartões amarelos e vermelhos.
No dia 15 Março, Joaquim Campos apita Juventus de São Paulo-Santos (1:2). Conta o próprio. “Já conhecia o Pelé desde 1958, quando ele apareceu no Mundial da Suécia e também estava por lá. Até já me tinha cruzado com ele em Maio 1960, quando o Brasil jogou em Alvalade e goleou o Sporting por 4:0, com Pelé, Garrincha, Nilton Santos e Djalma Santos. Mas aí, no campo da Juventus, foi a primeira vez de forma oficial. E ele fazia-se à falta constantemente. Ia sempre contra os adversários. E eu nunca assinalava falta. Numa dessas vezes, ele levantou-se muito depressa e chamou-me ladrão.” É expulso na hora, Pelé sai de campo e Joaquim Campos continua sem qualquer problema.
A imprensa paulista faz eco do desprezo de Joaquim Campos às bocas de Pelé. A Folha de São Paulo titula mesmo: “Ele virou costas ao Rei”. Três meses depois, o reencontro. É a final do Estadual, entre Santos e São Paulo, no Morumbi. O empate chega ao Santos para celebrar o título, no dia 21 Junho 1969. Acaba 0:0. Antes do prélio, um acontecimento extraordinário. A bola passa novamenta para Joaquim Campos. “O Pelé chamou-me e pediu-me desculpa pelos nomes que me tinha chamado no outro jogo. Sinceramente, só me lembrava de ‘ladrão’, mas tudo bem. Aceitei, claro.”
Natural de Miranda do Corvo, colheita de 1924, Joaquim Campos é o primeiro árbitro português numa final da Taça Latina (1955, Real Madrid vs. Stade Reims), o primeiro numa final da Taça das Cidades com Feira (1963, Valencia vs. Saragoça) e o primeiro em Wembley (1959, Inglaterra vs. Escócia). É também o primeiro fiscal-de-linha português de uma final do Europeu (1968, Itália vs. Jugoslávia). E, já agora, é o primeiro árbitro do mundo a fazer um desempate por grandes penalidades. Nobel.
