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Repórter da TVI e CNN Portugal

Kamikaze, quase-quase… e Portugal continua vivo

3 jul, 17:23
Portugal - Croácia (AP)
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Há jogos que se ganham pela qualidade. Outros pela estratégia. E há aqueles que se sobrevivem. Portugal viveu um desses.

Foi um verdadeiro jogo de mata-mata. Quase ficámos pelo caminho. Quase fomos para prolongamento. Quase o apito final nunca chegava. Foi uma noite construída à base de “quases”, em que o sofrimento acabou por ser o protagonista.

Pela primeira vez desde que assumiu a Seleção, Roberto Martínez mostrou uma versão verdadeiramente kamikaze. Arriscou desde o onze inicial, surpreendendo com Rafael Leão de início e apostando em Pedro Neto para explorar as alas através da velocidade. Curiosamente, justificou as escolhas com a necessidade de ter mais jogo interior, uma explicação que levanta dúvidas. Se esse era o objetivo, talvez fizesse mais sentido partir com Trincão e João Félix, jogadores naturalmente mais inclinados para ocupar esses espaços entre linhas.

A primeira parte foi de controlo territorial e maior posse de bola, mas de escassa criatividade e poucas ocasiões de golo. Uma exibição competente, mas insuficiente para desbloquear uma eliminatória desta dimensão. A verdade é que a história do jogo não se escreveu aí. Tudo mudou depois do intervalo.

O golo sofrido obrigou Martínez a abandonar a prudência. E foi então que apareceu a sua faceta mais ousada. Lançou dois avançados, sacrificou o meio-campo e aceitou jogar no risco. Durante largos minutos, Portugal perdeu o controlo do jogo e esteve perigosamente perto de perder também a eliminatória.

Foi então que o futebol mostrou, mais uma vez, a sua imprevisibilidade. Houve o golo anulado a Cristiano Ronaldo com o auxílio da tecnologia — e ontem o VAR esteve do lado português. Seguiu-se o penálti convertido, o sofrimento permanente e, quase do nada, o golo de Gonçalo Ramos, aquele que, segundo se soube depois, já tinha prometido aos companheiros no balneário.

Mas nem aí terminou a ansiedade.

Vieram mais “quases”. Quase sofríamos o empate. Quase o relógio do árbitro não encontrava o fim. Muito depois do tempo regulamentar, outro quase decisivo: a ponta do cabelo de um jogador croata evitou o que poderia ter sido um desfecho cruel.

Portugal entrou em campo desconfiado de si próprio, uma característica que, tantas vezes, parece fazer parte da nossa identidade futebolística. Cresceu durante largos períodos, acreditou mais em si e acabou também por beneficiar de decisões tecnológicas que, desta vez, lhe sorriram.

Os problemas continuam lá. A equipa revela dificuldades na criação ofensiva, perde facilmente equilíbrio quando é obrigada a correr riscos e continua demasiado dependente da inspiração individual. Mas também mostra uma capacidade de resistência que não pode ser ignorada.

Entretanto, um país inteiro viveu o jogo em estado de aflição. Cada defesa do gigante Diogo Costa aumentava a esperança, mas também os batimentos cardíacos de milhões de portugueses. No apito final, ninguém festejou antes de respirar fundo.

Portugal continua vivo. E, em jogos a eliminar, isso é sempre o mais importante.

Mas agora chega a Espanha. E contra um adversário dessa dimensão, o “quase” deixa de ser suficiente. Quase defender, quase criar, quase controlar ou quase ganhar não bastará.

Em Dallas, Portugal terá de ser tudo aquilo que ontem apenas ameaçou ser.

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