"Isto de o Ronaldo jogar a titular e o tempo todo já não dá"

18 jun, 07:30
Cristiano Ronaldo, de Portugal, corre durante o jogo de futebol do Grupo K do Campeonato do Mundo entre Portugal e o Congo, em Houston, na quarta-feira, 17 de junho de 2026. (AP Photo/Ashley Landis)
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Rui Miguel Tovar anda tão feliz que nem o empate de Portugal o deixa abananado, mas, de jura, ontem deu dois mergulhos numa praia deserta. Agora vem o Uzbequistão e Tovar acredita que Ronaldo vai ultrapassar Eusébio em golos em Mundiais. E recorda 2022, quando Diogo Costa se foi abaixo depois de uma fífia e Ronaldo e Pepe o puxaram da fossa: "Tens de rir, caralho, ganhámos. Mais uma vitória e passamos. Tu consegues rir, caralho. Bora. Ganhámos, caralho."

Começo hoje com uma pergunta: alguma vez viveram um sonho? Metam o braço no ar, sem medos. Mesmo aqueles que nunca o viveram, podem levantá-lo e desabafar "quem me dera, um dia".

Respondo eu, sem hesitações: eu estou a viver. Em Porto Covo. Vivo aqui desde Novembro do ano passado. Rectifico: curto aqui desde Novembro do ano passado. Viver é um verbo de Lisboa, com o prefixo sobre. Não é bem andar aos papéis, mas quase: os uberes, os bolts, os táxis, o metro, os autocarros, as pessoas, os turistas, as filas, as distâncias, as complicações.

Aqui é tudo feito a pé, há praias, há todo um oceano e há seres humanos, bem diferente de pessoas – por muito simpáticas, fixes, super que sejam. Uma pessoa é uma pessoa, só. Um ser humano é especial, incomparável. Se encontrarmos dois no mesmo espaço físico, senhoras e senhores, meninas e meninos, há um nome para isso: jackpot. Em maiúsculas, se faz favor: JACKPOT.

Tenho essa sorte. De viver o dia intensamente, sempre com um constante bem-estar interior, nunca antes vivido, das seis da manhã à meia-noite. Tenho essa sorte. Do dia seguinte ser invariavelmente melhor que o anterior, por incrível que (me) pareça. Há sempre um mergulho, uma frase, uma caminhada, um abraço, uma gargalhada à espreita. Há sempre calor humano. Lá está, a palavra humano. Ser humano. Aqui há. E é isso que me faz sentir assim. E nada, nem mesmo o empate de Portugal, me deixa abananado.

Isto não é Lisboa.

Prometo à malta daqui, antes do jogo: um mergulho por golo. Obrigado, João Neves. Obrigado, Wissa. Acaba o match, desmarco-me do Zé Inácio e avanço como se fosse um extremo para a praia dos Buizinhos. O sol já não banha o areal, só o mar. Arrisco os mergulhos. Um, dois. Ambos de cabeça, como os “góis” de João Neves e Wissa. A praia é toda minha, contemplo a falésia atrás de mim e, depois, a Ilha do Pessegueiro à minha frente. De repente, dou por mim a lembrar-me da Susan Sarandon e uma das últimas cenas do filme Bull Durnham.

É sobre basebol, inclui Kevin Costner e Tim Robbins (calma, pai). Diz ela sobre a insistência de Costner em bater o recorde de home-runs, já a competir num escalão inferior, pelos Tourists: “You have to respect the ball player who wants to finish the season. At least, that’s what I told myself. Baseball may be a religion full of magic, cosmic truth, and the fundamental ontological riddles of our time, but it's also a job.” No frame seguinte, Costner faz o tal home-run num estádio de terceira categoria, sob o olhar de um público diminuto e desinteressado. Enquanto se passeia pelas quatro bases, a voz off de Susan dá o toque final com um poema de Thomas Gray. “Full many a flower is born to blush unseen / And waste its sweetness on the desert air.”

Minuto 6, 1-0, João Neves. Foto de Joe Buvid/ISI Photos/ISI Photos via Getty Images
Minuto 45+5, 1-1, Yoane Wissa. AP Photo/Ashley Landis

Agarro-me ao início, à cena do “you have to respect the ball player”. Claro que sim, respect. Como diria ?, R-E-S-P-E-C-T. Falo de Cristiano Ronaldo. Respeito-o. Desde os tempos da formação do Sporting. Desde os tempos do United em que decidia a minha vida aos sábados e domingos, juntamente com o meu pai: se ele jogasse às 12h45, que se lixe o almoço a horas decentes nos hamburgúeres do Monumental, que se dane a minha entrada a horas no jornal ‘Record’, ali na Conde Valbom. Que se dane, ponto. A sua transformação como avançado afastou-me. Foram-se os dribles, a magia do futebol, e vieram os golos, a palavra mais importante do jogo. Reaproximei-me na ½ final da Liga das Nações-2019, quando o vi driblar dois suíços na bandeirola de canto, mesmo à minha frente, no Dragão. Reaproximei-me quando o Aurélio Pereira me convidou para escrever a história da sua vida e era Ronaldo, Ronaldo e mais Ronaldo, entre Futre, Futre e mais Futre.

Volto ao mesmo. “You have to respect the ball player”. Claro que sim, respeito-o. Sem reticiências, é respeito puro. E o contrário? O “you have to respect yourself”, o “you have to respect your history, your country, your teammates, your family, your friends, your audience, your fans?” O Mundial de há quatro anos, no Catar, já dera sinais de alguma ansiedade. A viagem começa no jogo de abertura, vs. Gana. a propósito de um lance pouco usual no futebol de hoje, já para lá do tempo de descontos, com 3:2 no marcador.

Há um cruzamento de Baba Rahman para a área e Diogo Costa segura. Com a bola dominada, o guarda-redes liberta-a para o chão sem se aperceber da proximidade de Iñaki Williams nas suas costas. O ganês rouba-lhe a bola e escorrega no preciso momento em que se vira para a baliza. É um susto xxl, totalmente inesperado. Pobre Diogo, treme como varas verdes. O árbitro apita para o fim e o rapaz continua desanimado. Ronaldo, já no banco de suplentes, com o colete cor-de-laranja, é dos primeiros a entrar em campo para confortar Diogo Costa.

Catar, 24 de novembro de 2022. No final do jogo entre Portugal e o Gana, Diogo Costa é abraçado por Cristiano Ronaldo no final, após um susto que quase deu o 3-3 nos últimos segundos de jogo. Getty

Há um abraço e, depois, umas palavras para Pepe. ‘Vai Pepinho. Fala com o Diogo, foda-se. Ganhámos, não tem mal.’ Acto contínuo, Pepe e Ronaldo chamam Diogo Costa e o capitão debita mais palavras de conforto. ‘Tens de rir, caralho. Ganhámos, caralho. Foi golo? Sofreste golo?’ Diogo Costa abana a cabeça, responde negativamente e junta-lhe um ‘foi por pouco’. Ronaldo insiste: ‘Então? Tens de rir, caralho, ganhámos. Mais uma vitória e passamos. Tu consegues rir, caralho. Bora. Ganhámos, caralho.’

O lance passa em repeat seja qual for o canal. O discurso de Ronaldo idem idem. Só passa de moda com o segundo jogo da fase de grupos, vs. Uruguai. Há três mudanças no onze com as entradas de Pepe (sai Danilo), William (Otávio) e Nuno Mendes (Raphaël). A capitão, claro, Ronaldo. A sua influência é mais larga que a braçadeira. Que o diga Cancelo. O lateral começa o Mundial a titular como lateral-direito. Ao terceiro jogo, é desviado para a esquerda, com Dalot à direita. Ao quarto, desaparece do onze. Ao quinto, também. Com pelo na venta, Cancelo chama Ronaldo ao seu quarto e pede-lhe explicações. De nada lhe vale, o titular até ao fim é Dalot, companheiro de Ronaldo no United na última época e meia.

Adiante, há um jogo para ganhar vs. Uruguai. Mais uma vez, a primeira parte é insossa. Portugal joga para a baliza dos adeptos ‘portugueses’. As aspas entre a palavra portugueses têm a sua razão de ser. Há mais estrangeiros que portugueses naquela bancada. Os portugueses mais ruidosos fazem-se ouvir em bom português e os mais silenciosos apresentam-se em campo (salvo seja) com camisolas vintage, e até há um com a preciosa camisola do Boavista dos anos 90 com o número 21 (de Nuno Gomes) nas costas.

Adiante, 0:0 ao intervalo. Na segunda parte, Bruno Fernandes abre o livro e desequilibra com dois golos. O primeiro é fora da área, o segundo é de penálti. O primeiro é alvo de falatório, o segundo nem por isso. O primeiro mete Ronaldo ao barulho, o segundo já não – por aquela altura, já o capitão fora substituído por Palhinha. Antes, o 1:0 é aplaudido, ovacionado e discutido.

28 de novembro de 2022, Portugal - Uruguai. É golo. AP Photo/Themba Hadebe

O hat-trick de emoções mete Adidas e FIFA nas horas seguintes. E porquê? O cruzamento-remate de Bruno Fernandes só pára na baliza uruguaia. Pelo meio, a bola sofre (ou não?) um desvio de cabeça de Ronaldo. O 7 português saí a festejar e a tal bancada dos adeptos ‘portugueses’ vibra intensamente, à Ronaldo. Até Bruno Fernandes entra nas celebrações pelo capitão. Afinal de contas, o recorde de Eusébio nos Mundiais está empatado com o de Ronaldo, já há nove-nove. Ou não?

O ecrã gigante do estádio apresenta então o autor do golo. A cara é de Bruno Fernandes, o nome é o de Bruno Fernandes e o número 8 é o de Bruno Fernandes. Whaaaaat? A decepção é enorme. Da bancada dos ‘portugueses’, acrescente-se. A maioria dos adeptos pára de saltar e de gritar por Portugal. Sentam-se inconformados, atónitos, chateados com a vida.

Ronaldo continua como se nada fosse e festeja o golo como se fosse seu. Quando é substituído aos 82 minutos, é o herói. Mais adiante, há penálti. Se Ronaldo estivesse em campo, seria ele chamado à pedra, como no jogo anterior, vs. Gana. E marcaria, como no jogo anterior, vs. Gana. Como já está no banco, é Bruno Fernandes quem avança para a marca dos 11 metros. E cumpre a tarefa com categoria.

Dois jogos, duas jornadas. Portugal está apurado para a fase seguinte. Bruno Fernandes diz de sua justiça. ‘Celebrei como se o golo fosse do Cristiano, pareceu-me que ele havia tocado na bola. Aliás, o meu objectivo era cruzar para ele. Mas marque um ou outro, é igual. Por norma, é mais significativo para os avançados marcarem, mas importante é que conseguimos o nosso objectivo.’

Ronaldo, esse, continua com a sua. ‘Tocou-me, a bola tocou-me’, diz ele a caminho do balneário, junto com outros companheiros de equipa. Mais à frente, Alexi Lalas diz aos jornalistas. ‘Estive com o Piers Morgan, ele disse-me que o Cristiano lhe enviou uma mensagem desde o balneário e, sim a bola tocou-lhe na cabeça.’ A FIFA mantém Bruno Fernandes. E agora? Edu Aguirre, jornalista do famoso programa espanhola El Chiringuito e amigo de Ronaldo, também atira mais lenha para a fogueira das vaidades. ‘Gostei de Portugal, e penso que é golo de Cristiano. Ele toca com a cabeça e é golo. A verdade é que vai ser revisto (…) A federação portuguesa está em contacto com a FIFA, só que a FIFA diz que não há provas. Então, a federação portuguesa vai enviar provas à FIFA.’

Passa-se a noite, dorme-se e já é o dia seguinte. O debate continua. Até que a ESPN emite um comunicado fornecido pela FIFA através da Adidas. ‘No jogo entre Portugal e Uruguai, com recurso à tecnologia Connected Ball alojada na bola oficial Al Rihla da Adidas, podemos mostrar definitivamente que não houve contacto de Cristiano Ronaldo com a bola no golo inaugural. Nenhuma força externa foi detectada, como mostra a falta de batimento cardíaco das nossas medições. O sensor de 500 MHz dentro da bola permite-nos ser altamente precisos na nossa análise.’

As bolas de todos os jogos do Mundial incluem tecnologia capaz de fornecer dados em tempo real aos árbitros e capta todos os toques feitos pelos jogadores através dos sensores. O resultado é preciso e ajuda, sobretudo, a informar situações de fora-de-jogo em velocidade recorde para o processo de tomada de decisão do VAR. Daí a FIFA ter apresentado Bruno Fernandes nos ecrãs gigantes do estádio ainda antes do pontapé de saída do Uruguai.

Desfeita a dúvida tecnológica, Bruno Fernandes é finalmente eleito o herói do jogo quase 24 horas depois do apito final. É uma situação inédita. E caricata. Há ansiedade pelo golo. Porque sim, porque é Cristiano e porque há um recorde nacional para igualar, o de Eusébio, autor de nove golos em Mundiais. Oito é a conta de Ronaldo. Esqueçam as diferenças. Esqueçam que Eusébio tem 24 anos e já quatro operações ao mesmo joelho quando faz os nove em 1966. Esqueçam. Os recordes são números e nove a nove é empate em qualquer parte do planeta.

Acredito no nove a nove, até acredito no dez a nove ainda em 2026. Quer dizer, vem aí o Uzbequistão. Só que isto de jogar a titular e o tempo todo já não dá. O tempo do cego daltónico já lá vai. Impõe-se uma revisão, um ajuste. Fácil, sem dramas. Até a Susan Sarandon sabe: ‘You have to respect’, disse ela.

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