SUPERCRÓNICA PORTUGAL 2-1 CROÁCIA || Que sofrimento, que loucura de jogo. Portugal esteve a perder, marcou e virou para lá dos 90 e ainda sofreu para lá dos 90. Uns contaram, outros não
Que loucura, que jogo de loucos. Desabafo feito e Portugal está apurado para os oitavos de final. Pronto, alívio nessa parte. Alívio também porque a qualificação é conseguida em cima de um jogo em que a Seleção foi melhor do que o adversário, ainda que tenha deixado vários momentos preocupantes a defender.
Num jogo em que esteve quase sempre por cima, a Seleção pecou bastante na finalização na primeira parte. A melhor oportunidade foi logo a abrir, com Bruno Fernandes a atirar ao boneco, permitindo ao guarda-redes da Croácia uma grande defesa. Tem de fazer mais o melhor jogador da Premier League.
Era uma premonição para vários momentos de quase, mas de mais nada. Portugal atacava, atacava, dominava e não fazia mais. Faltava o último passe ou a finalização certeira.
Mas estávamos melhor. Somos melhores, de resto, viu-se isso sempre que possível, tirando no pequeno período de anarquia em grande parte responsabilidade de Roberto Martínez.
A emoção, essa, estava toda guardada para a segunda parte, curiosamente a pior das duas partes de Portugal, mas aquela que mais nos fez sorrir.
A Croácia veio com outro ímpeto e mais acerto no meio-campo - destaque merecido para Mateo Kovacic, um dos melhores em campo -, dominando melhor o jogo, mesmo quando estava sem bola.
Temos mesmo de fazer uma pausa para Mateo Kovacic. Um parágrafo só para ele. Que jogador, que perfume, a galgar metros e a colocar sozinho uma equipa inteira em trabalhos. A de Portugal, neste caso. Fez lembrar os seus melhores tempos.
Foi dele que surgiu a primeira oportunidade da segunda parte, a melhor do jogo até então. Valeu a mancha de Diogo Costa, que voltou a fazer um jogo muito próximo do nível apresentado frente à Colômbia.
Só não foi do mesmo nível porque sofreu um golo e não fica 100% isento de culpas - a mancha podia ter sido melhor. Foi pouco depois desse lance que a defesa de Portugal ficou completamente às aranhas.
Rafael Leão não desceu a tempo e Nuno Mendes ficou na dúvida se devia ir ou ficar, acabando por não fazer uma coisa nem outra. Cruzamento para o outro lado e João Cancelo também fora da jogada, com Ivan Perisic a atirar lá para dentro. Diogo Costa podia ter feito melhor, claro, mas não foi o maior culpado.
Portugal ficou pior depois do golo, entrando num estado de nervosismo e ansiedade pouco recomendáveis. Ficou pior até depois de ver um golaço anulado a Cristiano Ronaldo por uma nesga de fora de jogo. Pena para o capitão, tinha ali o seu momento maior neste Mundial.
Viria a ter outro momento, mais à frente, num penálti cobrado com frieza depois de o VAR ter chamado o árbitro para ver um lance sobre Renato Veiga na área da Croácia.
Por essa altura já Portugal jogava apenas com Bernardo Silva e João Neves no meio-campo, o que foi decisivo para a anarquia que durou mais de 10 minutos - o tal pequeno período de que Roberto Martínez é culpado. Sem Vitinha no meio, ele que dominou o jogo do lado português, a Croácia viu oportunidade e cresceu para cima da Seleção.
Sucederam-se vários lances croatas, alguns deles anulados por foras de jogo, e Roberto Martínez tomou uma decisão que poucos esperavam. Tirar Cristiano Ronaldo - o próprio também não o esperava, visivelmente - e colocar Rúben Neves para reequilibrar e voltar a ganhar controlo no meio-campo. Talvez o momento mais feliz do selecionador na competição, não por tirar o capitão em si, mas por ter coragem de perceber que era isso que tinha de fazer para ajudar a equipa.
É que a saída de Cristiano Ronaldo resultou duplamente: Portugal voltou a ter controlo no jogo com mais um médio e Gonçalo Ramos ainda fez o golo decisivo.
Portugal voltou a tomar conta da partida, mas as duas equipas pareciam estar mais interessadas em não perder do que em ganhar. Valeu um cruzamento de sonho de Rafael Leão já para lá dos 90 - eram 94 - e uma cabeçada vitoriosa de Gonçalo Ramos para espalhar a loucura em Toronto, no Terreiro do Paço ou nos Aliados, além de todos os outros cantos onde existisse um português.
Golpe de teatro, sim, mas não o maior do jogo. Esse estava guardado para os 102 (!), que mais pareceram 112. Não, não é no prolongamento, e também não é o número de emergência - que quase era preciso -, é mesmo do tempo regulamentar.
A Croácia marcou, o árbitro validou e ninguém queria acreditar. Eram 10 minutos de desconto, não era suposto sofrer um golo ao 12.º. O golpe de teatro maior apareceu então, novamente em forma de VAR, que chamou para ver um fora de jogo que acabou por anular o golo.
Vitória de Portugal, vitória sofrida de Portugal, vitória merecida de Portugal. Que venha a Espanha, sabendo já que o jogo é a horas decentes.
Por favor, deixem-nos dormir.
O melhor
A coragem de Roberto Martínez para tirar Cristiano Ronaldo. Não é por ter sido Cristiano Ronaldo a sair, mas mesmo por causa da coragem do selecionador, que teve aqui o seu momento alto ao perceber o que o coletivo estava mesmo a precisar. Naquela altura era de um médio e o avançado mais desgastado era o capitão.
O pior
Confirma-se que a defesa de Portugal é um susto contra equipas que conseguem jogar à bola. A Croácia criou inúmeras oportunidades e, não fosse Diogo Costa, a história que estamos a contar podia ser outra. Tal como com a Colômbia, o problema é mais coletivo do que individual, mas João Cancelo também deixa a desejar no um para um defensivo. Rúben Dias e Renato Veiga também não estiveram muito melhor.
A surpresa
É a saída de Cristiano Ronaldo, claro, simplesmente porque tirar o capitão parecia ser impossível. Felizmente não foi, porque tirá-lo foi duplamente importante: permitiu reequilibrar o meio-campo e ainda deu o bónus do golo de Gonçalo Ramos.
