Last dance do Mundial: porque o dia seguinte é sempre mais divertido que o anterior

20 jul, 07:45
Rodri da seleção de Espanha, celebra a vitória no Campeonato Mundial de futebol no fim do jogo entre Espanha e Argentina em East Rutherford, N.J., perto New York, Sunday, July 19, 2026. (AP Photo/Ashley Landis)
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Não, no futebol não são 11 contra 11 e no fim ganha a… Espanha, no futebol são 22 em campo, tantos quantos os textos que Rui Miguel Tovar aqui publicou durante este Mundial, e não, não é uma caixa de Pandora, é uma arca de besouro, em que entrámos a corações juntos no Zé Inácio e de que saíamos com uma abaladiça brutal, quer dizer, b-e-r-u-t-a-l. Já é hora de um homem abraçar outro sem nenhum jogo de bola a dar na televisão

Abaladiça. É o termo alentejano para a última imperial de uma série delas.

(...)

Abaladiça. É o termo alentejano mais repetido até à exaustão, porque a última nunca é realmente a última. Nem a penúltima, muito menos a antepenúltima.

Abaladiça. O termo encanta-me, de tanto ouvir. É como o ‘escuta’, muleta alentejana para o ‘olha’, válido para Lisboa e, ao que sei, Porto.

Escuta, estou a viver um sonho em Porto Covo. Faça chuva, faça sol, faça depressão lá fora, faça depressão cá dentro, encontrei aqui uma comunidade de... lá está!... sonho. Chego aqui em Novembro, com casa própria a partir do dia 11. Quero dizer, 11 do 11. Há lá data mais futebolística!

O apartamento é um T2 duplex, com três camas individuais e uma de casal, lá em cima, mais três janelas generosas na sala de estar cá em baixo, todas com vista para a rua pedonal, de frente para o restaurante “O Pescador” e por cima da loja “Marysol”, cujo toldo eléctrico dá sinais de si às 10 e às 19. Se meter a cabeça de fora e virá-la para a direita, vejo o mar. Se a virar para a esquerda, é todo um mundo encantador de luzes multicolores espalhadas pela árvore de Natal. Quando chove, e o inverno 2025-26 até é castigador com infinitos mm de água por m2, é costume um arco-iris todo brilhante a embelezar-me a vista durante o processo burocrático de inserir dados no Excel de selecção, sporting, benfica, porto, 1.ª divisão e competições europeias.

E o processo criativo? Afinal de contas, estou em Porto Covo para escrever a biografia do Vítor Oliveira. E a do Manuel Fernandes. E a do Fernando Peres. Uma cegada de todo o tamanho. Porque, verdade seja dita, estou aqui em Porto Covo a partir de uma pergunta muito simples e bonita ‘porque é que não vens para aqui?’. Se Victor Hugo Morales estivesse a ver essa jogada da bancada, iniciaria o relato do golo do século ‘arranca por la derecha el genio del fútbol mundial’. Será golo? Arrisco-me a dizer que sim, porque entro numa loja e depois num restaurante para sacar números de telefone de pessoas com casas para alugar entre Outubro e Maio. Nada, estamos em Agosto e ninguém tem cabeça para pensar em Outubro. Quanto mais até Maio. Encontro o tal apartamento no site idealista, palavra puxa palavra e o senhorio marca-me o tal 11 do 11 como data de arranque. Anuncio essa notícia em primeira mão a quem de direito no 11 do 9, precisamente um ano depois de uma manhã atribulada em dois hospitais lisboetas, com direito a recuperação com pastéis de massa tenra e bolo de morango no Frutalmeidas.

Porto Covo. Arquivo TVI

O problema é... Acabou-se a papa doce. Ali em finais de Setembro, início de Outubro, a pessoa do ‘porque é que não vens para aqui?’ é vira-casacas e já é mais apologista do ‘porque é que vens para aqui?’. E agora? Já paguei dois meses mais a caução do T2. É ir e jogar o jogo pelo jogo. Lembro-me vagamente do Cristiano Ronaldo, teimoso titular da selecção portuguesa, aos 39, 40, agora 41 anos. Porque não abdicar? Ou, então, sentar-se no banco? Dou por mim bastas vezes a criticá-lo. E, agora, imito-o. Santa paciência. De mim para mim, quero dizer.

Vou jogar o jogo pelo jogo. É parvo, claro que é. E digo-o vestido com a t-shirt azul do super-homem. E sinto-me super. Super-homem e também super-parvo. E isso tem a sua razão de ser. Qual é a lógica de o super-homem ter só super poderes para o bem?! Salva uma pessoa a meio da queda livre de um prédio e dorme à noite sem uma super dor de costas? Ou impede um choque de comboios e não sente uma super pontada de dor nos bícepes? No mundo real, o verdadeiro super-homem tem de ser, também, super-parvo. Só assim se bate a bota com a perdigota.

Insisto, vou jogar o jogo pelo jogo. E o processo criativo? Adio-o. Um dia. Dois. Três. Seis. Doze. Vinte-e-quatro. A minha vida é simples. Durmo pouco, pouquíssimo. Acordo cedo, cedíssimo. Posso passear com o Arsénio até à praia do Burrinho, qualquer coisa como uma caminhada de 70 minutos, sempre com o mar à esquerda na ida e à direita na volta. A conversa também é de dois sentidos. Brutal, b-e-r-u-t-a-l. Ou também posso descer a rua, uns três minutos a pé e estou na praia. Ou a dos Buizinhos, mais perto, ou a do Banho, onde a rotunda acaba e se inicia um caminho de areia pela falésia até ao hotel do Francisco. Seja como for, é entrar na água e mergulhar como se não houvesse amanhã. É uma chapada linda. O mar refresca-me, altera-me, puxa-me para cima.

No regresso a casa, uma paragem obrigatória. É ali no Zé Inácio, um restaurante de esquina, entre a praia e o T2. Quando por lá passo, há sempre taça. Isto é, acontece uma de duas coisas: ou o Paulo abre a porta e mete-se comigo ‘vais ao banho?’ ou a Flora diz com a sua voz muito característica, sei eu lá de onde, ‘então já foi ao banho?’. O Paulo e a Flora são irmãos. Ele gere o restaurante Zé Inácio, ela o alojamento Zé Inácio. O Zé Inácio é o pai deles, figura inesquecível deste paraíso, já no outro paraíso, há coisa de dois anos. Dura 92 primaveras, é de homem. A sua figura está à vista de toda a gente, em forma de um mosaico azul e branco, mesmo no meio do restaurante.

Zé Inácio é daqueles senhores fofinhos. Pelas fotografias, check. Pelas histórias, double check. Paulo e Flora têm a quem sair. A minha relação com eles avança num ritmo tranquilo e, de repente, vejo-me no meio desta família adorável. Cada vez que os vejo, apetece-me abraçá-los. Só que. Ao Paulo, no can do. O homem tem mulher, a Carla não vai achar piada e, convenhamos, um homem abraçar outro sem nenhum jogo de bola a dar na televisão é assim pró estranho. À Flora, no can do. A mulher é casada, o George não vai achar graça (por acaso, também me dá vontade de o abraçar, tem um sorriso contagiante e é mestre na arte de brindar durante os almoços) e, verdade seja dita, o filho Diogo tem 21 anos, é lutador de muay thai, ou lá o que é, e já o vi derrubar um gajo mais alto que ele aos 12 segundos do primeiro round de um combate em Silves, com um pontapé na cabeça com o pé esquerdo. Ouchh.

Há, portanto, razões de sobra para evitar os abraços, embora os faça mentalmente, esteja aqui em casa, esteja longe, em Lisboa, a gravar para a RTP, ou no Porto, nos estúdios do Zerozero. Já cheguei a ligar ao Paulo, um dia depois de sair daqui e a menos de 24 horas do regresso, e dizer-lhe ‘saudades tuas, pá’. (tenho de acrescentar um pá para garantir masculinidade)

Além do Diogo, há as três émes. Madalena (futebolista do Estrela de Santo André, com golos aos montes) e Mafalda (cavaleira de méritos mil, com montes de medalhas), filhas de Paulo e Carla. Mariana (voleibolista do Vasco da Gama de Sines, campeã nacional dos sub15, com montes de personalidade), filha de Flora e George. A Ema, minha filha de 5 anos, dá-se bem com todas e até já conhece melhor as suas casas que eu. E também conhece melhor as suas piscinas. E já as acordou, juntamente com o Tiko, cão de estimação na casa do Paulo. A relação da Ema com os mais velhos é também de transbordar o coração, porque, ela sim, abraça-os. A todos, sem excepção. Tenho imensas fotografias de abraços. E também tenho memória de abraços vários. Um ao George, aqui no restaurante, em que se encaixa nele como se fosse uma peça de Lego. Muito bonito, desarmante, emocionante até.

Também muito bonito é o meu registo alimentar por aqui. No início, até Dezembro, vá, ainda vou ao mercado, compro peixe devidamente sugestionado pela Dona Dina e cozinho em casa, com apego sentimental pelos temperos. A partir de Janeiro, ho ho ho happy new year, ho ho ho happy meal. De lá para cá, e já estamos na segunda quinzena de Julho, almoço todos os dias no Zé Inácio e só me entreguei à carne uma única vez – e foi há uma semana, galo por encomenda, ideia do Bodel, homem da cortiça. De resto, só peixe ou marisco. Ou percebes, apanhados nessa manhã, cortesia Zé Nicolau (surfista, arquitecto, professor, canalizador, hosteleiro, enfim, homem dos sete ofícios) ou do Pedro (o homem mais abaladiço que conheço). Sempre depois de despachar os clientes todos. O almoço começa às 1430, horário de inverno, e 16, horário de verão. Come-se com uma colher, que delícia deliciosa: massa ou arroz de feijão com bacalhau, cataplanas mil, esparguete com gambas e ameijoas, arroz ou massa de feijão com polvo, peixe galo, choco, tamboril, pargo, sargo, dourada e, agora, sardinhas – nos últimos 12 dias, 79 sardinhas espalhadas por nove refeições.

No meio deste vendaval de emoções, sinto-me sortudo. E a viver um sonho, repito-me. Um sonho de cada vez, digo. Sonho um, o ver a Ema a curtir largo, as pessoas, as praias, o sítio Porto Covo. Senho dois, (con)viver em Porto Covo. Sonho três, a vida relaxada. Sonho quatro, a bonomia dos almoços longos, de animação pura. Sonho cinco, a categoria das conversas. E não só. Um dia, almoço só eu e o Paulo. Está a chover, lá fora. Acabamos o café às 16-e-tal e silêncio. Vejo o Paulo atarefado a mexer no telemóvel. Ao fim de uns minutos, mostra-me uma fotografia da filha Madalena na maternidade. Adorável. Vou à procura de uma parecida da Ema. Tauuu. Ele responde, eu contra-ataco e por aí fora. Fotografias emocionais, até vídeos, um do casamento improvisado do Paulo com a Carla, na sala de casa, com as filhas a ler a ‘missa’. Ficamos ali naquele ping-pong até às 6-e-muito. Outro momento engraçado é quando o Paulo pega na Ema ao colo, encaixa-a no peito e diz-lhe ‘agora vamos ter uma conversa de pé de orelha’. Pé de orelha, gosto. Especial especial especial meeeeesmo é sempre que a Ema entra no restaurante pela porta das traseiras e vai a correr até à recepção do alojamento a dizer alto e bom som ‘Florinhaaaaaaaaa’. Como diria um grande amigo meu, da TAP e a quem dou beijos no pescoço e também os recebo em alternativa ao passou-bem, ‘se saísses daí, seria suícidio social’.

Às segundas e terças, tenho o Mike à minha frente. Ele é inglês, tem 73 anos, vive aqui há 10 e fala-me do Tom Finney como referência futebolística. (parêntesis, o Tom Finney é dos anos 40!). Também me fala de aventuras amorosas na Ásia, na América, na Europa, bem, em todo o mundo. E de desaventuras belicistas em África, como soldado do exército inglês. Damn.

À quarta, o Zé fecha (só que não fecha, há almoço na mesma, e do best; daí o parêntesis, como se fosse o segredo mais bem guardado do universo). À quinta, é com Santinhos, de Santo André (ensina-me a levar os pratos para a cozinha e a cortar a fruta para o prato de sobremesa), Nélson, da Abela (apresenta-me as filhas gémeas e ensina-me a ir à cozinha a meio do almoço, ou depois, para ver se sobrou um naco de choco frito para degustar), e Sérgio, das Ermidas (ensina-me a beber o Invísivel e apresenta-me os dois irmãos). A meio dessa tertúlia, entra a Nicole, da loja de roupa do outro lado da rua. A mesa dos homens silencia-se e, depois, atira-lhe piropos. Ela nem pestaneja: ‘Não me chateiem hoje, estou com a neura.’ Mais piropos, a Nicole abandona a poker face e sorri. ‘Vocês pá, quem é que vos atura?!’

À sexta, Mike. Ao sábado, Mike e João dos queijos mais o filho Rúben. Ao domingo, só eu e Paulo. De vez em quando, o Francisco, do hotel. É galhofa garantida, porque está sempre a gozar com um tom sério. Até com a Ema. Quando vem acompanhado pelos dois Manéis (tio e primo), está pintada a manta. Um é do Porto, o mais velho do Benfica e o mais novo do Sporting. Eu limito-me a ouvir as bocas e rio-me perdidamente.

Garanto-vos, o dia seguinte é sempre mais divertido que o anterior. É incrível, e verídico. Perguntem ao Gustavo. Ou à Lilian. Eles também fazem parte desta movida e emprestam graciosidade xpto a qualquer evento. Mal entram no Zé Inácio, o espaço vira ‘o’ palco para ‘a’ stand-up. Por isso mesmo, o meu portátil está fechado para balanço há meses. Faço lá uns avanços no Excel para actualizar os tais ficheiros e não penso mais nisso. Nem me apetece. A parte criativa está bloqueada.

Para distrair-me, tenho de rir. Na rua, é fácil. Basta encontrar as pessoas certas, mais que muitas. Na praia, também é fácil. Basta enumerar as figuras certas: Archie Bunker e Mike, cabeça de abóbora, Snake Plissken, Doc Emmet Brown, Jack Burton, Alex P. Keaton, Norm e Cliff, Axel Foley, a dupla do Modelo e Detective, The Dude, qualquer personagem do Chevy Chase e o pai da Winona Ryder no Eduardo Mãos de Tesoura. Em casa, é fácil. Vejo aquela série em que o Ted Danson é um detective privado e escangalho-me a rir. E revejo alguns documentários, como aquele do Asif Kapadia sobre Maradona em Nápoles. E ouço litros de música nos passeios à beira-mar, até à ilha do Pessegueiro.

Uns com a inimitável Clara Silva, nadadora destemida e mergulhadora dos sete mares. Outros sozinho, bem preciso. Num desses, os meus pensamentos são interrompidos por um telefonema da Sofia, amiga do coração desde 1993. A Sofia é especial, porque telefona para falar. Ou seja, não é daquelas pessoas formatadas para o envio de áudios (como eu, por exemplo). Ela, não. É diferente, para melhor. Telefona é poucas vezes, jajajajajaja. A última chamada é de 2020, em plena pandemia. Ao ‘estás bom?’ segue-se o pedido mais estrambólico da nossa convivência. 'Preciso da tua ajuda para chegar à fala com Cristiano Ronaldo e José Mourinho.'

Hein?! Rio-me sem parar. Como assim, Cristiano Ronaldo e José Mourinho? 'Porque são as duas maiores figuras de Portugal.' Sim, bem sei, mas não os conheço de todo, nunca falei com eles na vida. 'Epá, mas tenta um deles, pelo menos.' Desligo o telefone em modo impossível. De repente, faz-se luz. Tenho o e-mail do José Mourinho. É-me dado pelo Pedro Caixinha, aquando de uma visita-entrevista a Glasgow em 2017.

José Mourinho e Cristiano Ronaldo em 2012. Foto: EPA/Javier Lizon

Uma caixinha de surpresas, Glasgow. Os condutores guiam à direita, os peões olham primeiro para a esquerda, a língua é impercetível (aquilo não é inglês nem é nada), o tempo está de chuva e há ainda a questão do adaptador de três dentes para encaixar a tomada elétrica do continente. Mind the gap, vá. A primeira troca de ideias dá-se no hotel, onde a rececionista nos elogia a mochila do Euro-2016: “Só é pena este azul, cor do Rangers”. Nem ligamos. Minuto e meio depois, já na rua, um taxista (do Celtic, suspeitamos) recusa-nos amavelmente uma corrida para Ibrox, casa do Rangers. Vale-nos o segundo táxi, cujo condutor é do Arsenal.

Uma caixinha de surpresas, o Pedro. Treinador do Rangers desde março, é ele quem nos recebe em Ibrox com um sorriso aberto e a mão direita estendida para um passou-bem à maneira. Leva-nos para a sala do staff técnico e apresenta-nos os adjuntos, um a um, por ordem de chegada: Pedro Malta, Jonatan Johanson e Hélder Baptista. Oferece-nos um café de máquina e mostra-nos seis garrafas de vinho português Vila Santa para “surpreender o treinador luxemburguês do Progrès Niederkorn. Eu não estou interessado no vinho, só quero mesmo conversa boa.” Às tantas, Caixinha fala-me de Mourinho. Que o conhece e tal. Peço-lhe o e-mail e toma lá um endereço hotmail. Escrevo-lhe a propósito da morte do seu pai. Depois começo a enviar-lhe notícias de jornais desde a hemeroteca, pedaços imperdíveis de história, da sua história. Passam-se anos, três anos: 2018, 2019, 2020.

A Sofia telefona-me e desbloqueia o Mourinho que há em mim. Escrevo-lhe assim:

heyyyyyyyyyyy

tudo fixe numa nice? o meu pedido de hoje é sentimental: o filho de um amigo meu inglês faz hoje 15 anos, chama-se jamie, mora em cheshire e perdeu a mãe há duas semanas, vítima de cancro fulminante (foi internada domingo e morreu no sábado)

adora futebol, só que não pode jogar (nem andar de bicicleta) porque tem uma dificuldade motora desde uma operação mal sucedida à meningite poucos dias depois do nascimento

pergunto-lhe se pode fazer um vídeo de happy birthday to you (se for demais da minha parte, peço desculpa por este contra-ataque de três parágrafos) (se der golo, o meu número é 915 915 050)

abcccccc grande

Envio o e-mail às 16 horas e 53 minutos. Quando faço um f5, perto das 19, já lá canta um e-mail de Mourinho. Para ser mais preciso, Mourinho responde às 18 e 35. Que craque. E, acto contínuo, envia-me o vídeo dele a dar força ao Jamie. Eu nem acredito. A Sofia também não. O Jamie, então, fica banzado. E vira a figura da sua escola no dia seguinte. E no outro. E no outro. E por aí fora.

Que figura do alto, Mourinho. Que figura do alto, Sofia. Enquanto estamos ao telefone, ela em casa, eu na praia à frente da ilha do Pessegueiro, o toque de uma segunda chamada. O visor diz PSG. E eu, completamente noutra, quem? Ele insiste, num outro dia. Pela voz, bingo: Pedro Santos Guerreiro. Conheço-o há dez anos, quando me liga a convidar para a secção de desporto do Expresso. Quando a minha resposta sai, já ele está de férias e reencaminha-me para o director Ricardo Costa. Escrevo-lhe um e-mail com uma fotografia do Vialli, ainda com caracóis e vestido à Sampdoria, no dia 18 Agosto 2016. Assim ó:

tudo bem? daqui rui miguel tovar

como gosto de exercitar a memória, tchan tchan tchaaaaaaan, faz hoje uma semana que falei com os dois pedros: primeiro, o candeias (cuja sigla pc mete medo, futebolisticamente falando); depois, o santos guerreiro (cuja sigla psg mete respeito no mundo da bola).

liguei-lhes para dar a notícia da recusa do vosso convite para integrar a equipa do expresso; o timing dita leis e, neste caso, sinto-me mais apegado à ideia do observador, cuja secção de desporto ficará órfã com a saída do diogo pombo. quer dizer, vocês já têm o gullit mais o van basten, agora contratam o rijkaard. brincadeira, não? dêem espaço aos outros pá :)

vai daí, lembro-me do vialli na sampdoria. embora o meu ídolo de sempre seja o van basten, apetece-me ser o vialli e quero jogar na sampdoria, ao lado do mancini (deve ser a rita tavares), do pagliuca (hugo tavares da silva) e lombardo (tiago pereira)

terminada a maratona telefónica, lembro-me de ti, até porque o psg menciona-te numa das conversas, antes do portugal-argentina. quando descubro o teu email num monte de papéis ainda sem identidade (nem cartão da cidadania), quero escrever-te e agradecer-te o convite e, sobretudo, a confiança na minha escrita e imagem

que haja outro draft daqui a uns tempos, abraçaço

Passam-se quase dez anos, agora o PSG já está na CNN. Nesse parêntesis temporal, vejo-o uma vez, na festa do i, n’A Barraca. Cumprimentamo-nos ao longe, com um sorriso e um abanar de cabeça como quem diz ‘heyyyyyy, tudo fixe numa nice?’, eu algemado ao balcão, entre o terceiro e o quinto schrewdriver, ele de saída. O seu convite tem a ver com 20 textos durante o Mundial. Estou em Leiria, a trabalhar para o Zerozero. Continuo apático, sem apego ao processo criativo. ‘Ligo-te para a semana e falamos melhor’, diz ele, o PSG. E eu, zero convencido.

Quando me volta a ligar, já estou em Porto Covo, dentro do Zé Inácio. What else? O ambiente transforma-me. A tal dupla Paulo/Flora. As conversas que já tivemos, e que ainda vamos ter, que maravilha maravilhosa. Às vezes, saio de casa às 7 da manhã para um banho na praia, vejo a porta aberta do alojamento e entro. Quando saio finalmente para o ambicionado banho, já são oito e meia. Ou nove. E aí chega o Paulo para abrir o restaurante. Mais um café, mais conversa. Sobre filhos, pessoas, viagens, experiências corriqueiras, memórias do dia a dia, milagres. Porque me perdi (ganhei, isso sim) na conversa da vida, só mergulho quase às onze.

Dizia, o PSG insiste na ideia da escrita, eu torço o nariz e explico-lhe. ‘Já não sou a pessoa do i, perdi-me (aqui sim) algures, não sinto alegria para me agarrar ao portátil. Até sinto alergia.’ Ele percebe a situação. Insiste. E dá-me a volta. Vou até casa, agora já é outra, mais pequena, mais perto do Zé Inácio. A uns 23 passos. A porta é a 10-A, o porta-chaves é um leão. Mais palavras para quê?

Ligo o portátil, finto o Excel, abro o Word e lembro-me da parte final do clip de abertura do doc do Asif Kapadia, acompanhada pela sensacional batida brasileira de Antônio Pinto, com um solitário Maradona em slow motion na posse da bola numa espécie de batatal. Entra a voz off de Diego: “Cuando yo voy a alcanzar la cancha... ... se va la vida... ... se van los problemas... ... se va todo”

Uma vénia à irmandade de Porto Covo. Estendeu-me a passadeira do ‘se va todo’. Uma vénia ao PSG. Apresentou-me a ‘cancha’.

 

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