Antes de 1962, "havia a moda de se decidir o vencedor de um jogo pelo menor número de cantos cedidos durante os 90 minutos". Mas foi a penáltis que os Países Baixos e a Alemanha já foram afastados do Mundial
Cádis, 2 Setembro 1962. Joaquim Campos é a referência portuguesa da final do Ramón Carranza, famoso torneio de Verão. Apita Saragoça vs. Barcelona. No final dos 90 minutos, 0:0. Após prolongamento, 1:1. Golos de Marcelino, pelos aragoneses, e Ré, pelos catalães. E agora? Meninas e meninos, vai começar a dança dos penáltis.
Isso mesmo. Pela primeira vez, um desempate por penáltis.
Joaquim Campos conta a história. “Antes desse desempate, havia a moda de se decidir o vencedor de um jogo pelo menor número de cantos cedidos durante os 90 minutos. Mas era pouco prático. Até que um director do Cádiz lembrou-se dos penáltis. E fui eu o contemplado.”
Atenção, senhoras e senhores, um desempate bem diferente. “Cinco seguidos para o Saragoça e outros cinco para o Barcelona.” Como? “Moeda ao ar para decidir quem marcava primeiro e o guarda-redes do Barcelona vai para a baliza. O Saragoça avança, um dois três quatro cinco.” Quantos golos? Duca golo, Seminario golo, Lapetra ao poste, Santamaría fora, Yalza, o guarda-redes, golo. Três, ao todo. “Depois cinco penáltis do Barcelona”. Quantos golos? Benítez golo, Ré golo, Camps defesa de Yarza, Cubillas defesa de Yarza e Rodri golo. Três, também três. Empate. E agora?
“O presidente do Saragoça pede moeda ao ar, o do Barcelona uma segunda série de penáltis. O alcaide de Carranza lança moeda ao ar para ver quem ganha. É o Barcelona, mais penáltis. E agora o primeiro a marcar é o Barça. Mais cinco!”. E o Barcelona marca todos, por Goyvaerts, Benítez, Ré, Gracia e Vergés. O Saragoça acusa o toque e falha o primeiro remate, por Duca. Ganha o Barcelona, fim da história.
Fim da história? Essa é boa. Fim da história no Ramón Carranza 1962. Daí em diante, o desempate por penálti é uma realidade bem evidente e corriqueira em (quase) todas as competições. O quase tem a ver com a final da Taça de Portugal, porque o Jamor só assiste ao primeiro desempate em 2015, no último jogo de Marco Silva à frente do Sporting, vs. Braga.
Em matéria de Mundiais, a FIFA legisla o desempate de penáltis em 1970, na mesma edição em que se estreiam os cartões amarelos e vermelhos.
Nada em 1970. Nada em 1974. Nada em 1978. Já em 1982, RFA e França esgrimem argumentos à distância dos 11 metros. O primeiro de sempre a falhar é o alemão Uli Stielike, então no Real Madrid. Defende o guarda-redes Ettori. Estamos a 8 Julho, em Sevilha. O calor aperta, a malta empertiga-se toda. RFA ou França? França ou RFA? Avança a RFA, já na segunda série. Schumacher veste a pele de herói, no mesmo jogo em que lesiona gravemente Battiston com uma saída selvagem fora da área. O árbitro nem ai (amarelo) nem ui (vermelho). O público assobia ruidosamente e torce ainda mais pelos franceses. Em vão, a RFA sente-se bem na pele do ‘maus da fita’ e segue para a final, perdida para a Itália cor-de-Rossi.
Quatro anos depois, a RFA repete a experiência do desempate por penáltis, agora em Monterrey, nos ¼ final, com o anfitrião México (à baliza, Larios), e sai-se lindamente. Quatro golos em quatro, 100% de eficácia. Mais quatro anos e, voilà, outra vitória sem espinhas, vs. Inglaterra (Shilton), na ½ final, em Turim. Quatro marcadores, quatro golos: 100%. A quarta e última vez é em 2006, no lar, doce lar. Em Berlim, vs. Argentina (Abbondanzieri), para os ¼ final, quatro em quatro. É dose, chi-ça.
Até chegar ao Mundial-2026, a Alemanha acumula só vitórias em desempates por penáltis: quatro em quatro. Quanto a marcadores, 18. E só um erro, o de Stielike em 1982. Desse esse até 2026, qualquer coisa como 14 penáltis seguidos sempre a marcar. É a Alemanha a ser Alemanha? É a Alemanha a ser Alemanha!
Entre o falhanço de Stielike em 1982 até 2026, a Alemanha marcou qualquer coisa como 14 penáltis seguidos em Mundiais. Não falhou nenhum.
Boston, 29 Junho 2026. Penáltis da Alemanha vs. Paraguai, nos 16 avos. O primeiro a avançar para a marca é Havertz. O número 7 atira com o pé esquerdo e o paraguaio Gill defende. Começa o martírio. Gill defenderia outra bola de um alemão, Woltemade (número 11) e, depois, é o central Tah (4) quem falha o alvo, por cima. Completa a faena um tal de Canale. Acaba 4:3 para o Paraguai e a Alemanha perde o primeiro desempate de penáltis de sempre em Mundiais – e passa de um falhanço para... quatro!!!!
Curiosidade maiúscula, é um alemão quem inventa o desempate por penáltis. Chama-se Karl Wald, árbitro profissional nos anos 40/50. “Foram incontáveis os jogos que decidi por moeda ao ar. Nunca me senti bem ao cumprimentar o vencedor e muito menos o vencido. Por isso propus o desempate por penáltis à federação da Baviera.” E então? “A medida espalhou-se rapidamente pela Europa e pelo mundo.” Primeiro em Cádis, depois em Sevilha, finalmente em Boston.
A história de Portugal em penáltis no Mundial é curta. E bem sucedida. Faz anos amanhã, aliás. Vinte anos, data redonda, eeeeeeeep uraaaaaayyyyy. Festeja-se o centenário do Sporting e o guarda-redes leonino Ricardo decide brilhar com três defesas a remates de Lampard, Gerrard e Carragher – só Hargreaves o engana. No outro lado, Robinson nem um defende. Tem é a sorte de ver uma bola ao poste (Hugo Viana) e outra ao lado (Petit) – de resto, os suplentes Simão (capitão, com a saída de Figo) e Postiga garantem uma vantagem tranquila e é Ronaldo quem acaba com a dúvida, em Gelsenkirchen.
Nisto dos penáltis em Mundiais há curiosidades mil. Como a Holanda, também ela derrubada da marca dos 11 metros, vs. Marrocos, umas horas depois da Alemanha. Ponto da situação: a Holanda só ganha um desempate em quatro. Dos 17 remates, todos à baliza: 11 dão golo, seis correspondem a defesas dos guarda-redes e zero fora. Esta noite, em, a Holanda cai sem honra nem glória. E dos três penáltis falhados, um vai ao poste (Kluivert), o outro falha o alvo (Timber) e o último é defendido (Summerville).
De resto, há três jogadores envolvidos em três desempates, mas só dois têm golos em todos: Messi 2014 (Holanda), 2022 (Holanda), 2022 (Argentina), e Modric 2018 (Dinamarca), 2018 (Rússia), 2022 (Brasil). O terceiro elemento é Roberto Baggio, certeiro em 1990 (Argentina) e 1998 (França), vilão em 1994 (Brasil).
Seja como for, o maior da aldeia é Brehme. O lateral-esquerdo marca dois golos em dois desempates, o primeiro com o pé esquerdo, vs. México em 1986, e o segundo com o direito, vs. Inglaterra em 1990. Master of the universe.
Façamos zoom aos jogadores de equipas portuguesas. Quem é o primeiro num desempate? Balakov num Bulgária vs. México. O número 10 atira com o pé esquerdo, defende Jorge Campos. Nunca mais o Sporting avança para uma decisão. O FC Porto também só tem um representante, o tal de Postiga vs. Inglaterra em 2006. Já o Benfica reúne uma assembleia de seis ilustres, entre dois portugueses (Simão e Petit 2006), um paraguaio (Cardozo 2010), um uruguaio (Maxi Pereira 2010) e dois argentinos (Garay 2014, Enzo Fernández 2022). Destes, falham Petit (ao lado), Maxi (à barra) e Enzo (ao lado).
Qual é, afinal, a táctica para se sair bem nestes casos de aperto psicológico? Um grupo de investigadores de todo o mundo vê e revê penáltis de todos os Mundiais, Europeus e Jogos Olímpicos. Quatro conclusões: a) dê quatro a seis passos para trás, de modo a chutar a bola com a força adequada (o ideal é entre 90 e 104 km/h); b) depois de soar o apito do árbitro, demore três segundos ou então mais de 13 para enervar o guarda-redes; c) atire com a parte de dentro do pé, porque aumenta 25% as possibilidades de marcar; d) remate para o meio – em 93,7% dos casos, o guarda-redes atira-se para um dos lados.
