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Ganhamos sempre a 6 de julho. E às segundas. Para dar sorte, em dia de Portugal - Espanha convocamos Futre Futre Futre Futre!

6 jul, 11:09
3 de junho de 1986: Paulo Futre, de Portugal, em ação durante o jogo do Campeonato do Mundo contra a Inglaterra, no Estádio Tecnológico, em Monterrey, no México. Portugal venceu o jogo por 1-0. \ Crédito obrigatório: David Cannon/Allsport
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Hoje temos tanta estatística boa que como se fosse o Futre a driblar. Futre é vitamina C, D, K, todas de A a Z. É um homem que nos abraça como se o mundo acabasse no minuto seguinte. Que driblemos hoje a Espanha, olé!

Nunca saberei, paciência. Ou 1982 ou 1983. Só sei que o meu pai me leva pela mão a um jogo dos juniores do Sporting, ali naquele pelado sem bancadas mesmo ao lado do Estádio José Alvalade. A ideia é ver um jogador de quem se fala à boca cheia. Adorava ter memorizado o diálogo, encostados naquela barra de ferro a separar os actores principais, aspirantes à equipa principal, e os figurantes, vulgos espectadores. Adorava. Só que não. Tenho uma ideia bem viva, a do verde do equipamento do Sporting. E tenho uma segunda ideia, alertada pelo meu pai: ‘Olha o número 10.’

Procuro-o nas minhas imediações. Nada. Esforço-me mais um pouco. Aaaah, está lá ao longe, bem longe, na ponta esquerda. Agora parece óbvio, na altura sabia lá a sua posição. Só conhecia outros efés do Sporting: Fraguito e Freire. Dessa manhã no relvado número 2 do Sporting, o Futre faz-me voar. Ou melhor, faz-nos voar. Toda a gente estima-o, toda a gente delira com a coragem de encarar os adversários. Sim, no plural. Porque ele dribla um, dois, três, os que forem. Quero que a jogada saia perfeita, quero que o cruzamento seja pingado e quero que se faça justiça a este combinado explosivo de emoções com o golo. Em vão, não há golos para ninguém. Das jogadas do Futre, digo. O Sporting, esse, ganha por uns cinco ou seis.

Paulo Futre aos 17 anos, no Sporting. Arquivo Mais Futebol

F-U-T-R-E. Pósteres, calendários, postais. Colecciono tudo do Futre. É uma febre. Quando sai do Sporting para o FC Porto, no Verão de 1984, também faço o mesmo caminho. O meu pai, piurso. O vira-casacas é coisa que não lhe assiste. De todo. É do Sporting desde sempre. E, na altura, poucos sabem com propriedade. E não me venham com a lenga-lenga do já sabiam há muito. Mentira. Pinóquio. E sei-o, porque apanho tanta tanta tanta mas tanta gente que se mete com ele na rua a falar do Benfica. E ele dá-lhes corda. A malta do nosso quotidiano, fossem taxistas (com o galhardete do Benfica pendurado no retrovisor), empregados de restaurante, tão-só peões. Benfica, Benfica e mais Benfica. E o estado de forma de Carlos Manuel? E as saídas do Bento? E as fintas do do Diamantino? E o armário do Magnusson? E o filho do José Águas? Tudo é motivo por dá cá aquela palha.

Piurso. Ainda e sempre. O meu pai, claro. Eu, feliz da vida. O Futre joga nas horas, é eleito o melhor do campeonato em 1985. E também o será em 1986, ano em que o vejo em carne e osso no Bonfim. Que tarde, senhoras e senhores. Pura sorte, destino e tal, o meu pai é o enviado-especial ao Bonfim, em Setúbal. Choco frito? Choco futre, isso sim. Nem me pergunta se quero ir. É dia de Futre, aliás F-U-T-R-E. Lá vamos nós, na banheira da RTP (Peugeot ou Citröen?, eis a questão). É o dia 13 Abril 1986. Inesquecível. Ainda futebol de 1 a 11. Ainda futebol à tarde. Ainda futebol de estádio cheio. Ainda futebol da entrada das equipas à vez.

Arquivo pessoal de Rui Miguel Tovar

É a penúltima jornada, o Benfica é líder com dois pontos de avanço sobre o FC Porto. E o Sporting? Já não conta. E, para cúmulo, não ganha na Luz desde 1965. Missão impossível? Talvez não. Morato e Manuel Fernandes marcam bem cedo, 0:2. O esgar de surpresa no Bonfim é divinal. Mesmo quem não leva o transístor para o estádio, a tabela dos 13 jogos do Totobola anuncia-se em cima da bancada, topo sul. E o jogo 1, o dérbi, dá 2. Isso, o Sporting ganha. E o FC Porto? Ainda 0:0. Às tantas, aos 40 minutos, é canto do lado esquerdo para o Vitória e Mlynarczyk sai-se bem. Dos seus braços, sai um lançamento dos dele para o meio-campo onde está Futre a correr como se fosse um extremo (e é mesmo) até chegar ao golo solitário com um remate enrolado. Festa grande, enorme. O FCP tem o título de campeão na mão, a 90 minutos de distância.

Com o estádio já vazio, desce-se ao relvado para entrevistar Artur Jorge. Enquanto ele fala com o meu pai, aos microfones da RTP, junto à linha do meio-campo, precisamente no local onde o Futre recebe a bola de Mlynarzcyk, eu corro como se fosse um extremo até chegar à baliza do golo. Festa grande, enorme. Segue-se o meu primeiro controlo antidoping. Ali mesmo. Que as redes me perdoem.

Gazeta dos Desportos noticia salário de Futre em Espanha. Arquivo pessoal de Rui Miguel Tovar

F-U-T-R-E é campeão europeu em 1987. Me too, eeeeeep eeeeeep uraaaaaayyyyyyy. F-U-T-R-E sai para o Atlético Madrid. Not me. Volto para o Sporting. O meu pai, encantado. Vira-se a década, estamos quase-quase no bug do milénio. Diria 1999. E porquê? Futre aventura-se no futebol japonês e estreia-se pelo Yokohama Flugels, em Abril. O meu chefe do futebol internacional no jornal Record marca-me uma entrevista com Futre, por telefone, à hora de almoço.

Tenho ideia de ser uma segunda-feira, dia em que os bilhetes de cinema são low cost. Por isso mesmo, vejo a sessão matinal do ‘Seven’ no Monumental. A sala está vazia, o filme entra-me pelos olhos, chocalha-me os ossos, cola-se-me na pele. É extraordinária, a magia da sétima arte. Saio abananado do cinema. E contrariado – o ‘mau’ ganha, ó caraças. Lá se vai o conforto. Ainda por cima, as nuvens descarregam uma chuva grossa e insistente. Tal e qual o ‘Seven’. Molho-me todo até chegar ao metro, ali a dois passos da porta do Monumental. O metro está à pinha, há empurrões indesejáveis e encontrões inevitáveis. Apetece-me bater em alguém, obrigado ò David Fincher.

Saio finalmente da lata e respiro melhor na rua, a subir o Elevador da Glória até ao Bairro Alto. Chove copiosamente, irra. Viro à direita antes do McDonald’s, subo toda a Travessa da Queimada, faço um esse e entro no Record. Completamente encharcado, totalmente zangado com a vida e sem vontade nenhuma de interagir com quem quer que seja. A secção do futebol internacional já é no primeiro andar, a secretária do telefone para chamadas internacionais é a do chefe, ali ao fundo, no canto esquerdo. Ligo o número do Japão, atende-me Futre. Solto as primeiras palavras, de apresentação. ‘Estou a ligar de Portugal, Lisboa, jornal Record. Sou o Rui Miguel Tovar.’ Sou interrompido. ‘És o filho do Rui Tovar?’ Ao sim, uma caterva de futrices. ‘Campeão, o teu pai é um campeão. Espectáculo. Dá-lhe um abraço, o teu pai é um campeão, campeão. Conheço-o há anos e anos, mas já não falamos há muito. Que saudades, espectáculo. E tu és o filho? Vives com ele? Que campeão. Campeão, campeão.’

Rui Tovar e Paulo Futre, 26 Abril de 1990. Arquivo pessoal Rui Miguel Tovar

Lembro-me zero da entrevista propriamente dita, das suas sensações no Japão, das comidas, da diferença horária, do futebol, da língua. Quero lá saber. Só sei que me levanto da cadeira do meu chefe no fim do telefonema com um sorriso interior grande, enorme, gigante. A azia provocada pelo sacana do Kevin Spacey já está num planeta bem distante. A alegria está de volta, Futre é vitamina C, D, K, todas de A a Z.

Ainda 1999, p’ra aí Maio ou Junho. Baile de finalistas da Universidade Católica na Kapital. Vou à boleia do finalista João Mendonça, bff desde os primeiros dias no Colégio Académico, em 1987. Juntos, mil e uma aventuras mais o interrail em 1998: Lisboa-Paris-Munique-Salsburgo-Veneza-Florença-Barcelona-Lisboa. O andar de baixo da Kapital está ao barrote, óbvio. Subimos as escadas, cortamos ligeiramente à esquerda para o bar e tropeçamos, por assim dizer, numa fila indiana de dez pessoas. Todas elas querem falar com um só ser: Futre. É incrível, a coincidência. Meto-me na fila, pacientemente. E lá sou atendido.

Quando me apresento, ele nem perde tempo e saca-me um abraço de inconfundível admiração pelo meu pai. Isto da amizade a mil à hora funciona por osmose. Depois, encosta-se ao bar e fala pelos cotovelos, sempre com o braço em cima do meu ombro. A conversa de dribles, golos e penáltis flui até um certo ponto. Tem de ser, e é pena, mas eu tenho os meus afazeres, pá. E o Futre também, ora essa. Antes da despedida, entrega-me um papelinho com o número de telefone. Nunca mais me esqueço. Do momento. Nem do número: 0034619200199.

0034 é de Espanha. E, por muitas cambalhotas que o mundo dê, por muitos heróis portugueses que se façam em Espanha, como Mourinho, Ronaldo, não há volta a dar: Futre é o rei. Do meu coração. E dos espanhóis também, desconfio. A alcunha do ‘el portugués’ é carinhosa. Digo eu. O homem é capaz de animar um velório. E só agora a escrever isso é que me lembro de ele ter aparecido no do meu pai. E não, não me animou nada. Portanto, como diria Ramalho Eanes, rrrrrrrretiiiiroooo a palavra. Mas. Mas Futre é o rei. Siempre. E sempre que sai Espanha no nosso caminho, o meu pensamento desvia-se inevitavelmente para Futre, o português mais espanhol de todos os tempos. E/ou el espanyol más portugués de todos los tiempos.

Tornamo-nos conhecidos. Aliás, amigos. Futre é incapaz de ser conhecido de alguém, porque o homem abraça-nos como se o mundo acabasse no minuto seguinte. Amigo, sempre amigo. É ele quem me orienta no livro do Aurélio Pereira, lançado em Junho 2021, na véspera de um… Espanha vs. Portugal, no Wanda Metropolitano, a nova casa do Atlético Madrid. Antes, há o processo de entrevistas em casa do ilustre, todas as quintas-feiras, e recolha de depoimentos. Aurélio, como homem do alto que (ainda) é, convida-me para um almoço com moços dos anos 80, no Montijo. Aparecem os habituais, Mário Jorge, Litos, Sérgio, até Paulinho, o roupeiro do Sporting.

Já depois das entradas, irrompem pelo restaurante dentro a ala esquerda que o país só vê nas camadas jovens: Fernando Mendes e Paulo Futre. O primeiro animado, o segundo ainda de óculos escuros, de poucas palavras. Durante o almoço, Ele solta-se. Calha-lhe em sorte ficar à frente de Paulinho e é um fartote sem igual. “Conta lá aquela, conta lá aquela”. È uma história sobre Jorge Jesus e o esquema de um treino que mete bolachas, nome utilizado para pinos rasteiros, daqueles de sinalização na estrada. Paulinho desenvolve o tema, Futre escangalha-se a rir. E pede bis, tris e por aí fora.

Futre entrevistado por Maria João Lourenço para a TV Guia. Arquivo pessoal de Rui Miguel Tovar

Só à sobremesa é que Futre se desmarca para o lado oposto da mesa e cola-se a Aurélio. Mestre para aqui, mestre para ali. À saída, tudo pago e vamos dar de fuga. Futre vira-se para mim e ‘Ruizinho, como é que está o livro? O mestre merece tudo, o melhor do melhor, já sabes, não é? Tens conseguido falar com todos os Aurélios?’ Meio envergonhado, digo-lhe que me falta o Ronaldo. Beeeeeem, eu vi a fúria do herói. O filme, com Sylvestre Stallone. Ali, naquela hora, vejo a sequela, com Futre. Ele tira os óculos escuros, saca do telemóvel e dá-me o número dele, de outro ET.

Também é um 0034. Só que mete 663339901. A foto de perfil é Cristiano com o filho mais velho, à frente do símbolo da Juventus. Escrevo-lhe e nada. Tranquilo, entendo a cena. Nem se aterrasse no Ártico, nem aí Ronaldo teria sossego. Os pinguins batiam palmas ou assim. Quer dizer, nem sei se há pinguins no Ártico, mas ‘prontos’. Para facilitar a coisa, se Ronaldo viajasse para o parque jurássico, acredito mesmo que os dinossauros paravam de esmagar outros animais e perseguir os amigos do Spielberg só para dispensar toda a atenção no nosso capitão.

O tempo avança, já é dia da apresentação oficial do livro, na Cidade do Futebol. Como é seu timbre, Aurélio longe dos holofotes. Em casa, a viver o momento à sua maneira. Nós, lá, na FPF. O nós é o irmão do mestre, Carlos Pereira, as filhas do mestre, Mafalda e Rute, o escriba do mestre, eu, e o favorito do mestre, Futre. Quando Futre estaciona o carro, guiado pelos sobrinhos desde Madrid, é todo sorrisos. E, depois, cabbuuuummm, fúria do herói. Outra vez. Pergunta à Mafalda sobre o depoimento de Figo. Só aí Mafalda diz a verdade nua e crua, Figo não chegou a essa bola. Futre passa-se. Sai de cena, entra no edíficio da FPF. Quando sai, junta-se a mim e… "Ruizinho, já consegui o Zé." E eu sem entender nada. Só percebi depois, vem aí depoimento de Mourinho. Meu dito, meu feito. Lógico, o vídeo passa na apresentação, na qual Futre é rei e senhor no dom da palavra.

Imagens de participação de Paulo Futre num programa de Herman José, na RTP. Arquivo pessoal de Rui Miguel Tovar 

“O mestre, o mestre… Em 2008, a Espanha ganha o Europeu e um amigo envia-me uma mensagem de texto a dizer ‘Paulinho, quatro jogadores do Barcelona no plantel.’ E eu a bufar. Dois anos depois, em 2010, a Espanha ganha o Mundial e esse amigo envia-me outra mensagem ‘Paulinho, sete jogadores do Barcelona’. E respondia-lhe o quê? Bufava. Dois anos depois, em 2012, a Espanha repete o Europeu e ele ‘Paulinho, sete jogadores do Barcelona.’ Esperei, esperei, esperei. Em 2016, Portugal ganha o Euro. Agarrei no telemóvel e enviei finalmente uma mensagem ao meu amigo. ‘Portugal campeão, oito titulares e mais dois suplentes, dez jogadores do Aurélio’. Se não fosse ele, seria bate-chapas no Montijo.”

Essa boca é engraçada, porque Futre envia uma mensagem do género a Figo, já cá fora, a fumar à desgarrada. ‘Ruizinho, o que achas disto?’ Olho para o ecrã e arregalo os olhos com as letras garrafais. Uauuuuu. E eu até tenho dioptrias a perder de vista, entre miopia e astagmatismo. Começa assim ‘Luís, se não fosse o Aurélio, estavas a servir cafés em Almada’ e faço uma série de scroll downs até ao infinito e mais além. Rio-me que nem um perdido com as deambulações, todas elas a partir pedra (sort of speak). Futre pergunta-me ‘envio?’ e depois começa a driblar as palavras, os gestos, a narrativa. ‘Ruizinho, se me pedissem para estar aqui e vivesse na Austrália, vinha a nado’ e começa a nadar crawl, mariposa, bruços, um fartote.

Futre, el portugués. Nem inventado, porra. Que personagem. Não o consigo adjectivar, missão impossível. Em dia de Portugal vs. Espanha, só me lembro de Futre Futre Futre Futre, o homem que mais emoções me desperta num campo de futebol. E fora dele, quando levanta a Taça do Rei em 1992, na véspera da final do Europeu, entre Dinamarca e Alemanha. Ao seu lado, o Rei Juan Carlos. Onde? Em pleno Santiago Bernabéu, estádio do Real Madrid (ainda por cima, depois de ganhar ao Real Madrid por 2:0, golos de Schuster e... Futre!). Ainda hoje guardo uma capa da revista Don Balón (?) com a fotografia dele a levantar o caneco, tenho-a numa caixa qualquer, já cor sépia.

Arquivo pessoal de Rui Miguel Tovar

Bom, coisas sérias e actual. Hoje é dia de clássico ibérico. Em cinco jogos entre eles em torneios a sério, três empates e uma vitória para cada. A nossa é obra de Nuno Gomes, no Euro-2004. A deles é de Villa, no Mundial-2010. O nosso 1:0 é legal, até um belo remate no limite da área, sem hipótese para Casillas. O 1:0 deles é ilegal, fora-de-jogo de Villa por 22 centímetros. É a cadeia televisiva brasileira Globo quem traça a linha e apresenta o resultado no dia seguinte ao prélio. Esse jogo, também jogado num outro continente (Cidade do Cabo, África do Sul), como agora (Arlington, EUA), é depois motivo de prolongamento, porque Simão dissera na antevisão que a Espanha é o Barcelona e Portugal não é o Inter, a propósito da eliminatória europeia dessa época, porque “a nossa maneira de jogar não é ter 11 jogadores atrás da linha da bola”, em resposta a uma pergunta específica de Hugo Daniel Sousa, enviado-especial do jornal Público. Beeeem, Mourinho responde à Mourinho. “Na seleção portuguesa, só falo de Ronaldo e Pepe porque são meus jogadores [do Real Madrid]. Mas, como o Simão fez antes do jogo analogias entre Inter-Barcelona e Portugal-Espanha, abro uma exceção para dizer que o Eto'o não falhou a jogar com defesa-lateral, ele sim.”

20 de junho de 2004, Lisboa. Nuno Gomes remata e marca no jogo da primeira jornada do Grupo A do Euro 2004 contra a Espanha, no Estádio José Alvalade. AP Photo/Michael Probst

Gostei de os ver juntos, no Benfica 2025-26. O futebol tem isto. A vida tem isto. Adiante. Contas feitas, uma vitória para cada. E três empates, o 1:1 no Euro-84 (golo de Sousa, aquele do “quem remata assim, não é gago” de Rui Tovar, enviado-especial da RTP a Marselha), o 0:0 no Euro-2012 (penáltis para a Espanha, com Panenka de Sérgio Ramos, comigo como enviado-especial a Donetsk pelo jornal i) e o 3:3 no Mundial-2018 (hat-trick de Ronaldo, comigo como enviado-especial pelo Diário de Notícias, a 2333 km de distãncia, na sala de imprensa do Marrocos vs. Irão, em São Peterbursgo).

15 de junho de 2018, Sochi, Rússia. Cristiano Ronaldo comemora o primeiro golo de Portugal no jogo do Grupo B contra a Espanha no Campeonato do Mundo de Futebol de 2018, no Estádio Fisht. AP Photo/Francisco Seco, Arquivo

Portugal vs. Espanha. Tudo é possível, entre goleada, como os 4:0 na Luz em 2010, até à vitória milimétrica, como o 1:0 no José Alvalade em 2004. De inveja de mim para eles, só mesmo a movida. Sinto uma energia bem diferente quando chego a qualquer lugarejo espanhol. O ambiente divertido, as vozes altas, os pinchos, as cañas, as ruas, o centro. San Sebastian é top top top, mais top não há – até ter descoberto Porto Covo, atenção. Nos dois paraísos, um denominador (feminino) comum. Vai buscar, Portugal 1 Espanha 0. De inveja deles para nós, aquela final da Taça dos Campeões 1987 entre FC Porto e Bayern, em Viena. A televisão pública TVE passa o jogo, naturalmente, e os narradores falam pelos cotovelos sobre a superioridade alemã, e sai-me outro naturalmente.

Na primeira parte, 1:0 por Kögl. Sem rodeios, a dupla da TVE endeusa o Bayern e menospreza o FC Porto, equipa do vizinho Portugal. E por cá? Quem não se lembra, quem? Ribeiro Cristóvão e Miguel Prates, a dupla do nosso contentamento, ao serviço da RTP. O golo do Bayern é quiçá do jogador mais desconhecido do onze alemão. Ao intervalo, Artur Jorge faz entrar Frasco para o lugar de Quim e tudo muda. O favorito Bayern acumula dificuldades nunca antes experimentadas para segurar o falso 9 chamado Futre (lá está, sempre ele!). Às tantas, já o Porto está acampado no meio-campo contrário e o guarda-redes belga Pfaff a desdobrar-se em acções, Ribeiro Cristóvão diz alto e bom som: ‘Água mole em pedra dura, tanto bate, tanto bate… desta vez não fura’.

27 de maio de 198, final da Taça dos Campeões Europeus.  Rabah Madjer acaba de marcar o primeiro golo do FC Porto ao Bayern. António Sousa (n.º 9) e Paulo Futre (à direita) correm para festejar. Foto de Peter Robinson - PA Images via Getty Images

Beeeeeeem, 154 segundos depois, é o calcanhar de Madjer. Um e um. Daí a dois minutos, 2:1 do suplente Juary. Está consumada a espantosa reviravolta no marcador e o inédito título europeu do Porto é um mero pró-forma até ao apito final do belga Alexis Ponnet. O que dizem os senhores entendidos da TVE? Vitória da Península Ibérica. Isso mesmo, juntam os países e fazem-se passar por fofinhos. Desgraciados. E porquê? Dor de cotovelo, porque o Bayern eliminara o Real Madrid na ½ final. Só por curiosidade, revejo o jogo e eles começam a dizer isso já depois do 2:1. Desgraciados en doble. O futebol ibérico isto, o futebol ibérico aquilo. Só por curiosidade, assinalo os atrasos de bola para os guarda-redes. Ya, ainda é possível o guarda-redes agarrar à mão a bola passada por um companheiro de equipa. Nos 90 minutos, Mlynarczyk apanha oito bolas e Pfaff, 13.

Treze? Engraçado, hoje é dia 6 do 7. Seis mais sete igual a treze. Seis do sete? Faz hoje oito anos a vitória da Bélgica vs. Brasil no Mundial-2018. E então? E então, o treinador da Bélgica chama-se Roberto Martínez e é uma surpresa maiúscula. Acampo no bar do aeroporto, em Nizhny Novgorod, acabado de ser assaltado por um taxista, na ressaca de um desequilibrado França 2:0 Uruguai, e assisto ao 2:1 sem espinhas. Se a isto juntarmos o facto de termos vencido sempre a 6 Julho, perfecto! (1:0 vs. URSS em 1972, 2:0 vs. Gales em 2016). E se ainda falarmos da invencibilidade à segunda-feira em Mundiais, más que perfecto! (4:0 vs. Polónia em 2002, 7:0 vs. Coreia do Norte em 2010, 1:1 vs. Irão em 2018 e 2:0 vs. Uruguai em 2022). Só mais isto, no último dérbi ibérico, dá empate a dois em Munique, vitória nos penáltis e título de campeão da Liga das Nações. Tanta estatística boa, isto é como se fosse o Futre a driblar. Que driblemos hoje a Espanha, olé.

 

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