FIO DE JOGO || Faltavam menos de duas semanas para o início do Mundial de 1994 quando o Brasil acordou com uma notícia impensável: o pai de Romário tinha sido sequestrado. Durante oito dias, o futebol deixou de ser a prioridade de um país inteiro
O Mundial de 1994 ficou para a história como a competição que devolveu o Brasil ao topo do futebol mundial. Romário tornou-se o grande herói da conquista do tetracampeonato e a sua exibição nos Estados Unidos transformou-o numa lenda do futebol brasileiro.
Poucos se lembram de que, antes de tudo isso, o Brasil viveu oito dias de angústia.
No dia 30 de maio de 1994, Edevair de Souza Faria, pai do número 11 da seleção canarinha, foi sequestrado no Rio de Janeiro. A seleção preparava-se para viajar para os Estados Unidos e a notícia caiu como uma bomba. Em poucas horas, o Mundial deixou de ser o assunto principal. O país queria apenas uma resposta: onde estava o pai de Romário?
Os jornais abriram com o caso durante dias consecutivos. A Folha de S. Paulo noticiava que a polícia admitia um "sequestro demorado" e acompanhava praticamente ao minuto os desenvolvimentos da investigação. A pressão era enorme. Não estava em causa apenas a família de um futebolista, estava em causa a tranquilidade do homem em quem o Brasil depositava todas as esperanças para voltar a ser campeão do mundo, 24 anos depois.
Romário também não escondia o desespero. "Não consigo sentir-me feliz sabendo que o meu pai foi sequestrado", confessou ao The Washington Post, numa das raras ocasiões em que falou durante aqueles dias.
À medida que o tempo passava, aumentava o receio de que o avançado nem sequer viajasse para o Mundial. A Folha de S. Paulo fez manchete com uma frase que rapidamente correu o país: "Romário ameaça não ir à Copa." O próprio jogador não deixou margem para dúvidas: "Ou o meu pai aparece ou não irei."
A declaração teve o efeito de um terramoto e a investigação ganhou uma dimensão ainda maior. A Divisão Antissequestro da Polícia Civil concentrou praticamente todos os meios disponíveis no caso e a cobertura mediática tornou-se incessante. Hélio Vígio, responsável pela investigação, acreditava que até os próprios sequestradores sentiriam o peso da situação. "Romário é um ídolo importante para a seleção na Copa. Ele precisa de estar de cabeça tranquila para praticar o futebol. Mesmo sendo bandidos, os sequestradores também têm esta paixão pelo futebol. Quem sabe eles não soltam o pai do Romário?", afirmou.
Enquanto isso, a família fazia tudo o que podia para encontrar o patriarca. Segundo a imprensa brasileira da época, chegaram a ser pedidos favores a pessoas ligadas ao submundo do crime, numa tentativa desesperada de descobrir o paradeiro do homem que, sem querer, se tornara o centro das atenções de um país inteiro.
O desfecho chegou oito dias depois.
A 7 de junho, Edevair foi libertado são e salvo. A notícia espalhou-se pelo Brasil com a mesma rapidez com que o sequestro tinha dominado as capas dos jornais. O pior já tinha passado.
Dias depois, o número 11 embarcou para os Estados Unidos e o resto faz parte da história do futebol.
Romário marcou cinco golos, formou uma dupla inesquecível com Bebeto, foi eleito o melhor jogador do torneio e conduziu o Brasil ao tetracampeonato, quebrando um jejum que durava desde 1970.
É impossível saber o que teria acontecido se Edevair não tivesse regressado a casa antes do arranque da competição. O futebol raramente se escreve com "ses". Mas há uma certeza: o Mundial de 1994 começou muito antes do primeiro apito. E, durante oito dias, o Brasil esqueceu completamente o futebol para procurar o pai daquele que viria a devolver ao país a Taça do Mundo.
