Se Portugal tem Saltillo, a França tem Knysna

26 jun, 11:00
França no Mundial 2010 (François Mori/AP)
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Uma classificação conseguida à última e com muita polémica

A seleção francesa é, mais uma vez, uma das principais candidatas ao título mundial. Desde 2018 que, liderados por Didier Deschamps e Kylian Mbappé, os franceses têm performances excecionais na maior competição de seleções do mundo. Os mais novos cresceram a ver uma França sempre poderosa. No entanto, nem sempre foi assim: se 2002 já foi mau, 2010 foi mil vezes pior.

A seleção francesa entrou na competição muito pressionada. O Euro 2008 tinha sido um desastre, com uma eliminação na fase de grupos após derrotas com Itália e Países Baixos e um empate contra a Roménia. Já na altura a imprensa e a opinião pública pediam a cabeça ao selecionador Raymond Domenech, que comandava a seleção desde 2004 e levou França à final do Mundial da Alemanha. No entanto, a federação francesa manteve a confiança no selecionador.

A qualificação para o Mundial de 2010, embora tenha sido concluída com sucesso, foi conseguida à última e com muita polémica. Os franceses ficaram em segundo no seu grupo de qualificação, atrás da Sérvia, e foram aos playoffs, onde defrontaram a Irlanda. A primeira mão foi vitoriosa, cortesia de um golo de Nicolas Anelka - de quem vamos falar mais à frente -, mas no Stade de France tudo parecia que ia descambar. A Irlanda puxou dos galões e adiantou-se ainda na primeira parte, conseguindo levar a partida a prolongamento. O minuto 103 desse jogo será para sempre lembrado como o minuto em que o VAR passou a ser uma necessidade

Livre de Malouda para a área e Thierry Henry segura a bola em campo não com um, mas com dois toques com a mão na bola, dá para Gallas, que atira de cabeça para o fundo das redes. Os jogadores irlandeses correram imediatamente para o árbitro para protestar, mas nada feito; o golo foi validado. Sem vergonha nenhuma na cara, Thierry Henry festejou efusivamente como se nada tivesse acontecido. Os irlandeses foram roubados da participação num Mundial, no qual não participam desde 2002. Ainda pediram oficialmente uma repetição do jogo, mas sem sucesso. Do outro lado, Raymond Domenech manteve o emprego, com todas as consequências que isso iria ter.

Os jogadores irlandeses ficaram furiosos após o golo de William Gallas. Aqui, Sean St. Ledger, à esquerda, e Shay Given, ao centro, protestam veementemente com o árbitro da partida, o sueco Martin Hansson (François Mori/AP)
Thierry Henry não pareceu muito incomodado por ter tirado vantagem do lance irregular (François Mori/AP)

Na África do Sul, os Bleus ficaram hospedados em Knysna, uma cidade localizada na costa sul, entre a Cidade do Cabo e Gqeberha (antiga Port Elizabeth). Se Portugal tem Saltillo, a França tem Knysna.

Os franceses começaram a fase de grupos com um empate nada inspirador frente ao Uruguai. Porém, foi o melhor que mostraram no continente africano.

Um "traidor" na equipa

Ao intervalo do segundo jogo, contra o México, ainda o marcador estava a zeros, Nicolas Anelka recebeu a notícia de que iria ser substituído. A novidade não foi bem recebida pelo avançado francês, que disparou insultos contra Domenech. “Vai-te f*der, filho da p*ta” terá sido uma das frases proferidas por Anelka contra o selecionador. A partir daí, veio tudo abaixo: o México marcou dois golos sem resposta e França passou a não depender de si própria para se apurar para a fase seguinte.

Após o desentendimento, Anelka foi expulso da concentração da equipa francesa. A palavra espalha-se e, pouco depois, a troca menos carinhosa de palavras faz manchetes em França. Dois dias após o jogo, já o caos estava instalado no seio dos Bleus, Patrice Evra, capitão, faz uma conferência de imprensa em que insiste que o problema não era Anelka, mas sim um “traidor” na equipa que, ao passar a história para a imprensa, queria prejudicar a equipa.

No dia seguinte, 20 de junho, os jogadores franceses recusaram treinar da parte da tarde, em protesto contra a decisão da federação francesa de expulsar o avançado. No relvado do centro de treinos, Evra e Robert Duverne, preparador físico da seleção, têm uma troca de palavras muito acesa. Duverne sai do campo visivelmente chateado, atirando o seu apito. Os jogadores recolhem ao autocarro e forçam um impotente Raymond Domenech a ler um comunicado por eles redigido.

"Todos os jogadores, sem exceção, querem manifestar a sua oposição à decisão tomada pela FFF (Federação Francesa de Futebol) de excluir Nicolas Anelka da seleção. A pedido da seleção, o jogador em questão tentou estabelecer um diálogo, mas a sua iniciativa foi ignorada. A FFF nunca tentou proteger a seleção. Tomou uma decisão sem consultar todos os jogadores, com base nos factos relatados pela imprensa”, leu um humilhado Domenech em frente aos jornalistas.

Raymond Domenech lê o comunicado dos jogadores perante a imprensa (François Mori/AP)
Os jogadores franceses a dirigirem-se para o autocarro após cancelarem o treino em Knysna, 20 de junho de 2010 (François Mori/AP)

A FFF desmentiu prontamente o comunicado dos jogadores com uma nota. "Ao contrário do que os jogadores afirmaram, esta sanção [a Anelka] foi aplicada na sequência de uma longa conversa com o interessado, na presença do capitão. A FFF pede desculpa ao país pela conduta inaceitável dos jogadores que representam a nossa nação. Será convocado um conselho imediatamente após o término da campanha da seleção francesa, a fim de tirar todas as conclusões da crise que se gerou”, pode ler-se no texto.

O diretor da equipa, Jean-Louis Valentin, demitiu-se “enojado” com o comportamento dos jogadores. "É um escândalo para os franceses, para os jovens daqui, para a federação e para a seleção francesa. Eles não querem treinar. É inaceitável. Quanto a mim, acabou. Vou sair da federação. Estou revoltado e enojado”, afirmou.

O tema passou a ser assunto de Estado em França e motivou a intervenção do presidente francês Nicolas Sarkozy. Sob as suas ordens, a ministra do Desporto, Roselyne Bachelot, viajou até à África do Sul para “ralhar” com os jogadores. A ministra contou que alguns jogadores aplaudiram e começaram a chorar durante a palestra e resumiu à imprensa a mensagem transmitida.

"Como gostariam que as pessoas se lembrassem de vocês? Que imagem querem deixar para trás? São os vossos filhos, os nossos filhos, para quem talvez já não sejam heróis. São os sonhos das vossas companheiras, dos vossos amigos, dos vossos fãs que talvez tenham destruído. Mancharam a imagem da França”, afirmou a ministra.

"O futebol francês enfrenta um desastre, não por ter perdido um jogo, mas porque este desastre é um desastre moral. A realidade da situação tem de ser encarada. Não se trata apenas de um mau período que é preciso ultrapassar; nada voltará a ser como era antes. Foi isso que disse aos jogadores numa reunião extremamente emotiva", completou Bachelot.

Os jogadores franceses tinham, frente aos anfitriões, a hipótese de se redimirem. Podiam até nem ser passar, mas seria importante deixar uma última imagem positiva. No entanto, sem surpresa, a África do Sul levou a melhor por 2-1. Florent Malouda marcou o único golo francês no Mundial de 2010.

Após o Mundial, a FFF chamou Anelka, Evra, Franck Ribéry, Jérémy Toulalan e Éric Abidal para uma audiência de apuramento de responsabilidades. O avançado saiu de lá com 18 de jogos de suspensão, Evra cinco, Ribéry três, Toulalan um. Abidal foi “ilibado”.

Saltillo deixou a sua marca indelével no futebol português e o mesmo parece ter acontecido com Knysna. A partir daí, tudo passou a ser mais profissional na FFF e na própria seleção. Chegou Laurent Blanc e, depois, Didier Deschamps para o cargo de selecionador, com o último a manter-se desde 2012. A escolhas não foram por acaso; Blanc e Deschamps são dois dos campeões do mundo originais, por quem França tem muito respeito, principalmente no caso do atual selecionador. Desrespeitar Deschamps é desrespeitar França.

Curiosamente, este Mundial foi o último em que a seleção francesa vestiu Adidas. O equipamento para 2010 era uma homenagem à camisola de 1998. Tudo saiu ao contrário. A partir de 2011, a Nike passou a ser a fornecedora oficial da FFF, numa parceria que tem sido extremamente lucrativa para ambas.

Por fim, uma palavra para a seleção irlandesa. De certeza que teria feito muito melhor figura que os franceses na África do Sul.

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