A equipa dele foi eliminada do Mundial há 40 anos. Mas, nas bancadas, conheceu o amor da sua vida

CNN , Francesca Street
19 jul, 09:00
Mundial
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

O adepto inglês Oliver vendeu o carro para assistir à dolorosa derrota da sua equipa no Mundial de 1986, no México. Mas acabou por se sentar ao lado de Sofia, nas bancadas do Estádio Azteca. Este encontro fortuito foi o início de uma bonita e inesperada história de amor entre dois continentes

Quando Oliver Craxton entrou no Estádio Azteca, no México, a 22 de junho de 1986, foi imediatamente envolvido pelo estrondoso rugido da multidão. À sua frente via um mar de camisolas de Inglaterra e milhares de adeptos argentinos vestidos de azul. Custava-lhe acreditar que estava realmente ali.

"O ambiente era fantástico, parecia uma enorme festa", recorda Oliver, em conversa com a CNN.

O Azteca é um dos estádios de futebol mais famosos do mundo. Situa-se a 2.241 metros acima do nível do mar e foi construído em formato de anfiteatro, pensado para proporcionar uma experiência inesquecível e imersiva aos adeptos.

Nesse dia de junho, o Azteca recebia um jogo decisivo: Inglaterra contra Argentina, referente aos quartos de final do Campeonato do Mundo de Futebol de 1986.

Tudo apontava para que fosse um jogo memorável. E acabou mesmo por ser um encontro que continua, ainda hoje, a ser recordado.

Para Oliver, porém, esse dia nunca seria esquecido - mas não apenas por causa do polémico golo da "Mão de Deus", de Diego Maradona, nem porque a Inglaterra foi eliminada do Mundial.

Foi nesse dia que Oliver conheceu o amor da sua vida, Sofia Larrinua.

"Estar no Azteca durante o jogo da 'Mão de Deus'… embora a Inglaterra tenha perdido, perdeu o jogo, mas nós encontrámo-nos", recorda Oliver.

Viagem até ao Azteca

Em 1986, Oliver era um jovem na casa dos vinte anos que vivia no norte de Londres e trabalhava na autarquia local. Passava os dias a trabalhar até tarde, a conviver com os amigos e a tentar encontrar o amor.

"Nunca tive grande sorte com as namoradas… Tinha saído uma ou duas vezes com algumas raparigas apenas para beber um copo num pub, mas nada mais. Não tinha uma namorada fixa", lembra.

Na ausência de uma relação amorosa, Oliver passava grande parte das noites no pub, acompanhado pelo mesmo grupo de amigos com quem convivia desde a escola primária.

"Conhecemo-nos desde os quatro anos e costumávamos sair para beber juntos com muita frequência", conta.

Numa noite do verão de 1985, estavam todos sentados num pub no bairro londrino de Islington a discutir as hipóteses de Inglaterra no Mundial que se aproximava.

A seleção inglesa tinha conquistado o Campeonato do Mundo em 1966. Desde então, repetir esse feito parecia uma tarefa quase impossível. Ainda assim, Oliver e os amigos acreditavam que aquele podia finalmente ser o ano de Inglaterra.

"Estávamos sentados no pub e alguém disse: 'Vamos. Devíamos mesmo ir.'", recorda Oliver.

Em teoria, todos gostaram da ideia. Tinham crescido apaixonados por futebol e assistir a um Mundial para apoiar Inglaterra seria extraordinário. Mas viajar até ao México era caro e nada simples. Parecia um sonho impossível.

Contudo, um dos amigos de Oliver, Andy, parecia estar realmente decidido. O entusiasmo dele levou Oliver a ponderar seriamente a viagem.

No final da noite, os dois brindaram com os copos de cerveja e prometeram um ao outro que estariam no México no verão de 1986.

"Comprometemo-nos os dois com essa ideia", recorda Oliver. "Concordámos que seria a viagem de uma vida e, claro, foi exatamente isso que acabou por ser."

Chegar ao México não foi tarefa fácil. Oliver e Andy não podiam tirar um mês inteiro de férias do trabalho, por isso decidiram arriscar e partir apenas se a Inglaterra conseguisse chegar à segunda fase da competição.

A aposta compensou. A seleção inglesa qualificou-se para a fase a eliminar. No entanto, poucos dias antes da partida, Oliver conduzia para casa depois do trabalho quando ouviu, na rádio do carro, a notícia de que uma agência de viagens tinha declarado insolvência.

Infelizmente, era precisamente a agência onde tinha reservado os voos e os hotéis.

"Conseguimos encontrar outro pacote de viagem, mas era mais caro. Tive de vender o meu carro. Tinha um carro de que gostava muito, que até tinha comprado para tentar impressionar raparigas, mas vendi-o para conseguir pagar o aumento do preço", conta Oliver.

Contra todas as probabilidades, Oliver e Andy acabaram mesmo por chegar ao México.

Oliver e Sofia guardaram os bilhetes desse dia especial de junho de 1986. (Sofia Larrinua-Craxton e Oliver Craxton)

 Nos dias que antecederam o jogo dos quartos de final, os dois amigos aproveitaram para conhecer a Cidade do México. Foi então que Oliver começou a pensar que talvez pudesse viver um romance de férias.

"Toda a gente era muito simpática, as pessoas cumprimentavam-nos e havia uma grande mistura de adeptos nos jogos - famílias, muitas mulheres sozinhas ou em grupos", recorda. "Pensei que talvez houvesse a possibilidade de conhecer alguém, embora provavelmente fosse apenas um desejo meu."

Oliver e Andy chegaram cedo ao jogo dos quartos de final frente à Argentina. Não ocuparam os lugares que lhes estavam destinados, porque ninguém parecia prestar grande atenção ao número impresso nos bilhetes. Juntaram-se simplesmente a um grupo de adeptos ingleses que já estava sentado nas bancadas.

Enquanto o estádio ia enchendo, observavam as pessoas à sua volta. Foi então que Oliver reparou em três jovens, na casa dos vinte anos, que falavam espanhol, mas vestiam camisolas de Inglaterra.

Inicialmente estavam sentadas bastante longe deles. No entanto, Oliver viu-as mudar de lugar várias vezes, sempre que apareciam pessoas com bilhetes para os lugares onde se tinham sentado.

Na fila onde Oliver e Andy estavam havia vários lugares vagos.

"Pensei: 'Acho que vão acabar por vir para aqui.' E foi exatamente isso que aconteceu", recorda.

Oliver achou as três jovens muito bonitas. Todas sorriram ao cumprimentá-los, pareciam simpáticas e mostraram imediatamente entusiasmo e apoio pela seleção inglesa.

"Começámos a falar sobre futebol", conta Oliver.

Uma delas disse que era adepta do Manchester United - precisamente o clube do coração de Oliver.

Os dois começaram a conversar sobre a equipa inglesa e a jovem apresentou-se: chamava-se Sofia. Era simpática, sorridente e tinha cabelo castanho encaracolado. Oliver ficou imediatamente encantado com ela. Pensou que assistir ao jogo juntos podia ser uma forma divertida de se conhecerem melhor.

Entretanto, dentro do Estádio Azteca, o ambiente começava a mudar. A rivalidade futebolística entre Argentina e Inglaterra já vinha de longe. Em 1986, era ainda mais intensa devido às tensões políticas. Tinham passado apenas quatro anos desde o fim da Guerra das Malvinas (Falklands) e o clima entre os dois países continuava muito tenso. Aquele jogo representava muito mais do que futebol.

"Via-se pessoas a envolverem-se em confrontos e estavam a queimar bandeiras de Inglaterra", recorda Oliver. "Não havia separação entre adeptos, por isso havia vários argentinos na mesma bancada que nós, e alguns vieram na nossa direção. Levantei-me. Não sou propriamente um homem muito forte… mas pensei que tinha de proteger a Sofia e as amigas. Virei-me para eles e, felizmente, a situação acabou por acalmar."

Oliver acredita que foi sobretudo uma questão de sorte o incidente não ter passado dali. Mas Sofia pareceu agradecer-lhe o gesto. Quando o jogo começou, os dois aproximaram-se ainda mais. Vibraram, suspiraram, sofreram e festejaram juntos. Parecia haver uma ligação especial entre eles. Algo tinha começado.

"Senti-me imediatamente em casa"

Oliver e Sofia no dia em que se conheceram, em 1986. O casal ainda guarda as camisolas que vestia nesse dia e o chapéu de Oliver, autografado por Sofia.
(Sofia Larrinua-Craxton e Oliver Craxton)

Na altura, Sofia Larrinua, uma mexicana de 21 anos, contava os dias para o Mundial de 1986.

"Estava a terminar a universidade e não tinha namorado nem nada parecido. Estava muito feliz solteira porque estava entusiasmadíssima com o Campeonato do Mundo", conta hoje à CNN.

Embora a seleção mexicana também tivesse chegado aos quartos de final, Sofia estava ainda mais entusiasmada com o jogo entre Inglaterra e Argentina.

No ano anterior, Sofia e as amigas tinham conhecido, por acaso, a seleção inglesa. Estavam sentadas no átrio de um hotel na Cidade do México quando viram Gary Lineker e os restantes jogadores aproximarem-se.

Sofia lembra-se de ter pensado que eram "homens muito bonitos". Na altura, não percebeu imediatamente que eram jogadores de futebol.

"Vi aqueles três leões nos calções do Gary Lineker e pensei: 'Que pernas bonitas. O que serão aqueles leões?'"

Quando os jogadores se aproximaram, Sofia lembrou-se de repente de que os "Três Leões" eram o símbolo da seleção inglesa. Decidiu cumprimentá-los e Lineker, juntamente com os colegas, mostrou-se muito simpático com ela e com as amigas.

"Deram-nos autógrafos e começámos a simpatizar muito com eles", recorda.

Quando era criança, Sofia também tinha visto o filme britânico Melody, de 1971, uma história sobre um primeiro amor adolescente. Diz que, desde então, ficou fascinada por Inglaterra.

"Foi como uma epifania. Vais ao cinema em criança, vês um filme que te parece maravilhoso e sais de lá uma pessoa diferente, a pensar: 'Quero ir para Inglaterra.'"

Continuando essa paixão pelo país, Sofia tornou-se adepta do Manchester United. E quando soube que o Mundial de 1986 ia realizar-se no México, decidiu que tinha obrigatoriamente de assistir a alguns jogos da Inglaterra.

Esteve presente na vitória inglesa frente ao Paraguai, a 18 de junho de 1986. No entanto, inicialmente não tinha bilhete para o jogo dos quartos de final diante da Argentina.

"Nem sequer queria ir porque tinha um exame no dia seguinte", lembra.

Mas, quando chegou o dia do encontro, as amigas convenceram-na a acompanhá-las. Sofia decidiu ir por impulso.

"Fomos as três juntas. Eu nem sequer tinha bilhete", conta. "Estacionei o carro e comecei a procurar alguém que estivesse a revender entradas. Aproximou-se uma pessoa e perguntou-me: 'Quer comprar o meu bilhete?” Respondi logo que sim.'"

Sofia e as amigas ignoraram os lugares marcados e sentaram-se inicialmente junto de adeptos argentinos. Rapidamente perceberam que tinha sido um erro.

"Naquela altura estavam muito zangados por causa das Malvinas", recorda. "Eu tinha 21 anos, estava a usar uma camisola de Inglaterra e senti-me muito insegura. Queria mudar de lugar com as minhas amigas. O ambiente era muito tenso e bastante perigoso."

Foi então que viram alguns lugares vazios ao lado de Oliver e Andy, ambos vestidos com camisolas inglesas. Parecia uma opção muito mais segura. Mas, por uma razão que ainda hoje não consegue explicar, Sofia hesitou.

"Olhei para cima e vi o Ollie a sorrir. Fiquei muito nervosa. Não sei porquê, mas tive uma sensação estranha… Decidi que estava demasiado envergonhada e pensei sentar-me noutro sítio."

No entanto, ela e as amigas acabaram por ser obrigadas a abandonar esses lugares e terminaram, inevitavelmente, sentadas ao lado de Oliver e Andy.

Sofia sentiu-se imediatamente atraída por Oliver, mas estava demasiado nervosa para iniciar conversa. Foi então que ele mencionou o Manchester United e ela não conseguiu evitar responder.

Descobrir que partilhavam a mesma paixão pelo clube inglês "foi uma enorme vantagem", afirma.

À medida que o ambiente no estádio se tornava mais tenso, Oliver virou-se para Sofia.

"Os adeptos argentinos estavam muito zangados", recorda. "E o Ollie disse-me: 'Se acontecer algum problema, eu protejo-te.'"

Quando Oliver se levantou para a defender, Sofia ficou impressionada com a coragem e a gentileza dele.

"Pensei: 'Meu Deus, isto é mesmo bonito.' Foi aí que comecei a interessar-me ainda mais por ele."

Quando o jogo começou, Sofia sentiu-se feliz por estar a viver aquele momento ao lado de Oliver, apesar de ele ser praticamente um desconhecido.

"Pensei: 'Sinto-me mesmo bem ao lado deste rapaz.' É difícil explicar. Senti-me imediatamente em casa. Foi essa a sensação. Sentia-me muito confortável ao lado dele."

Uma noite para recordar

Na segunda parte do encontro, o argentino Diego Maradona marcou o polémico golo que ficou conhecido como a "Mão de Deus", assim chamado porque tocou na bola com a mão esquerda antes de esta entrar na baliza - uma infração que o árbitro não viu, apesar de o próprio jogador a ter admitido após o jogo.

Nas bancadas, Sofia e Oliver não conseguiam acreditar no que tinham acabado de ver.

"Nós vimos a 'Mão de Deus' acontecer", recorda Sofia. "Toda a gente viu a 'Mão de Deus'… menos o árbitro."

Quatro minutos depois, Maradona voltou a marcar, desta vez de forma totalmente legal. Gary Lineker ainda reduziu a desvantagem para 2-1, mas a Argentina acabou por vencer. O sonho inglês no Mundial chegava ao fim.

Os adeptos ingleses ficaram devastados. Mas, para Sofia e Oliver, havia ainda motivos para celebrar.

"Passámos o jogo, obviamente, a assistir ao jogo, a sofrer, a entusiasmar-nos e tudo isso. Mas também estivemos a conversar sobre várias coisas", recorda Sofia.

"Ficámos muito tristes por termos perdido", explica Oliver. "Mas muito felizes por termos conhecido aquelas jovens."

Quando começaram a sair do estádio, Sofia e as amigas sugeriram levar Oliver e Andy a jantar e mostrar-lhes um pouco da Cidade do México.

"O Ollie fingiu que eles ainda não tinham visto grande coisa - quando, na verdade, já tinham conhecido bastante da cidade", brinca Sofia. "Mas combinámos continuar juntos, beber uns copos mais tarde, assistir ao jogo seguinte e mostrar-lhes a cidade. Foi muito agradável."

O grupo terminou a noite a beber um copo no bar panorâmico do hotel onde Oliver e Andy estavam hospedados, com vista sobre a Cidade do México.

No final da noite, Sofia pegou no boné de Oliver e assinou-o.

"Ela escreveu no boné: 'Para um inglês maravilhoso. Sofia. Força Inglaterra. XXX.' Achei isso muito bonito", recorda Oliver. "Passámos uma ótima noite no hotel."

Entretanto, Andy e Cecilia, uma das amigas de Sofia, apaixonaram-se quase instantaneamente.

"O meu amigo Andy ficou completamente apaixonado por uma das amigas da Sofia."

Assim que saíram do hotel, Andy e Cecilia começaram a beijar-se numa esquina.

Oliver tentou dar a entender a Sofia que eles também podiam fazer o mesmo, mas ela limitou-se a revirar os olhos.

"Pensei logo: 'Nem pensar.'", recorda Sofia.

Ela estava interessada em Oliver, mas não queria que o primeiro beijo acontecesse numa esquina da rua. Oliver ficou envergonhado e pediu desculpa. A noite terminou de forma um pouco embaraçosa.

"Fiquei um bocadinho aborrecida", admite Sofia. "Pensei: 'Nunca mais vou voltar a ver este homem.' Mas, cerca de três dias depois, ele telefonou-me. Ligou-me e perguntou: 'Queres ir jantar comigo, só nós os dois?' Eu respondi: 'Sim, claro.'"

Quando voltou a vê-lo, Sofia quase não o reconheceu.

"Tinha o cabelo arranjado, roupa diferente… Pensei: 'Este rapaz… gosto mesmo dele.' Nem me apercebi logo de que era o Ollie."

"Fomos jantar a um sítio muito agradável e depois continuámos a sair juntos várias vezes."

Os dois casais - Oliver e Sofia, Andy e Cecilia - passaram ainda alguns dias juntos. Numa das ocasiões, foram assistir ao Ballet Folklórico do México.

"Estivemos todos juntos durante a primeira parte, mas, no intervalo, o Andy e a Cecilia desapareceram. Passaram a segunda parte toda lá fora aos beijos", recorda Oliver. "Eles apaixonaram-se perdidamente desde o primeiro momento. Nós fomos mais devagar."

"Acabou por me beijar", conta Sofia, entre sorrisos. "Foi muito bonito e fomos apaixonando-nos aos poucos. Era um romance de férias, mas depois chegou o momento de eles regressarem a Inglaterra e nós ficámos no México."

Quando se despediram no aeroporto, Sofia ofereceu espontaneamente a Oliver a sua pulseira favorita.

"Era uma pulseira de ouro", recorda Oliver. "Achei um gesto muito querido. Eu não tinha nada para lhe oferecer, mas tinha um lenço bonito no bolso. Fiquei com a pulseira dela e ela ficou com o meu lenço."

Antes da despedida, prometeram manter o contacto.

"Queria viajar pela Europa e o Ollie convidou-me muito gentilmente", recorda Sofia. "Disse-me: 'Os meus pais têm uma casa muito bonita e podes ficar connosco.' Pensei logo: 'Sim, vou mesmo fazer isso.'"

"Comecei a poupar dinheiro para comprar o bilhete e combinámos voltar a encontrar-nos. Até lá, limitávamo-nos a escrever cartas um ao outro."

Apaixonar-se à distância

Sofia e Oliver mantiveram contacto à distância depois de o torneio terminar. (Sofia Larrinua-Craxton e Oliver Craxton)

 Em 1986, manter uma relação entre dois continentes não era fácil. Não existiam videochamadas, mensagens instantâneas nem correio eletrónico.

"Só havia cartas e telefonemas", recorda Sofia. "Escrevíamos um ao outro e era muito difícil, porque as cartas demoravam entre seis e oito semanas a chegar - quando chegavam. Muitas perdiam-se no correio. E as chamadas eram muito caras."

"Não podíamos telefonar todos os dias, nem sequer todas as semanas", acrescenta Oliver. "Falávamos, no máximo, uma vez por mês."

"Mas conseguimos manter a relação viva", afirma Sofia.

Ela recorda, em particular, um dia em que Oliver lhe enviou um enorme ramo de flores para casa, no México.

"Chegou um bouquet gigantesco. Foi uma surpresa maravilhosa. Hoje damos estas coisas como garantidas, mas naquela altura eram gestos extraordinários. Foi muito bonito."

Enquanto Sofia e Oliver continuavam empenhados em fazer resultar a relação, o romance entre os amigos Cecilia e Andy terminou.

"Eles viveram uma paixão muito intensa durante cerca de três meses", conta Sofia. "Depois, ele escreveu-lhe a dizer que não conseguia assumir um compromisso."

Enquanto Cecilia tentava seguir em frente, Sofia continuava a pensar no adepto inglês que conhecera no Mundial.

"Todos os meus amigos diziam que eu era maluca: 'O que estás a fazer? Arranja um namorado mexicano.' Mas eu queria voltar a encontrar o Ollie. Então, esperei um ano. No verão seguinte, em 1987, fui para Inglaterra."

O reencontro correspondeu exatamente ao que ambos esperavam. Voltaram a sentir a mesma facilidade e conforto na companhia um do outro, e Sofia integrou-se rapidamente na vida de Oliver, em Londres.

"Conheci a família do Ollie, que é maravilhosa", conta. "Foi aí que o romance realmente floresceu. Fomos passar uns dias à costa sul de Inglaterra, conversámos muito e a nossa relação aprofundou-se. Apaixonámo-nos verdadeiramente."

"Durante essas férias na costa sul, sentámo-nos a falar sobre o nosso futuro", recorda Oliver.

Conversaram sobre a possibilidade de Sofia se mudar para o Reino Unido depois de terminar os estudos no México.

"Eu tinha um emprego estável e seguro, por isso sempre pensámos que, se acabássemos por ficar juntos, seria a Sofia a vir viver para Inglaterra, em vez de eu ir viver para o México."

Também falaram sobre aquilo que ambos queriam para a vida. Descobriram interesses em comum, trocaram recomendações de bandas favoritas e começaram a planear viagens futuras.

"Percebemos que tínhamos muito em comum - gostávamos de viajar, de música, de arte e de muitas outras coisas", lembra Oliver.

Durante essa estadia, viajaram também até Manchester para assistir juntos a um jogo do Manchester United, no estádio de Old Trafford.

"Foi a primeira vez que vimos o Manchester United juntos. Foi fantástico", recorda Oliver.

Visitaram ainda o Lake District e Liverpool, seguindo os passos dos Beatles. Foi um verão incrível.

"A Sofia esteve em Inglaterra cerca de dois meses e meio antes de regressar ao México. Continuámos a falar por telefone e a trocar cartas", conta Oliver. "Voltou ao Reino Unido em 1988 e dessa vez ficou cerca de três ou quatro meses."

Cada vez mais convencidos de que o futuro passaria por uma vida em comum, tiveram, no entanto, de enfrentar algumas reservas da família de Sofia. Quando anunciou aos pais que pretendia viajar para Inglaterra pelo terceiro verão consecutivo, em 1989, eles insistiram que Oliver deveria antes visitar o México.

"Como ainda não me conheciam, tinham algumas dúvidas em relação a mim", explica Oliver.

Ele compreendeu perfeitamente. O que Sofia não sabia era que Oliver já tinha decidido pedi-la em casamento naquele verão.

"Tinha tudo planeado para fazê-lo em Parliament Hill Fields, em Hampstead Heath, no norte de Londres - exatamente o mesmo local onde o meu pai pediu a minha mãe em casamento.

Ele achou que aquele espaço verde, com vistas panorâmicas, era o local perfeito para um pedido de casamento. Mas também estava entusiasmado por voltar a visitar o México. E queria conhecer os pais de Sofia. Oliver começou imediatamente a procurar locais alternativos para fazer o pedido de casamento na Cidade do México, pesquisando em livros na biblioteca da sua cidade.

"Acabei por escolher um lugar chamado Teotihuacán, que fica nos arredores da Cidade do México, um enorme sítio arqueológico. Tem a Pirâmide do Sol e a Pirâmide da Lua. A Pirâmide do Sol é a maior das pirâmides que lá existem. Pensei: 'Está decidido, é aqui que vou pedir a Sofia em casamento.'"

A irmã de Oliver e o companheiro dela juntaram-se a ele durante parte da viagem ao México. O grupo foi até Teotihuacán e Oliver teve de convencer Sofia a subir a enorme estrutura.

"Ela estava relutante porque aquilo é gigantesco e estava muito calor", recorda Oliver. "Eu estava sempre a dizer: 'Vamos, continua.' Acabei por conseguir convencê-la a chegar ao topo porque era ali que lhe queria pedir em casamento. Ajoelhei-me e pedi-lhe que casasse comigo, mas ela não ouviu."

"Eu disse ao Ollie: 'Podes repetir a pergunta, por favor?'", recorda Sofia. "E ele repetiu a pergunta, eu disse que sim e foi um momento muito feliz."

Nessa noite, Oliver, Sofia, a irmã dele e o companheiro dela foram jantar com os pais de Sofia.

"Num restaurante tradicional muito bonito na Cidade do México", lembra Oliver. "Pedi autorização ao pai dela para casar com a Sofia e acho que eles ficaram muito felizes."

Acontece que os pais de Sofia tinham ficado preocupados com Oliver simplesmente porque Sofia o tinha conhecido num jogo de futebol.

"Naquela altura havia muito a ideia do hooliganismo no futebol", explica Sofia. "Toda a gente pensava que qualquer adepto de futebol era um hooligan - e a minha família estava muito preocupada por eu ter conhecido uma pessoa violenta, basicamente. Mas depois conheceram o Ollie e apaixonaram-se por ele."

"Dávamo-nos todos muito bem", diz Oliver, sobre a família de Sofia. Na altura, ele ainda não falava muito espanhol, mas o pai de Sofia falava inglês e ajudava a traduzir para a mãe dela.

"Conseguíamos comunicar e era evidente que gostávamos da companhia uns dos outros. E acho que eles pareciam felizes comigo", afirma.

Três casamentos

Oliver e Sofia celebraram o casamento três vezes. (Sofia Larrinua-Craxton e Oliver Craxton)

Casaram-se oficialmente numa pequena cerimónia na Camden Town Hall, no norte de Londres, em dezembro de 1989. Depois tiveram uma bênção da Igreja de Inglaterra, em junho de 1990, e, quatro dias mais tarde, uma celebração católica que reuniu amigos e familiares. Sofia incorporou o apelido de Oliver no seu, passando a chamar-se Sofia Larrinua-Craxton.

"A Sofia pôde usar o vestido de noiva duas vezes: uma no casamento principal e outra no casamento católico", recorda Oliver. "Para o casamento católico, como a igreja não ficava longe de casa, ela foi a caminhar pelas ruas de Hampstead vestida de noiva."

"Na verdade, isso foi muito bonito", lembra Sofia. "Muito surreal."

A amizade entre Cecilia, amiga de Sofia, e Andy, amigo de Oliver, já tinha terminado na altura do casamento. Cecilia estava entretanto com outra pessoa.

"Ele apoiou-nos e acho que estava um pouco triste no dia do nosso casamento", diz Sofia sobre Andy.

Sofia e Oliver ficaram gratos por verem os seus familiares e amigos reunidos para celebrar com eles. Para Sofia, que tinha acabado de concluir a universidade no México, a mudança para o Reino Unido e o casamento representavam o início oficial da sua vida.

Os recém-casados foram viver para uma ampla casa em Hampstead, juntamente com o tio e o primo de Oliver.

"Era uma casa muito excêntrica", afirma Sofia.

Mas excêntrica no bom sentido, esclarece.

"Toda a família dele é muito artística, por isso partilhava aquela casa com artistas e músicos incríveis. Foi muito emocionante começar a partilhar a minha vida com o Ollie naquele ambiente fantástico. Sermos jovens, casados, sairmos para todos aqueles sítios com o Ollie…"

"Naquela altura, queríamos muito viajar juntos, fazer muitas coisas, ir a concertos, espetáculos, ouvir todos os tipos de música, e foi exatamente isso que fizemos", lembra Oliver. 

Nem sempre foi fácil. Sofia sentia muitas saudades dos amigos e da família no México.

"Sou filha única e foi muito difícil para os meus pais deixarem-me ir", conta. "Mas eles apoiaram-me sempre. A minha mãe dizia-me: 'Vai, sê livre.' Nunca disse: 'Meu Deus, deixaste-me e foste viver tão longe.' Nunca. Pelo contrário. Dizia: 'Eu sei que estás feliz e isso deixa-me muito, muito feliz.'"

Ao longo dos anos, os pais de Sofia visitaram frequentemente Londres.

Hoje, Oliver e Sofia desfrutam de uma vida agitada e feliz juntos, em Londres. (Sofia Larrinua-Craxton e Oliver Craxton)

 "Eles criaram uma relação muito bonita, o Ollie e a minha mãe", conta Sofia. "E o meu pai era uma pessoa que falava pouco, mas quando estava a morrer chamou o Ollie e disse-lhe que o amava muito."

No México, Sofia tinha formação em ciência alimentar. Em Londres começou a trabalhar no desenvolvimento de produtos da Covent Garden Soup Company.

"Depois criei uma empresa de catering para promover a comida mexicana", conta. "Dava aulas, fazia programas e escrevi um livro de cozinha mexicana em 2005."

Acabou também por criar uma escola comunitária de culinária no norte de Londres. Entretanto, Oliver continuou a trabalhar para a autarquia local até se reformar antecipadamente.

O casal leva hoje uma vida social muito preenchida em Londres.

"Somos muito felizes a levar uma vida ativa juntos", afirma Oliver.

Nos anos que se seguiram ao casamento de Sofia e Oliver, Cecilia e Andy ainda voltaram a reatar a relação durante algum tempo, antes de voltarem a separar-se. Apesar de esse romance não ter resultado, continuam muito próximos de Andy. O casal tem muitos amigos em Londres.

"O Ollie é o secretário social, por isso é sempre ele que organiza concertos, aventuras e todo o tipo de atividades. Também temos uma horta comunitária, por isso temos uma vida social muito preenchida e estamos sempre a sair", esclarece Sofia.

"Gostamos de passear. Gostamos de ir tomar o pequeno-almoço à nossa pastelaria preferida, ir ao pub e, claro, ver o ‘Match of the Day’ ou qualquer jogo de futebol."

Um reencontro no Mundial

Desde que se conheceram no Mundial de 1986, o casal apoiou a seleção inglesa masculina em todos os grandes torneios.

"Passámos por todos aqueles momentos dolorosos em que parece que vão finalmente ganhar e depois acabam por perder, e isso é muito frustrante", afirma Sofia.

Este ano, o 40.º aniversário do encontro de Sofia e Oliver coincidiu com o Mundial de 2026, realizado na América do Norte, incluindo no México.

"Conseguimos bilhetes", conta a mexicana. "Fomos ao México celebrar os nossos 40 anos e levámos as nossas camisolas antigas."

"Os dois guardámos as camisolas que usávamos há 40 anos naquele jogo entre Inglaterra e Argentina", acrescenta Oliver. "Porque foi um jogo fantástico, nós apaixonámo-nos e guardámos essa recordação."

Sofia e Oliver ainda guardam o lenço e a pulseira de ouro do dia em que se despediram no aeroporto. Oliver também conservou o boné da seleção inglesa que Sofia assinou no dia em que se conheceram - colocou-o logo na cabeça assim que chegaram ao México.

A 22 de junho de 2026, exatamente 40 anos depois de se terem conhecido, o casal regressou ao Estádio Azteca e tirou fotografias no exterior.

Foi então que foram vistos pelo jornalista mexicano José Luis Sibaja. Ele reparou nas camisolas antigas, aproximou-se para conversar e perguntou se podia entrevistá-los sobre a sua história de amor ligada ao futebol para o meio desportivo mexicano Grada Norte.

"Depois tornou-se viral. Nem nos apercebemos de que toda a gente começou a gostar da história, a partilhá-la e tudo o resto. Tivemos milhões de visualizações em todo o tipo de redes sociais", conta Sofia. "Chamámos a atenção da imprensa e da televisão nacionais no México e convidaram-nos para uma entrevista em direto no Estádio Azteca."

Pouco depois, a cadeia televisiva mexicana Televisa ofereceu ao casal bilhetes para o jogo entre Inglaterra e México, a 5 de julho de 2026.

"Ficámos com lágrimas nos olhos. Foi uma surpresa lindíssima", afirma Oliver.

O casal acabou também por aparecer na conta oficial de Instagram da FIFA.

"Sempre que contamos esta história a alguém, as pessoas dizem: 'Meu Deus, isso é incrível!' Mas nunca tínhamos tido qualquer cobertura mediática", explica Sofia.

"Tudo isto tem sido bastante estranho, mas também extraordinário", acrescenta Oliver.

No 20.º aniversário do casal, um amigo criou uma falsa primeira página do jornal Daily Express sobre a história deles. Agora, quarenta anos depois, tornaram-se realmente notícia, com milhares de comentários a celebrar a sua história de amor como um exemplo de como o futebol consegue unir pessoas de continentes diferentes.

Além disso, ao longo dos anos, o jogo da "Mão de Deus" tornou-se ainda mais marcante na história do futebol. O facto de se terem conhecido naquele encontro, que Sofia descreve como "um jogo histórico", torna a história ainda mais especial para os adeptos.

Oliver e Sofia regressaram ao México para assinalar os 40 anos desde que se conheceram pela primeira vez. O casal voltou a vestir as camisolas de 1986 e Oliver usou o boné autografado por Sofia.
(Sofia Larrinua-Craxton e Oliver Craxton)

Para Sofia e Oliver, regressar juntos ao Estádio Azteca para assistir a um jogo da Inglaterra, quatro décadas depois, foi um momento surreal e muito especial.

"Foi uma experiência simplesmente incrível", afirma Sofia. "Todos os sentimentos voltaram, todas as memórias voltaram. Parecia que tinha sido ontem. Vieram tantas recordações e temos muita sorte."

"Como a Sofia disse, parecia que tinha sido ontem, e todas aquelas imagens e memórias voltaram", acrescenta o marido.

"E depois ainda tivemos de sofrer durante o jogo", diz Sofia, referindo-se ao emocionante encontro entre Inglaterra e México.

Ela apoiava claramente a Inglaterra.

"Depois de ter conhecido o Gary Lineker e todos aqueles jogadores em 1985, a minha lealdade é para com a Inglaterra", afirma. "Já vivo aqui há tanto tempo. Vivo em Inglaterra há mais tempo do que vivi no México. Por isso, apoio a Inglaterra e o Manchester United."

O jogo de 5 de julho foi muito disputado, mas a Inglaterra venceu.

"Foi ficando cada vez melhor e tivemos muita sorte", considera Sofia. "Assistimos a mais um jogo icónico no Estádio Azteca."

"Foi fantástico voltar lá. Os mexicanos sabem realmente como organizar um Mundial e uma grande festa. O ambiente é incrível, a decoração é fantástica e as pessoas são muito simpáticas", afirma Oliver.

O casal regressou depois a Inglaterra antes do novo confronto com a Argentina, marcado para 15 de julho, desta vez com um lugar na final do Mundial de 2026 em jogo.

"Acho que vai ser uma batalha difícil e estou a rezar para que não haja penáltis polémicos nem outra 'Mão de Deus'", afirma Sofia. "Também acho que a Inglaterra pode ganhar. Acredito mesmo nisso."

"Espero apenas que consigamos a nossa desforra e cheguemos à final", acrescenta Oliver.

Aconteça o que acontecer, ver o jogo juntos será mais "um momento incrível" na vida do casal - um de muitos que já viveram.

"No outro dia, o Ollie virou-se para mim e disse: 'Já vivemos tantos momentos incríveis.'", conta Sofia. "Acho que é assim que podemos resumir tudo. Vivemos tantos momentos extraordinários, simplesmente porque arriscámos."

Hoje, quando olham para trás e recordam o dia em que se conheceram, Sofia diz que continua impressionada com a "serendipidade".

"A lição que retiro de tudo isto é viver o momento e agarrar as oportunidades quando elas aparecem", afirma. "Aproveitem as oportunidades e continuem em frente. Nós estamos nesta onda maravilhosa há 40 anos."

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Mundial 2026

Mais Mundial 2026