Baixar as expectativas a grande altitude
Terá sido pela altitude, a mais de dois mil metros acima do nível do mar? Pela sensação térmica? Pelo cariz amigável do encontro? Pela abordagem das equipas? Haverá justificações para todos os gostos mas, face ao entusiasmo anterior ao jogo, a reinauguração do estádio Azteca revelou-se um espetáculo mediano. A histeria que levou até à morte de um adepto não foi adotada pelos jogadores.
Este jogo serve para recordar uma velha tendência da Seleção portuguesa – por muito bons jogadores que tenha, sofre sempre para ultrapassar equipas medianas de outros continentes nas grandes competições. E, normalmente, acaba eliminada em Mundiais perante esse tipo de oponentes. Convém lembrar isso a esta geração que se quer dourada.
Roberto Martínez usou este jogo como um teste... mas Portugal não teve um excelente, nem sequer um satisfaz bem. Dominou em termos de posse de bola, apresentou a tão desejada variabilidade nos momento de construção, beneficiando com a entrada de Vitinha e João Neves, mas teve grande dificuldade na criação de perigo. Uma dificuldade bastante preocupante, dada a qualidade do plantel.
Rui Silva, Samu Costa e Matheus Nunes foram aposta de início
Roberto Martínez apostou em algumas mexidas no onze inicial, cinco meses depois do último compromisso da Seleção. Com as ausências asseguradas de Ronaldo, Bernardo Silva ou Diogo Costa, Rui Silva obteve a sua segunda internacionalização; Matheus Nunes e António Silva regressaram ao onze quase dois anos depois; e Samu Costa somou a primeira titularidade na Seleção A.
O México, galvanizado pelo contexto do jogo, também promoveu a estreia absoluta de Álvaro Fidalgo, médio nascido em Espanha mas que defendeu o América durante muitos anos, com o jovem do Atletico Madrid Obed Vargas a merecer uma oportunidade.
Mais uma vez, Martínez quis apresentar uma equipa maleável, flexível, em que os laterais ora subiam por dentro, ora por fora… em que Samu Costa, Rúben Neves e Bruno trocavam constantemente de posições, mas, também mais uma vez, assim se vê que a flexibilidade não é um bem em si mesma e deve ser acompanhada de muitas rotinas.
A Seleção tinha bola no seu meio-campo, mas perdia as referências no último terço. As perdas de bola também não ajudavam. Os momentos de maior perigo chegaram, normalmente, dos pés de Gonçalo Ramos. O avançado do PSG atirou ao poste num remate espontâneo, aos 27 minutos, e falhou a bola em frente à baliza, aos 34 minutos.
Os mexicanos eram bem mais pragmáticos, atirando de fora de área com frequência, dando algum trabalho a Rui Silva. Nada de stressante, porém. A equipa da casa impressionava especialmente nos duelos, onde era bastante aguerrida.
Martínez mudou sete ao intervalo, mas aquela dupla do PSG...
A segunda parte trouxe outra dinâmica à equipa portuguesa. Martínez operou sete alterações, trazendo elementos mais regulares da seleção, com dois em destaque – Vitinha e João Neves. O conhecimento mútuo da dupla do PSG e as suas características favoreceram Portugal. As rotinas voltaram.
Mas a dificuldade em aparecer com perigo no último terço mantinha-se. E quando a coisa começava a engrenar... surgiram as quezílias. Pedro Neto viu ser-lhe perdoado um cartão vermelho num gesto antidesportivo para com Gallardo e o jogo arrefeceu.
O momento mais curioso do duelo foi a entrada de Paulinho, na segunda parte, regressando à Seleção cinco anos depois. Foi aplaudido pelos mexicanos, que até entoaram o seu nome. Exibição esforçada, mas sem remates. A última grande chance até pertenceu aos mexicanos, quando o menino Armando, recém-entrado, cabeceou sozinho ao segundo poste. Faltou-lhe acerto.
Portugal tem muito a melhorar e a analisar até ao próximo desafio, contra os Estados Unidos da América, no dia 1 de abril. A preocupação na cara de Roberto Martínez espelhava isso mesmo, na reta final do encontro.
A Figura: Vitinha
A partir do momento em que entrou, Portugal assumiu definitivamente as rédeas do jogo e começou a jogar de frente para a baliza adversária. Quem tem Vitinha, tem sempre mais posse de bola. Porém, o médio não é omnipotente. Se no último terço não há criatividade, torna-se difícil...
O Momento: remate de Gonçalo Ramos, 27m
Foi a melhor chance de golo em todo o jogo. Num contra-ataque rápido dos lusos, Bruno passou de improviso para Ramos (fica a dúvida se queria rematar) e o avançado do PSG atirou de primeira para o poste mais distante. A bola beijou o ferro e saiu caprichosamente ao lado.
Negativo: incapacidade de criar perigo
Mais uma vez, Portugal mostrou muitas caras diferentes ao longo do jogo (o que acaba por ser natural num jogo de preparação). Mudanças de dinâmicas que raramente foram acompanhadas por aquilo que é mais importante para o adepto comum - criação de chances de golo efetivas. A falta de presença na área mexicana foi gritante.