Rui Miguel Tovar abre a arca dos tesouros e mostra-nos um postal que o pai, o jornalista Rui Tovar, lhe enviou do Mundial no México em 1986, que então cobria para a RTP: "Olá meu pequenino!". O postal tem a imagem do mítico estádio onde hoje arranca o Mundial de 2026. Rui Miguel Tovar aqui escreverá durante o torneio, com histórias de futebol – incluindo as que viveu “através do dom oratório de um Fernão Mendes Pinto da vida”
Azteca, Estádio Azteca. É o primeiro estádio a servir de palco para três jogos de abertura no Mundial, o de 1970, o de 1986 e o de 2026. É também o estádio do postal do meu contentamento, escrito pelo meu pai para mim, no dia da criança, há 40 anos. Ouçamo-lo (sort of speak):
Cidade do México, 1.6.86
Olá meu pequenino!
Tens passado bem? Tens visto os jogos todos? Não te esqueças de apontar os resultados e os marcadores para depois vermos se isso está certo. E quanto às nossas colecções de cromos, como é que está tudo isso?
Aqui está um tempo mau e todos os dias chove um bocado. Esta Cidade do México é muito grande e, só aqui, mora mais gente do que em Portugal inteiro! Os carros são todos muito grandes, parecem banheiras e estar sempre a tomar banho é aborrecido, não é?
E a escola? O que é a Clotilde diz? Não me digas que te esqueceste da camisola na escola! O quê? Não comeste o lanche?
Carlitos não comas tantos chocolates
Carlitos não faças tantos disparates
Rui Miguel para aqui
Rui Miguel para acolá
Tenho aqui um saco do Mundial para ti, mas não te posso dar já! (muito giro)
Tenho muitas saudades. Um beijinho do PIPAS
Pipas. Ora aqui está uma novidade. Lembro-me zero desse termo carinhoso. Por isso mesmo, aqui vai o meu obrigado com 40 anos de atraso aos CTT por me ajudarem a descobrir uma novidade ternurenta. A escrita é comovente, a fotografia do estádio no postal é só deliciosa. Apetece-me mergulhar para dentro daquele relvado. Ou sentar-me nas bancadas para morder o ambiente. Azteca é ‘O’ estádio. Porque coroa dois reis indiscutíveis, Pelé em 1970 e Maradona em 1986. Porque esses Mundiais mudam a vida do planeta. O de 1970 muda do planeta Terra, por ser o primeiro transmitido pela televisão a cores, e o de 1986 altera o meu planeta, pelos comentários do meu pai na RTP. Só naquela, e porque não sei muito mais, o Rui Tovar comenta o nascimento da Dinamáquina (6:1 vs. Uruguai), o único jogo apitado pelo português Carlos Valente (França 3:0 Hungria, ele em León, eu na Praia da Areia Branca), a mão de Deus e o golo do século (Argentina 2:1 Inglaterra) mais a final (Argentina 3:2 RFA).
Começa hoje o primeiro Mundial organizado por três países, e também o primeiro com 48 selecções. Há de tudo um pouco, até uma selecção da Oceânia (Nova Zelândia), pela primeira vez desde 2010. E há dois jogadores da 5.ª divisão (um neozelândes na 5.ª inglesa e um haitiano na 5.ª alemã). E há Portugal com a novidade maiúscula de se estrear com as três selecções na fase de grupos. Isto é, nunca jogámos com RD Congo, Uzbequistão e Colômbia em Mundiais. Nunca. E isso, por si só, é um facto inédito.
Vejamos, Portugal só começa a epopeia dos Mundiais em 1966. Depois, só volta ao grande palco em 1986 e calha-lhe em sorte a Inglaterra, com a qual já jogara em 1966. Em 2002, sai-lhe a Polónia e relembra-se de 1986. Em 2006, é novamente a Inglaterra. Em 2010, é Brasil e voltamos a 1966. Em 2014, é EUA e fazemos uma careta a recordar 2002. Em 2018, é Espanha e toma lá o golo solitário de Villa em 2010, validado por um fiscal-de-linha armado em Andrea Bocelli (diz Maradona, subscrevo-o sem pestanejar). Em 2022, é Gana e toma lá o u-turn para 2014. Em 2026, três novidades absolutas. Vamos lá cambada / todos à molhada / qu’isto é futebol total.
Futebol total. Ora aí está um termo sedutor, de inegável interesse para qualquer adepto de bola. O meu futebol total esbarra imensas vezes no Azteca. Nas memórias bem vivas de 1986. E outras de 1970, vividas por mim através do dom oratório de um Fernão Mendes Pinto da vida (quem estou a tentar enganar? É o meu pai, caraças).
Estas memórias de 1970 até nada têm a ver com o Brasil – habemus tempo para falar dessa selecção mágica. Mil-nove-e-70 é o primeiro Mundial das substituições e, sobretudo, dos cartões amarelos e vermelhos. Quem os inventa? Ken Aston. Que senhor, senhoras e senhores. Inventa o árbitro suplente, caso algum dos três se lesione, inventa o equipamento preto com colarinho branco, inventa as bandeirolas coloridas dos fiscais-de-linha e inventa os cartões amarelo e vermelho.
“Em 1966, eu era o chefe dos árbitros do Mundial de Inglaterra e recebi um telefonema do Jack Charlton, um dia depois do Inglaterra-Argentina [1-0]. Fui ao centro de estágio da selecção inglesa, onde me perguntou se tinha sido booked [do inglês book, estão a ver? de livro/bloco de notas do árbitro]. A confusão nasceu no dia seguinte ao jogo, porque um jornal inglês escreveu que sim mas o árbitro [o alemão Kreitlen] não dera qualquer indicação ao jogador, nem ao seleccionador. Ou se dissera alguma coisa, ninguém o entendeu pela barreira linguística. A verdade é que não consegui esclarecer o Jack [Charlton]. A caminho de casa, parei num semáforo e fez-se luz. Porque não adoptar as cores amarelo e vermelho?” Beautiful. Tiro-lhe o chapéu, Mr. Aston.
Ainda 1970. A qualificação africana para o Mundial-70 reúne 13 selecções. A FIFA analisa-as todas e rejeita as inscrições de Zaire mais Guiné Conacri. Onze, portanto. E só um lugar disponível na fase final, no México. Na primeira ronda, Marrocos casa com Senegal. Em Casablanca, 1:0. Em Dacar, 2:1. Empatados em golos, há necessidade de um terceiro jogo, em Las Palmas, com o árbitro espanhol Gaspar Pintado. Golos de Bamous e Hafnaoui garantem o tranquilo 2:0.
Na segunda eliminatória, Marrocos encontra Tunísia. Há um duplo 0:0, com prolongamento em Casablanca e tudo. E agora? Terceiro jogo, em campo neutro. Escolhe-se Marselha, com o árbitro francês Michel Kitabdjian. Outro empate (2:2), outro prolongamento. Isto só vai lá com moeda ao ar. O franco francês do árbitro garante Marrocos no triangular final, juntamente com Nigéria e Sudão.
Com duas vitórias em casa (2:1 vs Nigéria e 3:0 vs Sudão) mais um empate fora (0:0 vs Sudão), o quarto e último jogo da fase de grupos já é inútil. Ganha-o a Nigéria por 2:1, em Ibadan, celebra Marrocos a qualificação para o Mundial. Inédita, já agora. Aliás, os estreantes desses Mundial são Marrocos (única selecção africana), Israel (única selecção asiática) e El Salvador (única apurada da CONCACAF, além do anfitrião México). Todos eles acabam em último lugar dos respectivos grupos.
Marrocos é especial. Porque passa pouco mais de meia hora em vantagem vs RFA (do 1:0 de Jarir até ao 1:1 de Seeler) e porque é a primeira selecção de sempre a usar números nos calções. Nas competições da UEFA, é o Celtic o pioneiro, aquando da final da Taça dos Campeões 1967 vs Inter, no Jamor. No Mundial, é a selecção de Marrocos. Se o calção é branco (1:2 vs RFA e 1:1 vs Bulgária), o número é verde. Se o calção é verde (0:3 vs Peru), o número é branco. Maravilha.
Saltamos para 1986 e abraçamos, por exemplo, a ideia do jogo com mais faltas de sempre. O Grupo B inclui México, Iraque, Paraguai e Bélgica. Na segunda jornada, México e Paraguai jogam vocês-sabem-muito-bem-onde e, não façam confusão, há 114.600 espectadores – é a maior enchente desde os 200 mil-e-tal do Brasil vs. Uruguai em 1950.
Quando o árbitro inglês George Courtney apita para o início do prélio, ninguém imagina a pobreza de espírito dos 22 intérpretes em campo com o recorde de 78 faltas (43-35 para o México) em 41 minutos e 46 segundos de tempo útil de jogo – o que dá uma média de uma falta a cada 32 segundos.
No meio desta confusão, só há cinco amarelos e dois golos. O primeiro é de Flores, aos três minutos. O empate é de Romero, de cabeça, aos 85’. Antes, Hugo Sánchez queixa-se (e bem) de um penálti não assinalado. Depois, em cima dos 90’, o mesmo avançado ganha um penálti sem saber ler nem escrever. É ele quem apanha a bola para o remate a 11 metros. Nesses segundos de tensão (o futebol de antes é menos propenso a dramas do século XXI), o seleccionador paraguaio Cayetano Ré entra em campo e fala com o seu guarda-redes.
Consequência ou não, Gato Fernández defende e a bola perde-se pela linha lateral. Quando o México faz o lançamento, Courtney apita para o fim. O relógio anota 45 minutos e 20 segundos – já na primeira parte, o inglês apitara aos 45’23’’.
O México perde uma oportunidade de ouro para selar o primeiro lugar do grupo e apurar-se rumo aos oitavos-de-final, enquanto Hugo Sánchez vê o segundo amarelo do torneio e já sabe da sua exclusão para o jogo vs. Iraque, daí a quatro dias. Quanto a Courtney, descansa até ao 3.º e 4.º lugares entre França e Bélgica. ‘Perdi uns quatro quilos e demorei quatro dias a recompor-me desse jogo das faltas.’
Faltas? Só se for de comparência. Continuamos em 1986.
Durante duas semanas, de 11 a 25 Maio, os jornais escrevem diariamente a mesma lenga-lenga sobre a perspectiva de jogos particulares. Primeiro, quatro. Depois, três. A seguir, dois. Só se faz um. E muito mal amanhado. Fora aquele agendado para o dia 19, em Monterrey. A selecção viaja de autocarro, entra no balneário e equipa-se para finalmente jogar. O adversário chama-se Clube Nova, uma equipa amadora. Que não chega a entrar em campo. “Ainda hoje de manhã liguei para cá a confirmar o jogo”, desabafa o atanrantado Amândio de Carvalho. “Não tenho explicação para isto”. Iñigo Armendaiz, um dos directores do comité organizador do Mundial e encarregue de marcar esse particular, diz de sua justiça. “A selecção portuguesa veio cá no domingo e não treinou porque se queixou do campo sem condições. Por isso, pensei que não voltaria mais. Como não recebi nenhuma chamada durante o dia de ontem, assumi que não vinham e desmarquei o jogo.” Que caldeirada. Os jogadores portugueses fazem o de sempre: 11 contra 11, com José Torres a apitar. Do lado de fora, duas centenas de espectadores boquiabertos e uns quantos jornalistas mexicanos, igualmente espantados com a ausência de coerência em tudo aquilo.
No dia 22 Maio, urraahhhhh, um jogo particular. Ou o mais parecido a. Os onze jogadores vestem a camisola do Clube Nova e são tão-só a equipa de empregados da indústria hoteleira de Saltillo. É para lá de amadora. É uma palhaçada de sentido único. Entre os 11 golos da selecção, os jogadores rebolam-se a rir e até brincam com os jornalistas, de pé, perto da linha lateral. É um gozo tremendo. Só para a história, marcam Gomes, Sousa, Sobrinho, Frederico (dois cada), Futre, André e Jaime Pacheco (um). Nesse dia, o Chile oferece-se para defrontar Portugal e pede 1200 contos de cachet. Finalmente um adversário de nível. Mas a federação recusa surpreendentemente. A FPF não tem dinheiro. É o fim.
Menos de 24 depois, os jogadores rebelam-se e abre-se a guerra da publicidade nos fatos de treino e nas camisolas. A federação dá quatro contos de diária, os jogadores querem sete. A federação paga 300 contos por cada jogo da fase de grupos, os jogadores pedem 700. A federação concede 300 contos dos 26 mil da publicidade da Olivedesportos, os jogadores torcem o nariz – além de a percentagem ser mínima para quem representa realmente o país, o valor total consegue ser inferior ao do Euro-84. Há mais: os jogadores desejam 1500 contos pelo primeiro ou segundo lugar do grupo, a federação promete apenas 1200; se o terceiro lugar valer eventualmente a qualificação, há um desencontro de valores entre a oferta (1000) e o desejado (1200). O comunicado é lido pelo capitão Bento e assume a ruptura com Amândio de Carvalho. “Exigimos a presença do senhor presidente Antero da Silva Resende até terça-feira, a fim de conseguirmos o diálogo. Caso não seja atendida a nossa solicitação, deixaremos de cumprir os treinos marcados pela federação.”
Meu dito, meu feito. Os jogadores já não comparecem a um jogo-treino marcado com um misto de juniores e suplente do Tigres, equipa da 1ª divisão mexicana. Estoira a bomba, com repercussões na Assembleia da República. Manuel Alegre defende os jogadores na sua qualidade de trabalhadores e envia-lhes um telegrama de solidaridade, ao mesmo tempo que lhes pede compromisso e bom senso, tal como, aliás, o presidente Mário Soares. Os jogadores abortam a greve e voltam aos treinos no dia seguinte.
Diz Bento: “O assunto fica, por agora, encerrado. Vamos dedicar-nos por inteiro aos treinos e jogos do Mundial. Mas lamentamos a persistente falta de diálogo com a federação e, a partir de agora, é o seleccionador José Torres o nosso elo. Amândio de Carvalho está fora deste plano. Não somos crianças a quem se aplicam reguadas nem mentecaptos que nada sabemos.” De volta aos treinos, a selecção ganha 4:0 às reservas do Monterrey, com golos de Gomes (2), Carlos Manuel e Bandeirinha, num jogo em que se confirma Álvaro como lateral-direito e Futre como suplente.
Suplente? Nem pensar, hoje sou titular à frente da televisão para ver o México-África do Sul e só descanso no dia 20 de Julho.
