CRÓNICA MÉXICO 2-0 ÁFRICA DO SUL || Um dos estádios mais icónicos do mundo vestiu-se de verde para a estreia do Mundial 2026, empurrando a equipa da casa para uma vitória que facilmente podia ter sido mais gorda e que ainda teve um negro recorde disciplinar pelo meio
No banco do México estavam Santiago Giménez e Gilberto Mora, provavelmente o melhor jogador e a maior promessa da seleção El Tri, respetivamente. Mas a surpresa maior foi ver o primeiro deles no banco, até porque também o mais valioso de todos os convocados, de acordo com o Transfermarkt.
Só que quem os treina é Javier Aguirre, que mostrou ter total razão. Para Santiago Giménez ficar a ver a estreia deste Mundial do banco foi Julián Quiñones a assumir uma das faixas de um ataque que ainda tem o já velhinho mas útil Raúl Jiménez.
Foi precisamente o avançado do Al-Qasidiyah, que nem sequer nasceu no México - é natural da Colômbia mas os largos anos passados entre Tigres, Club Atlas e América fizeram dele mais um dos anfitriões deste torneio -, a primeira grande figura do maior Mundial de sempre.
Com a África do Sul ainda a tentar perceber como ia fazer a coisa, um erro na saída de bola resultou num autêntico brinde àquele que foi o melhor marcador do campeonato da Arábia Saudita, onde marcou 33 golos contra os 28 de Cristiano Ronaldo, que ainda o tentou perseguir, mas em vão.
Para o mal e para o bem, os Bafana Bafana - que aqui reeditaram o jogo de abertura do Mundial 2010, então com posições trocadas - tentaram sempre um jogo positivo, procurando aproveitar o melhor possível aquilo que Miguel Cardoso conseguiu fazer nos Mamelodi Sundowns, equipa sul-africana que até conquistou a Liga dos Campeões do continente.
No onze da África do Sul entraram diretamente seis jogadores dessa equipa, mas o andamento que o México colocou no jogo não permitiu aos forasteiros igualar totalmente a capacidade dos anfitriões, sobretudo quando Julián Quiñones, endiabrado como estava, decidia acelerar.
Esta nem sequer é das melhores equipas do México, mas a diferença foi, ainda assim, fácil de assinalar, com o mítico Azteca a empurrar a equipa quando foi necessário, algo que se percebeu logo que ia acontecer no arrepiante momento do hino.
A África do Sul subiu depois no jogo e conseguiu ascendente sobre o México na reação ao golo, mas nunca houve a sensação de que tivesse a capacidade real para fazer mal ao adversário, o que só se complicou na segunda parte depois da expulsão de Yaya Sithole, jogador do Tondela que travou um avançado mexicano que seguia isolado, pelo que o cartão vermelho direto era a única hipótese.
De resto, e mesmo ainda contra onze, sempre que o México acelerou um bocadinho as rotações, a África do Sul ressentiu-se seriamente. Foi assim já no final da segunda parte, por exemplo, com Raúl Jiménez a obrigar o guarda-redes adversário, segundos antes de Julián Quiñones, outra vez ele, enviar uma bola ao poste. Uma autêntica dor de cabeça este avançado de 29 anos.
Foi assim também na segunda parte, depois com maior sensação de controlo do que de ataque, com o México a perceber que, até pela circunstância de ter mais um jogador em campo, a vitória estava garantida, o que deixou a segunda parte andar sem grande história até ao 2-0 marcado por Raúl Jiménez num lance típico do antigo avançado do Benfica, que finalizou de cabeça para a tranquilidade total.
Até ao fim só há mesmo espaço para o negativo registo de nova expulsão, com Themba Zwane, mais um dos Mamelodi Sundowns, a agredir um adversário e a ir tomar banho mais cedo depois de intervenção do VAR.
O México não quis ficar atrás e César Montes decidiu também ele ser expulso, num jogo que entra ainda mais para a história por um registo disciplinar atroz. Se não viu o jogo e estiver a pensar que foi uma batalha campal, desengane-se, que o jogo não foi sequer perto de violento, mas teve três lances-chave que vão ficar para a história das expulsões em mundiais.
Apesar da superioridade do México, este foi um jogo que acaba por confirmar que este pode ser um grupo altamente renhido em que todas as equipas podem pensar na passagem aos 16 avos de final, até porque os melhores terceiros também se qualificam. Coreia do Sul e Chéquia entram em campo mais logo para definir a primeira jornada deste grupo A.
O melhor do jogo
Azteca de regresso: é o único estádio a receber três aberturas de Campeonatos do Mundo e é o recinto que mais partidas recebeu em toda a história - com esta passaram a ser 20. Foi aqui que Portugal jogou em março numa partida morninha, mas que deu logo para perceber que um dos palcos míticos do futebol mundial continua a sê-lo.
Esta estreia do Mundial 2026 provou-o, renovando certamente para muitos adeptos o mesmo sentimento que Rui Tovar terá imprimido no postal que enviou ao filho, Rui Miguel Tovar, numa história imperdível que pode ler aqui.
O pior do jogo
É uma questão de hábito e vai acabar por entrar no nosso racional, mas é no mínimo estranho que um jogo de futebol tenha um intervalo a meio de uma parte.
Foi isso que aconteceu na abertura, com os jogadores a aproveitarem para se refrescarem e a transmissão a ir para intervalo.
Num Mundial que é liderado pelos Estados Unidos, é uma novidade que acaba por se compreender quando percebemos a forma como decorrem as finais da NBA ou o Super Bowl. Pena que a FIFA não tenha tido mão mais firme para não ceder.
Menção ainda, e neste caso desonrosa, para a disciplina, com três jogadores expulsos com cartões vermelhos, um deles por agressão.
A surpresa do jogo
A época que fez e as indicações que vinha dando deixavam a adivinhar que ia ter protagonismo, mas dificilmente se esperava que Julián Quiñones tivesse tamanha preponderância no jogo de abertura do Mundial.
O jogador do Al-Qasidiyah é a primeira grande figura do torneio e justifica totalmente a meia-surpresa que foi a sua titularidade.
