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Caderneta do Mundial, dia 2: o homem que fugiu à guerra é o novo rei de um país onde não nasceu

12 jun, 10:00
México-África do Sul (Natacha Pisarenko/AP)
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Ficou à frente de Cristiano Ronaldo na lista de melhores marcadores da Arábia Saudita e isso, só por si, já é notícia. Agora chega a todo o mundo (e trazemos música para o acompanhar)

​Que bonito é ver um dos estádios mais míticos do futebol mundial a entrar ainda mais para a história. Esta quinta-feira o Azteca tornou-se no primeiro recinto a receber três jogos inaugurais do maior torneio do mundo, numa partida que se pintou de verde e de vermelho, mas esta última cor não por causa da bandeira do México.

Já lá vamos, porque houve um homem que passou por cima de tudo e todos, até da guerra, para nos dar uma história especial.

História do dia

É uma figura, a primeira grande figura do Mundial, até porque a lógica mandava que nada disto acontecesse. Julián Quiñones, autor do primeiro golo do torneio de 2026, nem sequer é mexicano, mas quis a vida que destinos diferentes se cruzassem.

Natural da Colômbia, que até chegou a querer convocá-lo, este jogador fez quase toda a carreira no México por uma razão muito particular: fugir à guerra. Saiu de casa com a família para ir à procura da estabilidade e paz mental que um país em constante conflito não lhe dava. Encontrou isso tudo mais acima no mapa e agora retribui tudo isso com um golo histórico.

Do desconhecimento para a glória, Julián Quiñones entrou para esta época como um de tantos jogadores que se perdem na fase mais adiantada da carreira pelos milhões da Arábia Saudita.

Mas, ainda que lá longe, haveria de começar a fazer soar o seu nome logo no Médio Oriente, tornando-se no melhor marcador do campeonato também disputado por estrelas como Cristiano Ronaldo ou Karim Benzema.

No modesto Al-Qasidiyah, Julián Quiñones marcou 32 golos, o que lhe valeu não só a chamada para o Mundial que a sua seleção co-organiza, como a titularidade em detrimento de uma estrela aparentemente maior como Santiago Giménez. A surpresa e o impacto do avançado foi tal que na imprensa mexicana um dos artigos que se repete tenta responder à pergunta “porque é que Javier Aguirre colocou Julián Quiñones a titular?”.

Julián Quiñones foi uma autêntica dor de cabeça para a cabeça da defesa sul-africana e aproveitou uma oferta para marcar o primeiro golo deste Mundial. A partir daí embalou para uma exibição endiabrada, atirando ao poste noutro momento e carregando sempre perigo até à área adversária.

Os mundiais são pródigos em heróis improváveis e aqui pode estar o primeiro. No México já lhe chamam King-ñones.

Mais vermelhos que golos

Nem precisa de procurar. Não há nenhum jogo inaugural de um Mundial que tenha tido tantos cartões vermelhos como o México - África do Sul que abriu o torneio de 2026.

Uma partida que não foi violenta, até longe disso, mas que teve três cartões vermelhos diretos, talvez por excesso de zelo do árbitro no segundo e terceiro momentos.

Apesar do registo negro, este ainda não é o jogo com mais expulsões de sempre. Esse, adivinhe só, conta com Portugal, na célebre batalha de Nuremberga em que, contra a tal Holanda, Costinha e Deco foram expulsos. Somando as duas expulsões do adversário foram quatro os cartões vermelhos nesse jogo de 2006.

As expulsões de Yaya Sithole (que atua no Tondela), Themba Zwane e César Montes acabam por manchar um jogo que até podia ter sido mais animado e que chegou mesmo a sê-lo. O México é e foi melhor, mas o espetáculo podia ter sido outro depois de tanto verde logo no arranque.

A primeira grande equipa

A Coreia do Sul foi melhor durante quase toda a primeira partida jogada durante a madrugada, mas apanhou-se a perder e os festejos da Chéquia confirmavam tudo: era surpreendente.

Depois de uma primeira parte claramente dominadora em que não foi capaz de finalizar as jogadas que teve, a Coreia do Sul sofreu num belo golpe de cabeça de Ladislav Krejčí.

Mas os sul-coreanos mantiveram a compostura e foram novamente para cima, marcando um golo de belo efeito por Hwang In-beom, que empatou tudo em Guadalajara.

Apesar do adiantar da hora no marcador e da importância que qualquer ponto pode ter nesta fase de grupos em que alguns terceiros também passam, nenhuma das equipas pareceu especialmente contente com o empate. Em particular a Coreia do Sul, que foi para cima e para a vitória, com Oh Hyeon-gyu a empurrar a bola decisiva e, diga-se, mais do que justa, num jogo emocionante até ao fim em que a Chéquia ainda andou a cheirar o empate.

Se considerarmos que a Chéquia é melhor do que a África do Sul, a Coreia do Sul assume com esta exibição, até mais do que com o resultado, um lugar de protagonista no grupo, ficando agora obrigada a ganhar à seleção africana e estando claramente habilitada a poder dar um balde de água fria aos anfitriões do México.

Até tendo em conta que o México jogou grande parte da sua partida com pelo menos mais um jogador, a Coreia do Sul é a primeira equipa a aparecer em grande plano, dominando quase tudo a nível tático e técnico, além de nunca se ter deixado enervar quando o resultado não estava a correr tão bem.

Golo do dia

Foi à quarta que vimos o primeiro grande golo deste mundial. Hwang In-beom recebeu a bola na cara do guarda-redes e, com toda a calma do mundo, sentou todos aqueles que vinham a correr para lhe tirar a bola. Depois, e ainda com mais calma, picou para a baliza para empatar a partida.

Frase do dia

"4-0 era o resultado, os adeptos têm direito a vaiar", afirmou o selecionador do México, Javier Aguirre, após a vitória na partida inaugural

Jogador do dia

Ainda o mundial não tinha começado e ele já tinha pouso para a próxima época. Sorte e engenho do Bayer Leverkusen, que percebeu cedo que tinha emprestado ao Red Bull Salzburgo um talento raro, aproveitando rapidamente para acionar a cláusula de recompra. Falamos de Kerim Alajbegovic, uma das estrelas em ascensão neste Mundial em que a Bósnia se vai estrear.

O trajeto deste extremo é tanto mais especial se pensarmos que não tinha feito qualquer jogo como sénior até ao início de 2025/26, mas acaba a época com 44 jogos e 13 golos pelo Red Bull, contabilizando também 10 internacionalizações.

Nascido na Alemanha, como acontece com muitos dos atuais talentos do futebol dos Balcãs, Kerim Alajbegovic nunca duvidou de onde estava a sua lealdade, lá mais para baixo para Sarajevo.

“Ele excedeu as nossas expectativas num muito curto espaço de tempo”, admitiu o diretor desportivo do Bayer Leverkusen, Simon Rolfes.

As dúvidas que existirem em relação ao potencial são respondidas pela valorização, que passou de 5 milhões de euros para 22 milhões de euros em menos de um ano.

É ele a grande esperança da Bósnia e Herzegovina, que tem uma nova geração a despontar, pelo que aconselhamos a que o olho também se possa colocar em Esmir Bajraktarević, do PSV Eindhoven.

Camisola do dia

Antes de mais, menções honrosas obrigatórias para os equipamentos principais de Estados Unidos e Canadá. Ainda assim, e pela diferença, a edição alternativa dos norte-americanos ganha brilho especial, com a Star-Spangled Banner a ganhar forma em pleno corpo dos jogadores.

Camisola alternativa dos EUA (FIFA)
A Star-Spangled Banner aparece em toda a força na camisola alternativa dos EUA (Carregue aqui para ver a imagem ampliada)

Músicas do dia

Angine de Poitrine - Fabienk | Spotify; Apple Music; Tidal; Youtube

Nesta altura já é um dos segredos mais mal guardados da música mundial. Seja pela excentricidade das roupas - vale a pena ver as atuações -, seja pela brutalidade da música, o duo que chega do Canadá é uma certeza autêntica da música atual e do futuro.

Bijelo Dugme - Na Zadnjem Sjedištu Moga Auta | Spotify; Apple Music; Tidal; Youtube

O lado bem-disposto a roçar quase um funk que se mistura com o rock mostra como os Balcãs estavam longe da pior guerra da Europa nos últimos anos. Aliás, quando estalou a guerra na Jugoslávia já os Bijelo Dugme tinham acabado, mas não sei antes nos mostrarem o que valiam. Neste caso, e à boleia do título da música, vemos alguém sentado na parte de trás de um carro que andava por Sarajevo, hoje capital da Bósnia.

Geese - Au Pays du Cocaine | Spotify; Apple Music; Tidal; Youtube

Até é injusto para os Geese que entre aqui apenas uma das músicas. Com tanto por escolher nos Estados Unidos, a ideia passou por um dos projetos mais entusiasmantes dos últimos anos. É ouvir.

Kchiporros - La Cima | Spotify; Apple Music; Tidal; Youtube

Os mais jovens chamam-lhe banger, certamente. É difícil ouvir esta música e não ficar logo com ela no ouvido. Vindos do Paraguai, os Kchiporros são um bom símbolo da chamada cumbia paraguaya.

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