Rui Miguel Tovar percorre a carreira de Jorge Jesus, o já anunciado selecionador nacional. Incluindo aquela vez em que disse que Toni foi injusto: "Os meus jogadores não estavam mamados"
- Sabe o que é uma Bimby?
- A Bíblia?
- Já vimos que não cozinha...
- Ah! A panela de pressão onde se mete tudo! Ouço a minha mulher falar nisso, agora não sei fazer um ovo estrelado. Nunca o fiz na vida. Não sei fazer um bife. Gostava de saber cozinhar, de ter o prazer de o fazer para os amigos. Mas não sei. Tive uma mãezinha que se visse um filho a lavar um prato de sopa, dizia logo: sai daí filho, que isso não é para ti. É verdade.
Mais à frente...
- Uma vez, após um jogo, disse que ganhar ao Benfica só na PlayStation. Já alguma vez foi campeão no PES ou no FIFA?
- Não jogo isso. Nem gosto. Os meus filhos às vezes jogam e dão-me cada abada. É tudo muito diferente da realidade.
Tchan tchan tchan tchaaaaaaaan, senhoras e senhores, Jorge Jesus. O novo seleccionador nacional é capaz disto e muito mais. Afinal, é um artista. Primeiro dentro do campo, depois fora. Como jogador, faz os dois anos de júnior no Sporting, onde joga o seu pai Virgolino em 1944/45, na época anterior à dos Cinco Violinos – ao todo, dez jogos e um golo (na estreia, vs. Atlético, na Tapadinha). Quando sobe ao plantel sénior, Jorge é emprestado a Cova da Piedade (1972/73), Peniche (1973/74) e Olhanense (1974/75).
Em Olhão, o bom do Jesus está finalmente na 1.ª divisão. O sorteio, caprichoso, dita um Olhanense vs. Sporting na jornada de abertura. Em Faro, campo neutro. Como não há aquela chatice de agora em relação aos emprestados, Jesus é titular. E sorri. “Ganhámos 1:0. O golo foi do Lo Bello, argentino como o Yazalde, e eu joguei o tempo todo.”
Na segunda volta, em Alvalade, 7:0. Aí, a memória de Jesus já é mais, digamos, selectiva. “Sete a zero? Não pode ser... A sério? Não me lembro nada disso. E ainda fui substituído? Não pode ser... Como é que esse jogo me passou ao lado? Julgava que nunca tinha apanhado sete.”
O Olhanense acaba mesmo por descer de divisão e Jesus volta ao Sporting, onde faz toda a época 1974/75 a conta-gotas. Doze jogos, só um como titular. Pelo meio, um golo. À Académica, em Coimbra, precisamente a cidade que vê Virgolino lesionar-se gravemente na perna direita em Abril 1945 para nunca mais representar o Sporting. “Entrei aos 84 minutos pelo Marinho e marquei aos 89’. Lembro-me como se fosse hoje.” Estávamos a 2 Novembro 1975. No mês seguinte, Jesus faz o primeiro (e único) dérbi da vida. O resultado é o menos aliciante possível (0:0) e Jesus comete a proeza de entrar e sair. Isso mesmo, Jesus entra para substituir o lesionado Manuel Fernandes e cede o lugar a Baltasar, vs. Benfica. Ao todo, 52 minutos em campo. De 0 a 5, o “Record” dá-lhe nota 3: “Foi de uma utilidade total. Não quebrou o ritmo da equipa e saiu esgotado pelo esforço positivo despendido.” Também “A Bola” o elogia. “Quando entrou, o Sporting continuou a jogar como se nada tivesse acontecido.”
No fim do campeonato, o Benfica é campeão e o Sporting faz a pior campanha de sempre até então (5.º lugar), além de falhar a Europa. E Jesus, um médio mais em jeito que em força, não se impõe naquele meio-campo (Fraguito, Nélson e Valter). Vai daí transfere-se para Belenenses. Depois Riopele, Juventude Évora, União Leiria, Vitória FC, Farense, Estrela, Atlético, Benfica Castelo Branco e Almancilense. Se só contabilizarmos a 1.ª divisão, o seu último clube é o Farense. O adeus é adivinhe lá? Ora bem, Estádio José Alvalade, a 13 Maio 1984. Manuel Cajuda substitui-o aos 60 minutos. Sporting, Sporting, Sporting. A história não acaba aqui. Pause.
A carreira de treinador é mais preenchida. E grandiosa. A aventura começa por acaso. Diz o próprio, em 2013, numa conferência com alunos da Faculdade da Motricidade Humana. “Nunca contei isto a ninguém. Como me fiz treinador? Estava na 3.ª divisão, e no meu último ano de jogador [1989/90]. Jogava no Almancilense, uma equipa do Algarve que não sei se existe, e jogámos com o Amora. Quando acabou o jogo, o presidente do Amora, que estava no banco, convidou-me: ‘Oh Jorge Jesus, tu queres ser treinador do Amora?’ Eu disse: ‘treinador? Mas eu sou jogador, ainda agora estive a jogar, não sou treinador.’ Ele disse: ‘Tu estavas a jogar mas percebi que tu é que eras o treinador dentro do campo.’ E é assim que começo a minha carreira de treinador. Isto é no domingo, na segunda-feira penso e digo-lhe: ‘Aceito o seu desafio.’”
E o Almancilense? José Fernandes dos Barros, presidente do clube algarvio naquela época 1989/90, desbronca-se. No bom sentido. “O Jorge Jesus é bem visto por aqui e é aquela pessoa que quer sempre mais. Era previsível que ele viesse a apostar na carreira de treinador, porque estava sempre a falar com o Mário Wilson Jr, filho do Velho Capitão, então o treinador do Almancilense. É difícil encontrar alguém assim, cheio de vontade e com muito valor. A nível futebolístico é uma pessoa espectacular.”
O primeiro título de todos chega em 1991/92, como campeão da zona sul, 2.ª divisão B. A seis jornadas do fim, o Amora despacha o Elvas em casa por 2:0 e celebra a subida. Na época seguinte, a vida vai torta e jamais se endireita. É outro campeonato, o da 2.ª de Honra, bem mais competitivo e exigente. O Amora não se aguenta. Valha-lhe a Taça de Portugal.
O 11 de Jesus elimina Almada (1:0), U. Tomar (1:0) e Chaves (0:0, 2:1) até chegar aos ¼ final. Uauuu. Dá para ir mais longe? Não. E tudo porque o Amora cruza-se com um grande. No dia do sorteio, Jesus responde à pergunta do jornalista do ‘Record’ sobre a preferência entre Benfica e FC Porto – na altura, o clássico vai a jogo de repetição e o vencedor recebe o Amora.
“Olhe, tanto faz. Qualquer destas equipas tem o valor que toda a gente reconhece. O que eu queria, isso sim, era receber qualquer uma das equipas no campo da Medideira, até porque o público do Amora bem merecia este prémio da Taça. Como tal não aconteceu, vamos aguardar com natural curiosidade o desempate entre Benfica e FC Porto.” O jornalista insiste e Jesus é eficaz na resposta. “Fica apenas o prazer que os jogadores vão ter de pisar as Antas ou a Luz, onde a grande maioria nunca jogou. Quanto ao resto, as nossas hipóteses são quase nulas.”
Passa o Benfica, no tal jogo da apresentação de Futre em plena Luz, com gritos de ‘é ganhar c********, é ganhar c*******”. A figura de Isaías destaca-se de sobremaneira. Marca o 1:0, após nó cego sobre Couto (a finta de colher com o pé direito, à entrada da área, e remate inapelável com o esquerdo), expulsa Aloísio (cabeçada) e sofre a falta do penálti do 2:0 (cotovelada desnecessária de Jorge Costa sem bola e golo do suplente Yuran).
Muito bem, o Amora faz a viagem para a Luz. Ao intervalo, só 1:0 (Mostovoi, aos 43’). Na segunda parte, penáltis de Pacheco (69’) e Yuran (75’) desanimam por completo. Nos últimos dez minutos, Yuran (80’) e Paulo Sousa (81’) fixam o 5:0. A palavra-chave para a conferência de imprensa do Amora é indignação. O médio Macaé, expulso pelo árbitro Mário Leal por entrada feia sobre Rui Costa, diz de sua justiça. ‘Quem esteve atento, viu o que se passou perto do intervalo, quando o Toni fez um gesto que tem um só significado para quem anda no futebol e quis dizer que estava a jogar dopado. O treinador do Benfica deveria ser uma pessoa mais controlada, mais tranquila. Senti-me profundamente ofendido. Trabalho como os meus colegas, não preciso de ‘bombas’ para jogar e gostaria muito de ter ido ao controlo anti-doping para o provar.”
Sobre esse conflito, Jesus também quis falar aos jornalistas. “O meu amigo Toni não deveria ter feito aquele gesto. Os meus jogadores não estavam mamados. Todos eles trabalham muito, preparam-se bem. Ao fazê-lo, colocou em causa o meu trabalho. Deveria ter-me respeitado mais.”
A carreira de Jesus sobe a pulso e ei-lo na 1.ª divisão em 1995-96, pelo Felgueiras. Na estreia, 2:2 em casa vs. Chaves. Na segunda jornada, 2:0 ao Marítimo no Caldeirão dos Barreiros (para parafrasear o inigualável Acácio Pestana, da RTP Madeira). Golos de Earl e Krstic, ambos na segunda parte. O Felgueiras surpreende o país e Jesus até aparece na televisão nacional, no programa “Dia Seguinte”, da RTP 2, à segunda-feira. Qual o seu segredo?, perguntam-lhe. “Tenho uma filosofia de jogo que, portanto, jogo sempre da mesma maneira, seja em Felgueiras ou no Funchal.”
O Felgueiras faz 22 pontos na primeira volta e só 11 na segunda. Desce à 2.ª divisão. Só se volta a ouvir falar dos feitos de Jesus no Estrela, como sucessor de Fernando Santos, em 1998-99. Quem o apanha é o central Jorge Andrade, número 10 nas costas. “Os seus métodos de treino eram parecidos com os que usávamos nos juniores com o Miguel Quaresma [depois adjunto de Jesus no Benfica] e as coisas mais engraçadas eram sempre quando o mister conseguia organizar a equipa em pares de três e filas indianas dois a dois. Um craque! Nas palestras antes do jogo, usava pedras magnéticas e, sempre que caía uma peça, ele dizia ‘já me estás a querer lixar o jogo mas não consegues’. E sempre que acertava no 11 do adversário ou em factos do jogo, dizia: ‘Muitos pensam que sou bruxo, mas não sou.’ Ele tinha de facto uma capacidade forte de antever cenários.”
A sua era no Belenenses entre 2006 e 2008 é abrilhantada com uma final da Taça de Portugal, perdida para o Sporting de Paulo Bento, com um golo solitário de Liedson. Segue-se o Braga em 2008-09. Outra época de arromba e os jogos bem musculados com o Benfica. Num deles, derrota de 1:0 na Luz e muitas críticas da sua parte. “É por isso que os campeões são sempre os mesmos. Não há hipótese, não nos deixam ser melhores. Agora vocês perguntam: como é que eu resolvo isto? Não resolvo, só na PlayStation. Na PlayStation é que eu resolvo isto.” É só rir.
Curiosamente, o seu destino seguinte é o Benfica. A lua de mel inicia-se em 2009 e só acaba em 2015. Cinco épocas equivalem a três títulos de campeão nacional e duas finais europeias seguidas, ambas perdidas vs. Chelsea (2013) e Sevilha (2014). Entre aventuras e desaventuras, uma série de episódios engraçados com jogadores, um deles com Rúben Amorim, em Agosto 2014. Perguntam-lhe, quem lhe tira o sono? “Rúben Amorim. É o jóquer da equipa. Posso metê-lo a 10, 8, lateral direito, médio defensivo... e joga bem em qualquer posição.” Pause. Play. “É um jogador muito importante e esta lesão tem-me tirado o sono. Mas o que é que eu posso fazer? São oito meses, tenho de me sujeitar às consequências. O Talisca tem um pouco o perfil, mas sem a mesma cultura táctica.”
Sem Rúben Amorim, o Benfica vai a jogo com Enzo Pérez. Uma invenção (muito) bem conseguida por Jesus. É campeão. Conheço-o a meio dessa campanha, por intermédio do Pedro, filho do Evaristo, dono do Solar dos Presuntos. É um almoço de rotina, com Jesus na minha mesa. O Pedro, verde por todos os poros e mais alguns, apresenta-nos e, depois, passa ao ataque, com picanços sucessivos a Jesus sobre a entrevista de BdC aos directores dos três jornais desportivos no canal televisivo do Sporting. ‘E viste o meu presidente?’ ‘E isto?’ ‘E aquilo?’ É um fartote. Jesus, nada. Está sempre de cabeça baixa, entretido com a sua cabeça de garoupa – mais tarde, nos tempos do Flamengo, quem diria?!, é mais garoupa de Ipanema. De repente, à enésima provocação sobre o Sporting vai fazer, o Sporting vai acontecer, o Sporting está só a oito pontos, Jesus estica o braço direito na direcção de Pedro e pergunta-lhe com tom sério: ‘sabes quantos pontos vai ganhar o Sporting ao Benfica? Zeeeeeeero!’
Estamos em Novembro, longe ainda de saber o desfecho da época. O Benfica acabaria por ser campeão e vencedor da Taça da Liga, o Sporting leva a Taça de Portugal e BdC demite Marco Silva no dia seguinte à épica conquista. Então? O plano é Jesus, descontente com a conversa do presidente Luís Filipe Vieira e o método do empresário Jorge Mendes para a época seguinte, a de 2015-16.
Um mês antes da conquista do título, já com tudo bem encaminhado, Jesus recebe a chamada de um amigo mandatado por Bruno de Carvalho. O presidente do Sporting prepara uma contratação de arromba, daquelas que até a barraca abana. Jesus atira um preço para o ar: cinco milhões de euros por ano. Uma semana depois, o mesmo amigo liga-lhe a confimar. “Se quiseres, são teus”, informa o artigo de Pedro Candeias no “Expresso. É cedo para aceitar, Jesus só diz nim até acabar a época, com a final da Taça da Liga, com o Marítimo, em Coimbra.
Se, por um lado, ainda lhe falta conquistar o campeonato e essa taça, por outro há ainda a conversa programada com o presidente Luís Filipe Vieira mais aquela com o empresário Jorge Mendes sobre o futuro do treinador num outro campeonato, com mais dimensão e visibilidade que o português. Quando o assunto transpira para os jornais, Bruno de Carvalho é o primeiro a reagir com uma nega. Acontece no dia 18 de Maio, uma segunda-feira, num almoço informal com três jornalistas.“Isso é impossível”, diz o presidente. Dois dias depois, o jornal “A Bola” faz manchete com Jesus no Sporting. “Se ele vier, o Ronaldo e o Messi também são bem-vindos, de caretas”, ironiza Bruno de Carvalho. Faltam três dias para a final da Taça da Liga. Jesus já é tricampeão pelo Benfica (2010, 2014 e 2015), falta-lhe só mais um joglo para fechar a época em beleza e reúne com Jorge Mendes.
O jantar é no Hotel Tivoli, com direito a tudo a que um homem tem direito menos uma proposta tentadora. O Real Madrid prefere um espanhol a um estrangeiro (viria Rafael Benítez) e o Barcelona manter-se-ia agarrado a Luis Enrique, obreiro do famoso treble (Liga, Taça do Rei e Liga dos Campeões). Só há uma proposta do Catar, no valor de seis milhões de euros durante um ano, enquanto Laurent Blanc não saísse do PSG. O jantar é indigesto para Jesus. Aquilo não lhe interessa, não é o dinhero que o move, é tudo o resto. Mendes informa então Vieira de que Jesus não vai a lado nenhum. É agora a vez de presidente e treinador trabalharem o novo contrato. Só depois da conquista da Taça da Liga (2:1 vs. Marítimo). A caminho do autocarro, o capitão Luisão pede a Jesus para dispensar o treino previsto para domingo a quem já tenha bilhetes de avião para o Brasil. Jesus concorda e concentra-se na reunião com Vieira. Acontece a 1 Junho, na Luz.
Vieira garante o mesmo ordenado, sob a condição de um plantel com 20 jogadores mais cinco miúdos da formação. Ao mesmo tempo, aconselha Jesus a ouvir Mendes sobre a proposta do Catar, tentadora para uns, menosprezada por Jesus. Afinal, que tricampeão sairia do país para o Catar? Jesus não, isso é certinho. Com a certeza de que não o querem na Luz (da mesma forma que o Sporting prescinde dos serviços de Marco Silva, vencedor da Taça de Portugal), o treinador equaciona o futuro em Portugal. Ou FC Porto, que o abordara há meses, ou o Sporting, que lhe prometera cinco milhões de euros.
No dia seguinte (2 Junho), telefona-lhe então Vieira, a perguntar se já tem as malas prontas, no sentido de irem todos (Mendes, incluído) para o Catar. Alto lá e pára o baile. Jesus desliga o telefone com um lacónico “volto a ligar-te” e vai a caminho do Sporting. É o efeito dominó: Jesus liga ao tal amigo de outras andanças e este a Bruno de Carvalho. O encontro faz-se na casa do administrador Rui Caeiro, às nove horas dessa noite. Jesus janta e chega a acordo em dez minutos apenas. No dia 3, Jesus dá a palavra a Bruno de Carvalho e a operação faz-se num ápice com duas reuniões: uma, às 15h30, em Alvalade, entre BdC, dois administradores leoninos e o advogado do treinador; outra, às 18h, num escritório de advocacia, com Jesus num dos pisos, os administradores do Sporting noutro e BdC em Alvalade.
Nesse entretanto, chovem telefonemas para Jesus. A caixa de mensagens ocupa-se de amontoar os números de Vieira, Paulo Gonçalves (responsável jurídico das águias) e Rui Costa. Um deles deixa a mensagem: “Cinco, seis milhões de euros.” Já é tarde. Jesus está em Alvalade de pedra e cal, é o segundo treinador de sempre a trocar o Benfica pelo Sporting depois do inglês Artur John no tempo da outra senhora, em 1931. Já com Jesus de férias na Costa Rica, a 9 Junho, uma terça-feira, aparece a confirmação oficial de Bruno de Carvalho a falar da “bicada do século”. Fim? Nada disso. Haverá mais, muito mais.
Claro que há. O Sporting de Jesus ganha um troféu na estreia, a Supertaça portuguesa. O adversário? Benfica. Um-zero no Algarve. Começa aqui uma algaraviada sem precedentes com Rui Vitória. O pingue-pongue tem episódios recambolescos, Jesus fala de Ferrari e boooola, a fazer o gesto de zero com o indicador e o polegar. O Benfica acaba por ser campeão, graças a um golo de Mitroglou em pleno José Alvalade. Nas duas épocas seguintes, o Sporting só ganha uma Taça da Liga, em 2018, ano em que perde a final da Taça de Portugal para o Aves, na semana do ataque dos ultras em Alcochete.
No dia seguinte ao ataque, revejo Jesus no Solar dos Presuntos. Está na sala Armando Cortez, com amigos. Numa outra sala, Fábio Coentrão. Os dois encontram-se e falam da cegada do anterior. Como Fábio está fora da Academia à hora do assalto à dignidade do Sporting, é Jesus quem faz os gestos todos. Coentrão arregala os olhos, abana a cabeça em jeito de ‘não acredito’ e Jesus insiste nos gestos. É uma cena digna de Tati, Jacques Tati. Sai de fininho, Coentrão. Já Jesus volta à sala para vestir o casaco e também sai de cena. Quando me vê, podia muito bem ter feito um cumprimento à distância e tchau aí. Qual quê, vem até à minha mesa e cumprimenta individualmente os cinco comensais, quatro homens e uma mulher. Quando alguém lhe pergunta sobre a invasão, Jesus puxa as calças para cima e desabafa ‘parecia o Daesh’.
Emigra para a Arábia Saudita (Al-Hilal) e perde outro campeonato para Rui Vitória antes da consagração internacional pelo Flamengo. Diz Octávio Machado, o seu grande amigo desde os tempos de jogador do Vitória FC. “Ele quis o Brasil e quis o Flamengo. Ele sabia que o Flamengo, apesar de não ganhar nada, era um colosso do futebol brasileiro, é o maior clube do Brasil. O Jesus perdia noites a ver o Brasileirão. Aliás, lembro-me de falar com ele numa altura em que ainda não era nada oficial e ele falou-me de tal maneira que lhe disse logo: ‘Já estás agarrado’.”
Lá está a tal palavra: agarrado. Jesus é muito da familia e dos amigos. “É a sua maneira de ser.” Em relação à família, “basta lembrar que treinava o Felgueiras e ia ver todos os dias a sua mãe a Lisboa.E quando o pai adoeceu, ele já estava no Benfica e também ia vê-lo todos os dias. Durante o tempo da visita, não atendia o telefone a ninguém, fosse quem fosse. Por isso é que uma vez se disse que ele não atendeu o telefone ao Luís Filipe Vieira. Isso é verdade, porque ele estava precisamente com o pai.” E os amigos? Um exemplo claro: “o Jesus almoçava quase sempre no Solar dos Presuntos e depois passava a tarde a jogar às cartas com quem estava lá. Sâo hábitos que agora lhe fazem falta.”
Pausa para respirar. E toma lá outro argumento de Octávio. “Depois há o futebol. Fora a família e os amigos, há o futebol. É que Jesus é só futebol, futebol, futebol. Não tem escape nenhum, passa dias inteiros a ver futebol. Lembro-me que, no Sporting, íamos jogar ao Aves ou ao Tondela, por exemplo, e, no regresso, na viagem de autocarro, já vinha a ver o jogo no computador para perceber o que é que tinha corrido menos bem e depois corrigir aos jogadores. Havia pessoas da equipa técnica a fazer análises e relatórios durante a noite para ele receber as indicações às 7h30/8h da manhã. O Jesus é assim, respira futebol, alimenta-se de futebol e vive aquilo 24 horas por dia. Recorde-se que ele foi às modalidades, falar com treinadores de andebol, basquetebol e hóquei em patins para entender os bloqueios e as desmarcações, de maneira a aplicá-las no futebol.”
Futebol, pois é. Jesus respira futebol há mais de 50 anos. E agora, aos 71 de (boa) vida, vai agarrar-se ao maior desafio da sua carreira, o da selecção nacional, depois de se sagrar campeão da Arábia Saudita pelo Al-Nassr com a dupla João Félix e Cristiano Ronaldo. Na crista da onda, sempre. Portugal nunca mais será o mesmo. Jesus não sabe fazer um ovo estrelado, mas sabe fazer uma equipa que jogue à bola.
