Mundial 2026: quatro estreantes carregados de histórias e ambições

20 nov 2025, 08:35
Quatro estreantes no Mundial 2026: Uzbequistão, Jordânia, Cabo Verde e Curaçau

Curaçau, Cabo Verde, Uzbequistão e Jordânia estão pela primeira vez numa fase final, venha saber como é que lá chegaram

O Mundial 2026 vai contar, pela primeira vez, com 48 seleções, mais dezasseis do que as últimas edições, o que abre espaço para regressos improváveis e estreias absolutas e, até ao momento, ainda com seis vagas por preencher, já contamos quatro novatos nestas andanças. Depois das festas da Jordânia e do Uzbequistão, em junho passado, seguiu-se também a festa em Cabo Verde, em outubro, e, agora, também há fogo de artifício na pequena ilha do Curaçau, no mar do Caribe.

Mundial 2026: as 42 seleções já apuradas

Vai ser, com certeza, o Mundial mais exótico de todos os tempos, já com alguns regressos confirmados, como foram os casos do Haiti, que já tinha uma presença com mais de meio século, no Mundial de 1974, ou do Panamá, que também contava apenas com uma experiência, com apenas três jogos realizados no Mundial 2018.

Mas também com a Escócia que, apesar da maior cultura futebolística, já não ia a uma fase final há 28 anos, desde o Mundial de 1998, tal como a Áustria e a Noruega. A este lote podemos também juntar a África do Sul, arredada destas andanças há 16 anos, desde que organizou o primeiro Mundial africano.

Curaçau: o mais pequeno de sempre numa fase final

Mas vamos focar-nos nos estreantes, a começar pelo mais pequeno de todos, o Curaçau, uma ilha paradisíaca no mar das Caraíbas, mesmo em frente à Venezuela, que, mesmo antes de jogar, já fixou dois novos recordes na maior competição da FIFA.

Com uma população com pouco mais de 150 mil habitantes, o Curaçau passa a ser a nação com menos população a participar numa fase final, batendo o recorde que a Islândia, com 405 mil habitantes, tinha fixado no Mundial 2018, na Rússia.

Além de ser o país menos populoso, a pequena ilha caribenha, com apenas 444 quilómetros quadrados, também passa a ser o país mais pequeno em termos de área, batendo mais uma vez a marca da Islândia (102.775 km quadrado) que já tinha sido também ultrapassada, em outubro, por Cabo Verde (4.033 km quadrados).

Jogadores do Curaçau nasceram todos nos Países Baixos

Uma pequena ilha que até 2010 integrou as Antilhas Holandesas e que tem a particularidade dos seus jogadores, comandados pelo experiente neerlandês Dick Advocaat, terem todos nascido nos Países Baixos, incluindo dois que já passaram pela liga portuguesa. Jeremy Antonisse, agora a jogar na Grécia [Kifisias], representou o Moreirense por duas temporadas (20023/24 e 24/25), enquanto Kenji Gorré, agora no Maccabi Haifa, passou pelo Nacional, Estoril e Boavista. Os dois estiveram no histórico empate diante da Jamaica, disputado em El Salvador, que abriu as portas do Mundial.

Um feito que ganha ainda mais força se tivermos em conta que a federação local só foi formalmente criada em 2011. O antigo internacional neerlandês Patrick Kluivert, cuja mãe, Lidwina Kluivert, é natural do Curaçau, foi o grande impulsionador do projeto inicial, quando assumiu o comando da seleção em 2015. Com pouca matéria-prima para explorar na pequena ilha, o antigo avançado recorreu-se da diáspora nos Países Baixos, convencendo compatriotas com raízes no Curaçau a representar aquela seleção, acabando por recrutar boa parte do atual núcleo de jogadores que agora acaba de garantir a qualificação histórica.

O Curaçau torna-se, assim, na primeira seleção numa fase final exclusivamente composta por jogadores que não nasceram no país que vão representar. É a quinta seleção das Caraíbas a chegar a uma fase final, depois de Cuba, Haiti, Jamaica e Trinidad e Tobago.

É óbvio que para chegar à fase final, o Curaçau beneficiou da ausência das seleções mais fortes da CONCACAF, uma vez que Estados Unidos, Canadá e México, no papel de anfitriões, já estavam qualificados, mas, ainda assim, a pequena nação fez uma fase de qualificação irrepreensível, com sete vitórias e três empates (28 golos marcados, 5 sofridos], com alguns resultados expressivos, como foram as goleadas aos Barbados (4-1), a Santa Lucia (4-0), ao Haiti (5-1) ou às Bermudas (7-0). A qualificação ficou selada com um empate sem golos diante da Jamaica, numa partida disputada em San Salvador, devido aos danos provocados em Kingston pela passagem do furacão Melissa no final de outubro.

Dick Advocaat vai passar a ser o selecionador mais velho de sempre

Além do título de país mais pequeno do mundo, o Curaçau também vai contar com o selecionador mais velho de sempre numa fase final, com Dick Advocaat, com 78 anos, cumpridos a 27 de setembro, a ir para a sua terceira fase final, depois de já ter comandado os Países Baixos no Mundial de 1994 e a Coreia do Sul no Mundial de 2006. O treinador neerlandês bate, assim, uma marca que pertencia ao alemão Otto Rehhagel que, em 2010, levou a Grécia ao Mundial da África do Sul, então com 71 anos.

Mais um pormenor. O nome da ilha pode ter sido atribuído pelos marinheiros portugueses que por ali passavam nos séculos XVI e XVII. As crónicas contam que quando os marinheiros sofriam de escorbuto [falta de vitamina C], eram abandonados naquela ilha e acabam por recuperar, supostamente depois de comerem a fruta local. Quando o barco regressava de viagem, acabava por resgatar os marinheiros, já curados, levando os portugueses a baptizar a pequena ilha como a ilha da Curaçau [arte de curar].

Falta agora saber quem é que o Curaçau vai defrontar na fase final, mas o presidente da federação, Gilbert Martina, já canta vitória. «Que venham todos! Já ganhamos o nosso mundial», atirou o feliz dirigente.

The dream came true! pic.twitter.com/hu1nndGBBu

— Concacaf (@Concacaf) November 19, 2025

CURAÇAU AO RAIO X

Confederação: CONCAF (América do Norte, centro e Caraíbas)

Onde fica: nas Caraíbas, em frente à Venezuela

População: 150 mil habitantes

Área: 444 quilómetros quadrados

Capital: Willemstad

Língua oficial: Papiamento, neerlandês e inglês

Moeda: Florim do Caribe

Religião: católicos romanos (72,8 por cento)

Selecionador: Dick Advocaat (Países Baixos)

Cabo Verde: a «nova independência», 50 anos depois da primeira

Se houve festa em Curaçau, o que dizer de Cabo Verde que contou com as suas dez ilhas a celebrar o feito inédito, depois de uma fase de qualificação também ela quase perfeita. Os tubarões azuis venceram o Grupo D da zona africana, que incluía dois mundialistas, Camarões e Angola, com sete vitórias, três empates e apenas uma derrota (16 golos marcados, 8 sofridos).

Uma caminhada de sucessos que teve um percalço já com o Mundial à vista quando Cabo Verde, já com hipóteses de carimbar o apuramento direto, empatou na Líbia 3-3. Um empate que gerou alguma apreensão, mas a festa acabou por fazer-se, logo a seguir, em casa, com uma vitória sobre o Essuantíni (3-0) que deixou todo o arquipélago em polvorosa. O presidente do país, José Maria Neves, falou com alma em nome da nação.

«Mais um grande momento para a nação global cabo-verdiana. Um povo que confia em si mesmo, que é resistente e fértil em esperança. Trata-se, simbolicamente, de uma nova independência. Pois provamos que, nestes 50 anos, lançamos as bases e crescemos, em todos os domínios da vida económica e social. De um país improvável em 1975, hoje, revelamos, mais uma vez, que já somos um país de possibilidades. Se podemos ir ao Mundial, podemos também ganhar em outras esferas e mostrar ao mundo que somos um povo de alma grande», escreveu o governante.

«Os cabo-verdianos, juntos e unidos, nas ilhas e na diáspora, apoiaram entusiasticamente os tubarões azuis. Vieram compatriotas de vários países do mundo para assistir ao jogo no Estádio Nacional. Nas ruas, vales e cutelos do globo, aplaudimos os gigantes tubarões azuis. Ficou evidente que quando estamos unidos podemos vencer todos os obstáculos», acrescentou.

Uma seleção com muitos jogadores que representam clubes portugueses liderados pelo treinador Pedro Leitão Brito, mais conhecido como Bubista que, aos 55 anos, acaba de ser eleito pela Confederação Africana como melhor treinador do ano.

CABO VERDE AO RAIO X

Confederação: CAF (Confederação Africana de Futebol)

Onde fica: no Atlântico, junto à costa do Senegal

População: 560 mil habitantes

Área: 4.033 quilómetros quadrados

Capital: Praia

Língua oficial: português

Moeda: Escudo cabo-verdiano

Religião: católicos (72,5 por cento)

Selecionador: Bubista (Cabo Verde)

Uzbequistão: heróis condecorados com medalhas e carros

O Uzbequistão festejou a qualificação para o Mundial em junho passado, destacando-se como o primeiro representante da Ásia central a chegar a uma fase final de um Campeonato do Mundo. Um velho sonho que vinha a crescer desde a independência do país, em 1991, e que nunca esmoreceu, apesar de sete tentativas fracassadas, duas delas depois de ter estado muito próximo de alcançar o objetivo.

O maior feito do Uzbequistão no futebol tinha sido a vitória da equipa masculina nos Jogos Asiáticos, em 1994, mas o verdadeiro sonho era seguir a Rússia e a Ucrânia como a terceira antiga república Soviética a chegar a uma fase final da competição da FIFA.

A qualificação ficou formalmente garantida a 5 de junho com um empate nos Emirados Árabes Unidos (0-0), mas a festa ficou guardada para a receção ao Qatar (3-0), em casa, no último jogo da fase de qualificação.

Uma comemoração feita com pompa e circunstância com a presença do chefe de Estado, Shavkat Mirziyoyev, na tribuna de honra, onde se fez acompanhar pelo primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, e pelo presidente da Bulgária, Rumen Radev, bem como de outros chefes de estado da Ásia Central.

Antes do jogo, os jogadores foram recebidos por um estádio em delírio, com o estatuto de heróis, com a federação e o ministro dos Deportos a distribuírem medalhas. Depois do jogo, nova cerimónia, com o presidente Mirziyoyev a entregar prémios monetários e um carro elétrico [BYD Song Plus] a cada um dos jogadores como recompensa pela qualificação.

«Os jogadores demonstraram verdadeira coragem e perseverança e o nosso povo apercebeu-se de que o seu sonho se tornou realidade. Estou convencido de que este feito histórico combina o nosso povo no caminho de objetivos nobres, um símbolo de inspiração para milhares de jovens, para aumentar ainda mais o prestígio internacional do Uzbequistão», destacou o governante.

Uma seleção composta essencialmente por jogadores que atuam na liga local, mas com algumas estrelas, como são os casos mais mediáticos de Eldor Shomurodov. Ex-Roma, atualmente nos turcos do Basaksehir, e de Abdukodir Khusanov, defesa do Manchester City.

Apesar da sensacional campanha de qualificação, liderada pelo antigo internacional Timur Kapadze, a federação anunciou, pouco tempo depois de garantida a qualificação, a contratação do italiano Fabio Cannavaro, antigo Bola de Ouro, para liderar os lobos brancos no Mundial 2026.

UZBEQUISTÃO AO RAIO X

Confederação: AFC (Confederação Asiática de Futebol)

Onde fica: no coração da Ásia, entalado entre Turquemenistão, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Afeganistão.

População: 37,5 milhões habitantes

Área: 448.978 quilómetros quadrados

Capital: Tashkent

Língua oficial: uzbeque

Moeda: Som (UZS)

Religião: muçulmanos (93,3 por cento)

Selecionador: Fabio Cannavaro (Itália)

Jordânia: sucesso com receita marroquina

No mesmo dia em que o Uzbequistão festejou a qualificação, também houve festa em Amã, com a Jordânia também a festejar a primeira presença num Mundial depois de muita perseverança, incluindo nove tentativas frustradas, mas agora a alcançar o sucesso com aquela que é considerada a melhor geração da história do futebol jordano que, em 2023, já tinha sido vice-campeã da Ásia.

A Jordânia já tinha ficado uma vez à portas de um Mundial, aquele que decorreu no Brasil, em 2014, quando se qualificou para o play-off intercontinental, mas depois foi atropelada, em casa, pelo Uruguai (5-0) que contava com um ataque fulminante com Luis Suárez, Edinson Cavani e Diego Forlán. O empate, na segunda mão, em Montevideu, de pouco serviu.

Uma nova geração trouxe uma esperança renovada nos últimos anos sob o comando do treinador marroquino Hussein Ammouta que acabou por deixar a seleção árabe, no arranque da qualificação, após um convite irrecusável para ir treinar o Al Jazira, nos Emirados Árabes Unidos.

Da apreensão e sentimento de perda nasceu uma equipa ainda mais forte, liderada por outro marroquino, neste caso, Jamal Sellami, antigo internacional que já tinha estado no Mundial 98 e que liderou Marrocos à conquista da Taça das Nações Africanas em 2018.

Desde que assumiu os comandos da Jordânia, em junho de 2024, Sellmani acumulou doze jogos e perdeu apenas dois, com a Coreia do Sul e com o vizinho Iraque, marcando um total de 19 golos e consentindo apenas oito.

A Jordânia entrou diretamente na segunda fase da qualificação asiática, sentiu alguns problemas nos primeiros jogos, com um empate no Tajiquistão e uma derrota, em casa, diante da Arábia Saudita, mas depois encarrilou para uma série de quatro vitórias consecutivas, entre as quais, uma goleada ao Paquistão (7-0) que permitiu ultrapassar a Arábia Saudita, na classificação, pela diferença de golos.

Na terceira fase, já sob o comando de Sellami, a equipa continuou a crescer, com um trio de ataque de respeito, constituído por Mousa Al Tamari, Yazan Al Naimat e Ali Alwan. A 5 de junho, a Jordânia chegou aos 16 pontos, após uma vitória sobre Omã (3-0) e acabou por qualificar-se, já no sofá, horas depois, na sequência da derrota do Iraque diante da Coreia do Sul.

JORDÂNIA AO RAIO X

Confederação: CAF (Confederação Asiática de Futebol)

Onde fica: no Médio Oriente, entre a Arábia Saudita e a Palestina e Israel

População: 11,4 milhões

Área: 89.341 quilómetros quadrados

Capital: Amã

Língua oficial: árabe

Moeda: Dinar jordaniano (JOD)

Religião: muçulmanos sunitas (92 por cento)

Selecionador: Dick Advocaat (Países Baixos)

Ainda faltam seis vagas, com cinco possíveis novos estreantes na corrida

A estes quatro estreantes podem ainda juntar-se mais surpresas, uma vez que ainda há 22 candidatos a ocupar as seis vagas que sobram para completar o leque de finalistas do Mundial do próximo ano, quatro deles virão dos play-offs europeus (sorteio é esta sexta-feira, às 12horas) e outros dois dos play-offs intercontinentais que só se vão jogar em março do próximo ano.

Na Europa são dezasseis as seleções que ainda têm a ambição de chegar à fase final, entre as quais, há três possíveis estreantes: Albânia, Kosovo e Macedónia do Norte, embora estes dois últimos tenham feito parte da mundialista Jugoslávia até 1990.

Nos play-off intercontinentais, também há mais seis candidatos a duas vagas, entre os quais mais dois possíveis estreantes, o Suriname e a Nova Caledónia.

Ainda antes dos play-offs de março, vamos ter o sorteio da fase final, marcado para 5 de dezembro, sabendo-se, à partida, que Portugal, no sexto lugar do ranking FIFA, ficará no Pote 1.

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