Sempre que as ditaduras perdem, as Mães da Praça de Mayo ganham. Messi é o filho que a Argentina pediu

15 jul, 22:07
Inglaterra-Argentina (FOTO: AP/Rebecca Blackwell)
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CRÓNICA INGLATERRA 1-2 ARGENTINA || Jogo épico no Mundial, o jogo mais emotivo em vários anos, também por tudo o que representava fora de campo. No fim, apareceu aquele que aparece sempre

Margaret Thatcher tem de estar orgulhosa destes rapazes, mas as Mães e Avós da Praça de Mayo têm de estar ainda mais. Todos tinham antecipado que o Inglaterra-Argentina ia ser mais do que um jogo de futebol. E foi mesmo, para o bem e para o mal. Para o bem porque houve emoção a um nível que ainda não tínhamos visto, para o mal porque foi um jogo que, apesar de emocionante, não foi muito bem jogado, pelo menos não sempre.

A épica batalha que voltou a colocar dois grandes rivais em campo acabou como quase sempre acabou a Argentina neste Mundial. De susto em susto, até à vitória final, com um fim de jogo absolutamente épico que teve um golo aos 86 e outro aos 90+3 para uma reviravolta que deve ter acordado até Diego Armando Maradona.

Primeiro há que recuar e perceber que Inglaterra estava confortavelmente instalada nas Ilhas Malvinas - Falkland, para quem preferir -, até porque sempre entendeu ser a legítima herdeira do arquipélago que chegou a ser dominado por espanhóis.

Mas na terra do frio onde só os pinguins estão confortáveis havia ambição da Argentina, sobretudo da ditadura nacionalista, que achou que a distância geográfica do Reino Unido ia ser uma vantagem. Spoiler para quem não conhece a história: não foi e os britânicos venceram a guerra em pouco mais de dois meses, com Margaret Thatcher a sair altamente reforçada.

Outro spoiler: a história desta meia-final acabou de forma diferente. Não porque a ditadura tenha vencido, mas porque a liberdade venceu. As Mães e Avós da Praça de Mayo, lá está, aquelas mulheres que tanto sofreram ao verem os seus descendentes levados pela ditadura militar da Argentina, muitos deles para nunca mais voltarem. Venceu a "Dama de Ferro" contra o punho de ferro, desta vez venceu a liberdade do futebol contra a ditadura do medo.

Inglaterra esteve a minutos de uma final tão desejada, mas foi sufocada e sufocou-se de um modo tal que subverteu completamente a lógica da “Dama de Ferro”. O objetivo é ser conservador, sim, mas não é deixar de olhar para a frente, deixar de atacar por completo. Thomas Tüchel não percebeu a lição e impôs o pior de tudo num campo de futebol, a subjugação a um adversário, ainda para mais a um que acredita como nenhum outro.

Em vantagem desde o início da segunda parte, Inglaterra teve de defender como em 1982, mas a sorte e a sabedoria não estiveram do seu lado, mesmo que motivadas por um Jordan Pickford que foi adiando o inevitável. Ele sim teve punho de ferro, menos para um remate de Enzo Fernández, que atirou à entrada da área perante um guarda-redes inglês mal colocado.

Justiça seja feita, a Argentina acabou por fazer o seu melhor jogo neste Mundial, naturalmente empurrada pela necessidade de correr atrás do resultado, tal como tinha acontecido anteriormente, mas desta vez com muito mais capacidade.

A Argentina dançou com o perigo contra Cabo Verde, Egito e Suíça - provavelmente devia até ter sido eliminada num desses jogos - e gastou toda a estrelinha que trazia para este Mundial.

Depois de uma primeira parte que mais pareceu uma luta do que um jogo de futebol, Inglaterra foi cirúrgica o suficiente para aproveitar uma desatenção de uma defesa argentina que é de facto fraca, e que permitiu uma entrada totalmente solta de Anthony Gordon.

Aproveitou a nova coqueluche do Barcelona, desta vez atirada para o onze no lugar de Marcus Rashford, lugar que, ironia das ironias, provavelmente também vai ocupar na Catalunha.

A Argentina fez soar o alarme e ligou então o modo futebol, o modo total. Não serviu às primeiras tentativas por causa de Jordan Pickford, mas serviu ao minuto 86 para empatar tudo - assistência de Lionel Messi, pois. Uma autêntica bomba no porta-aviões de Thomas Tüchel, que mereceu perder este jogo pela forma como se encolheu.

A Argentina é a Argentina e é natural que se tenha pensado que o jogo nem ia a prolongamento, que ia ficar logo resolvido ali. Bem dito, bem feito. Cruzamento de sonho de… Lionel Messi, pois, e Lautaro Martínez a cabecear lá para dentro, completando uma reviravolta épica. Até num jogo mais apagado é ele, o astro, o herdeiro de todos os filhos de Mayo, que aparece para salvar um país.

Tal como em 1982, a ditadura perdeu. As Mães e Avós da Plaza de Mayo que tiveram de esperar da outra vez tiveram de esperar novamente, mas voltou a valer a pena.

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