Primeiro selecionador de Portugal, depois do Irão, agora do Gana, que se estreia esta quarta-feira em campo. Quando é que lhe fazem uma estátua?
Vamos jogar ao stop?
Siiiiga a marinha.
Eu digo A e vocês stop.
A…
…
…
Stop.
…
Éme, letra M.
Restaurante? Matilde, Adega da Tia Matilde.
Marisqueira? Mares, Sete Mares.
País? Moçambique.
Adega da Tia Matilde + Sete Mares + Moçambique =
…
…
Eusébio!
Estamos em 2015, ainda trabalho no jornal “i” e faço-me ao piso para uma reportagem sobre os restaurantes de eleição de Eusébio em Lisboa, na véspera da sua entrada no Panteão. A viagem é só de ida, acreditem. E porquê? Nunca mais volto ao nosso planeta. Ainda estou a boiar alegremente nas memórias cativantes dos comensais desses dois baluartes da restauração da capital. Na Adega da Tia Matilde, por exemplo, recebe-nos o afável dono Senhor Emílio, então com 94 anos. Ouçamo-lo. “O Eusébio chegou meio às escondidas, como se sabe. E assim se manteve até à estreia oficial pelo Benfica, em Junho de 1961. Quem estava sempre com ele era o Domingos Claudino, director do Benfica. Um dia, levou-o a Alvalade para ver o Sporting-Académica do campeonato.”
O jogo diz respeito à 16.ª jornada, a 22 Janeiro 1961. Decide o brasileiro Geo, 1:0. “Quando é esse golo, o Eusébio levanta-se do lugar e festeja-o. O Domingos Claudino olha-o com desconfiança e leva-o dali para fora. Do José Alvalade para o Algarve, onde Eusébio passará uma temporada sem ninguém lhe pôr a vista em cima.” Assim, sem escalas? Ah ha, aí é que está. “O Domingos Claudino já aí é cliente habitual da Tia Matilde e estaciona aqui com o Eusébio para um lanche antes da viagem ao Algarve. É a primeira vez que vejo o Eusébio. Daí para a frente, será sempre um companheiro, um amigo, uma referência, um irmão. Só para ver bem, ele chamava-me de Pai Branco.”
Da Rua da Beneficiência para a Avenida Columbano Bordalo Pinheiro nem sequer é um quilómetro. Num ápice, empurramos a porta do Sete Mares, onde Eusébio janta. “Sempre peixe”, garantem-nos. “E ele sabia o que comia, só pela posta. Às vezes, dizíamos que era isto e ele, do lado de lá do vidro, metia o dedo no olho como quem diz 'estás a querer enganar-me?'. Isto é mas é aquilo. E acertava sempre, fosse garoupa, linguado, cherne, salmonete, pargo, sargo”.
Outra: “Quando lhe ligavam para o telemóvel, ele pedia-nos para dizer os últimos quatro números. Sabia logo quem era: fula no, beltrano ou sicrano. E aquilo era uma lista telefónica com centenas de números na cabeça.” Só mais uma, só mais uma. “Certo dia, ele estava aqui no balcão e um grupo de turistas viu-o. Aproximou-se em grupo, sorrateiramente. Às tantas, só um deles é que tomou a dianteira. O Eusébio vira a cabeça para trás, olha na sua direcção e depois volta-se para o prato. O senhor, um holandês, diz-lhe ‘eu conheço-o’. E ele, mais tranquilo que nunca, ‘eu também, foste o meu marcador naquele jogo x no ano y’. Ele conhecia-o de um só jogo! E um amigável!! Beeem, o holandês estava de boca aberta, sem acreditar em nada daquilo. Tinha cá uma memória.”
Eusébio é uma instituição. Tem livros, filmes, séries documentais e até duas estátuas, uma à porta do Estádio da Luz e outra em Boston, no Estádio Gillette. Ah, e também tem golos. Às carradas. E golos importantes, como os nove no Mundial-66, os dois na final da Taça dos Campeões-62 e aquele de livre directo na Super Bowl da liga norte-americana NASL-76. Super Bowl, are you having a laugh? Pois é, Eusébio é campeão norte-americano há 50 anos. E o melhor de tudo: por uma equipa canadiana, os Toronto Metro-Croatia. Metro-Croatia, are you having a laugh?
Bilecki, Blaskovic, Fazlic, Cukon, Lukacevic, Grnja, Juricko, Sutevski. A Jugoslávia em peso está lá. Pelo meio, um brasileiro bom de bola mas desconhecido (Ivair Ferreira), um italiano sem jeito por aí além (Marcantonio) e um génio mundialmente famoso (Eusébio). Já com 34 anos, Eusébio é o número 10 de uma equipa mal vista na organização da NASL, porque a sede é no Canadá, onde os jogos são acompanhados por escassos seis mil adeptos e apoiada na comunidade jugoslava. Muito étnica, portanto. Tanto assim é que o comentador televisivo Jon Miller é "aconselhado" pela própria NASL a não dizer Metros-Croatia, só Metro. A NASL prefere o glamour de Nova Iorque (Pelé e Chinaglia), Los Angeles (George Best), San Antonio (Bobby Moore) ou Seattle (Geoff Hurst), que arrastam multidões, dentro e fora do estádio.
Em Toronto, e longe dos holofotes da fama, Eusébio leva a equipa às costas e é campeão contra todas as expectativas. O “leva a equipa às costas” tem o seu quê de extraordinário: 16 golos e quatro assistências em 21 jogos. Na tal final do Super Bowl em Seattle, em Agosto 1976, os Metro-Croatia vencem os favoritos Minnesota Kicks por 3-0, com Eusébio a marcar o primeiro golo aos 41 minutos e 28 segundos (americanices), na transformação de um livre directo. Daqueles que só ele sabia marcar. Potente remate a contornar a barreira e a queimar as mãos do guarda-redes Geoff Barnett, sem reflexos nem força para evitar o inevitável. "A nossa equipa era como um patinho feio, fora da esfera dos EUA, mas ganhámos de forma convincente. Foi tudo muito bonito, mas foi incrível como nos esquecemos das garrafas de champanhe em casa. Brindámos com outra bebida." Diz Eusébio, levado em ombros pelos companheiros no final do jogo.
Retomamos o fio à meada.
A.
…
…
Stop.
…
Éme.
Again?
Again!
Moçambique.
Again?
Again!
Carlos Queiroz, só pode. Outra figura maiúscula do nosso contentamento. É ele quem cria as bases revolucionárias no futebol português e o seu nome vai muito muito muito além dos dois títulos de campeão mundial sub20, em 1989 (Riade) e 1991 (Lisboa).
Os anos passam, vira-se o século e Queiroz continua na crista da onda, com a quinta fase final da sua carreira. O homem começa em 2010 (Portugal) e vai ao ritmo do ‘no pares, sigue sigue, no pares’ em 2014, 2018 e 2022, sempre pelo Irão. Agora, em 2026, pelo Gana. Onde é o jogo de hoje? Toronto, sem Metro-Croatia (embora a Croácia esteja no seu grupo, juntamente com a Inglaterra).
As voltas da vida, incrível.
Carlos Queiroz, pois é. Herói nacional, (ainda) sem estátua. Conheço-o desde sempre, como o Herman José, por exemplo, através da televisão. O primeiro contacto a sério é no Irão, em Outubro 2013. Aliás, em Julho 1392. Hããã? É isso mesmo, entrámos num filme de outro tempo (calendário islâmico). O local é Teerão, o portal é o aeroporto Imam Khomeini, onde desembarcam os passageiros de Istambul após uma viagem de três horas e meia, depois de outras quatro e meia desde Lisboa.
No meio de uma paisagem árida, eis o aeroporto internacional de Teerão – há um outro no centro da cidade, só para voos domésticos. Lá dentro, é um centro comercial moderno, equipado com cafés, lojas de roupa e livrarias. No placar electrónico, há a tendência para franzirmos a testa e ficarmos com os olhos mais rasgados que nunca a tentar perceber o que é aquilo: as letras andam em rodapé da esquerda para a direita, ao contrário do que estamos habituados, e não há como entender uma única coisa. É impossível, pura e simplesmente.
O abecedário é outro. Até os números são diferentes. O zero é simplesmente um ponto (fácil), o 1 é um traço (facílimo), o 2 é um y ao con trário (hey, isto é canja), o 3 é um w apoia do por um traço na extremidade da esquer da (piece of cake), o 4 é um M de lado (estão a ver?), o 5 tanto pode ser um cora ção ao contrário como um triângulo arrendondado (registado), o 6 é um tra ço recto ligado a outro como se fosse um 7 (anotado), o 7 é um V (que engraçado), o 8 é um V ao contrário (eheheheh, isto é divertido) e o 9 é um 9 sem a perna (olha olha).
Decorado? Siiiiiiiiim. De repente, não, claro que não. O quadro muda de página e apresenta outros voos com outros horários e números diferentes, tchau lógica. Concentremo-nos na passagem para o lado de lá. Há duas filas, uma para iranianos, outra para estrangeiros. Como é que sabemos isso? Porque uma diz iranian e a outra foreign. Ufff... As cinco pessoas à minha frente são despachadas com um carimbo em menos de dois minutos.
Quando avanço para o guichet, o passaporte é visto e revisto. O jovem sentado num cubículo envidraçado com um computador à frente e a apontar-nos uma mini câmara faz um esforço para dizer Rui. Sem sorriso. Pergunta por Portugal. “Ainda bem que fala disso” e sacamos da mochila uma fotografia de Carlos Queiroz com uma mini taça do mundo na mão, publicada aquando da vitória do Irão na Coreia do Sul no dia da qualificação directa para o Mundial-2014. O jovem olha para a fotografia a preto e branco, abre o sorriso e carimba-nos o passaporte enquanto diz o nome do herói. Afinal uma fotografia não vale mil palavras, bastam duas: Carlos Queiroz.
Só volto a ver Queiroz na Rússia, quatro anos e meio depois, no Mundial-2018. O cenário é espantoso, só vos digo. Noites brancas. É um fenómeno. Noites em branco. Também o é. Em São Petersburgo, o sol deita-se às 22-e-tal e levanta-se às três-e-pouco. Nesse hiato temporal, nunca está verdadeiramente escuro, escuro, escuro – se é que me faço entender. È mais aquele céu azul pérsia, a atirar para o cobalto. O que dá azo a noitadas (que ironia) de arromba. O clima do Mundial ajuda à festa, os acontecimentos sucedem-se uns atrás dos outros como se não houvesse amanhã.
A acção começa cedo e o tenrinho que há em mim leva-me a ignorar os avisos para apanhar um metro ou o shuttle da FIFA rumo ao estádio do Zenit, onde jogam Marrocos e Irão para o grupo de Portugal. Nã, vou mas é de táxi. À lorde. O restaurante onde as pessoas me falham como as notas de mil (rublos), pela demora em ligar a televisão para o visionamento do jogo de abertura, dá-me um uber. Mais barato e cómodo. O condutor é soviético (aqui é assim, há os soviéticos-old school, e há os russos-boa onda) e guia com uma bola de voleibol entre as pernas sem esboçar um sorriso nem soletrar um cirílico sequer. Quando se apercebe do perímetro cortado a oito quilómetros do estádio, cruza as mãos umas quantas vezes e abre-me a porta como quem diz out. E é out mesmo.
Resta-me enfrentar os senhores da polícia a marcar o início do perímetro. Russos ou soviéticos, eis a questão? De repente, um carro pára ao nosso lado, à espera da autorização para ultrapassar as barreiras em forma de pinos multicolores. O homem lá de dentro indica aos três polícias o papel no tablier a dizer FIFA. É que nem penso duas vezes e apresento-lhe o cartão de press antes de pedir ajuda para uma boleia. Ele olha à russo, sorri à soviético e abre-me a porta. Eeeeep eeeep uraaaaayyyy, a caminho do estádio. Durante os oito quilómetros, só uma pergunta: where? Respondo-lhe Portugal. Atira-me Ronaldo, animado. Já é um clássico.
Com bilhete de adepto, aterro no meio dos adeptos iranianos, mesmo atrás do banco de Queiroz. Os noventa minutos seguintes entram directamente para o primeiro lugar do top dos jogos mais inverossímeis. E já tenho alguns, como Vila Fria-Atlético dos Arcos num pelado em 2017 ou Portugal-França do Euro-2016. Nada feito, o Marrocos-Irão é rei e senhor de qualquer estatística. Para já, há milhares de iranianos no estádio. Milhares. Dizem que é o primeiro jogo em Mundiais com maioria iraniana. Gostaria de confirmar, só que não pude ir ao Mundial-78 na Argentina para falar com propriedade. Acredito, vá.
E o que fazem esses adeptos? Tudo, tudo, tudo, menos ver o jogo quietos e sossegados. È uma algazarra completa. Ou filmam o jogo todo através de telemóveis e iPads ou fazem coreografias de costas para o relvado ou falam pelos cotovelos para o lado. É rara a pessoa daquele sector A105 da gate 1 totalmente concentrado na bola. Chega o intervalo e é o fim da picada. Então? Entããããããão? Um senhor de certa idade, com barba branca, óculos escuros e panamá de palha, senta-se e desata a loucura. Durante os primeiros 20 minutos da segunda parte, todos os adeptos estão de volta dele a filmá-lo, a tocar-lhe, a juntar as máos em forma de agradecimento e a atirar-lhe gatafunhos persas em forma de elogios. Quem é o homem? Ebi, o mais icónico cantor do mundo persa. O bom do Ebi está impávio e sereno, só sorri com tantas solicitações. Ali por volta dos 65/70 minutos, Ebi tem finalmente mais espaço para respirar. E ver o jogo, já agora. Quando o Irão marca no último minuto de descontos, até o estádio abana (sort of speak). É um autogolo, mas who cares? O que interessa é a vitória do Irão. E a segunda de Queiroz em Mundiais, após os sete-secos de Portugal à Coreia do Norte em 2010. É hoje, a terceira? O Panamá (também) tem a palavra.
