Espanha ou Argentina? ¡Dios mío!, uma ganha à Cruijff, a outra de faca nos dentes

19 jul, 08:00
ESTADOS UNIDOS - 16 DE JULHO: (NOTA DO EDITOR: Esta imagem, criada a 16 de julho, é uma composição digital resultante do recorte das imagens com os números 2280945202, 2280945611, 2280945773, 2280945722, 2281268567, 2281268725, 2281268671 e 2281268507.) Nesta ilustração fotográfica, (da esquerda para a direita) Rodri, Alex Baena, Lamine Yamal e Unai Simon, da Espanha, e Emiliano Martínez, Lionel Messi, Julián Álvarez e Enzo Fernández, da Argentina, antes da final do Campeonato do Mundo da FIFA de 2026 entre a Espanha e a Argentina, a realizar-se a 16 de julho de 2026, nos Estados Unidos. O jogo será disputado no Estádio de Nova Iorque/Nova Jérsia, a 19 de julho de 2026. (Foto: FIFA/FIFA via Getty Images)
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"Uyyyyyyyyy, difícil", responde Rui Miguel Tovar, que realça que Espanha nunca se viu em desvantagem neste Mundial e a Argentina já virou jogos como heróis. No dia da final, um texto com música, dança e sorrisos

A minha filha Ema faz muito isto, o de perguntar e, nem um segundo depois, responder com a mesma palavra. Estilo, laranjas? Laranjas! Parque infantil? Parque infantil!

Agora vou tentar eu.

Perguntas estranhas?
Perguntas estranhas!

Porque é que as zebras têm listas pretas e brancas? Porque é que o mar é salgado? Porque cintilam as estrelas? Porque é que os vulcões entram em erupção? Porque é que há aberturas de telejornal a falar do frio em Janeiro na Serra da Estrela? Porque é que já não há McFish no McDonald’s?

Mitos urbanos?
Mitos urbanos!

Os esgotos são habitados por crocodilos, as sanduíches do McDonald’s são feitas de carne de minhoca, Elvis Presley vive numa comunidade extraterrestre, Paul McCartney está morto desde 1996 e é um sósia no seu lugar, a Coca Cola corrói os dentes mais o estômago.

Mais perguntas?
Mais perguntas!

É normal sentirmo-nos surpreendidos com os nossos amigos em amena cavaqueira durante o velório do teu pai?

Mais mitos?
Mais mitos!

O choro num velório é crucial.

O meu primeiro funeral é n’ A Testemunha, com Harrison Ford (polícia, John Book) e Kelly McGilis (viúva amish, Rachel). A cena propriamente dita também inclui, assim de fugida, um tal Viggo Mortensen (amish, não me lembro do seu nome no filme). A música de Maurice Jarre não me aquece nem me arrefece, naquela altura do visionamento, no cinema Apolo 70, em 1985. Aquece-me, isso sim, é em 2014, quando o táxi deixa-me na Igreja de São João de Deus, na Avenida da… Igreja.

Nunca fui lá abaixo para ver o meu pai no caixão, fiquei sempre cá em cima, ao sol. E lembrei-me muitas vezes do que ele me disse um dia, a ver o Duplo Risco, com Tommy Lee Jones e Ashley Judd, a propósito de uma cena de funeral, muito en passant, em Nova Orleães. ‘É assim que devemos despedirmo-nos das pessoas, com música, dança e sorrisos.’ Aquilo mexe comigo. Em 2014, digo. Porque ora estou devastado e não sei de que terra sou (só dez anos depois é que alguém me diz ‘então não te lembras, ó urso, dei-te boleia do aeroporto para casa e depois daí para a igreja!’ e julgava eu que tinha ido de táxi) ora ganho forças nas canetas e penso em música, dança e sorrisos.

Uma cena há inaudita, e libertadora. É no dia da cremação. Estou sentado num banco, ao ar livre. O sentimento é de revolta. Nem é uma questão de me terem puxado o tapete. É mais isto, o tapete, pura e simplesmente, desapareceu para sempre. E nunca torna-se a palavra mais metálica da minha vida. Estou assim nestes preparos, quando alguém me diz ‘Rui Miguel, está ali a Catarina Furtado’. Para se dirigir a mim como Rui Miguel, diria Luís Leal Miranda, o verdadeiro artista da escrita. Continuo sentado. Ele insiste, ‘anda, vou contigo.’ No dia anterior, o mesmo Luís já insistira junto de mim para sair daquela movida da igreja com um convite para um café na Mexicana, ali à frente.

Levanto-me, claro. E dirijo-me à Catarina. Eu e todo um mundo de curiosos, uns até a correr de contentamento. É giro até porque se torna engraçado, diria o meu pai. E bem, porque é mesmo giro e engraçado. Só a sua presença, como amiga da minha mãe, desanuvia o ambiente. Quando começamos a falar, já não sei sobre o quê, vem-me à baila Nova Orleães.

Os anos passam devagar devagarinho, a palavra nunca continua a martelar-me e só vejo a Catarina mais duas vezes, ambas na Gulbenkian. Primeiro é uma entrevista para o jornal i, em 2015, depois é um encontro casual, em 2017, durante o intervalo de uma acção do Corações Com Coroa, instituição da qual Catarina é fundadora e presidente. Há um sorriso entre nós, eu a dar de fuga para a rua, a Catarina no meio de uma série de engravatados a segurar o copo de sumo de laranja e o croquete adormecido num guardanapo. Quando chego a casa, depois de ter ido ver “Juste la Fin de Monde”, com Lea Seydoux e Vicent Cassell, no Monumental, recebo um e-mail da embaixadora das Nações Unidas. ‘Querido RUI, foi tão feliz o sorriso que trocámos! Fiquei mesmo contente por teres ido. Um xi grande’.

Posto isto, volto à dinâmica da Ema.

Perguntas?
Perguntas!

Qual o meu pequeno-almoço mais frequente de sempre? Nestum com mel (um dia, provo com figos e nunca mais; num outro, experimento chocapic e vomito).

Qual o primeiro carro da minha vida? Austin, castanho (descemos os três do 2.º F para a rua, a ideia é dar uma volta e aquilo não pega; como se fosse pouco, a bomba de gasolina mesmo à nossa frente, uma azul e vermelha… Mobil, será?... está fechada; voltámos para casa num piscar de olhos)

Qual a minha primeira tarefa de casa? Deitar o lixo por uma conduta serpenteante e malcheirosa.

Qual a minha primeira receita? Bolo de bolacha, com manteiga e Marias, muitas Marias, cortesia Melita, vizinha do 2.º D.

Qual a matrícula de carro mais marcante da minha vida? OJ-14-56, Renault 5 GTR, vermelho.

Qual a viagem de avião com mais escalas num só dia? Lisboa-Paris (15B)-Munique (16B)-Zagreb (10D)-Sarajevo (dunno, só sei isto: we’re gonna need a bigger plane), 23 Maio 1997. (entre parêntesis, os meus lugares no avião)

Lamine Yamal e Lionel Messi. Fotos de Luis Robayo e Franck Fife / AFP via Getty Images

Estou por quem entre Espanha e Argentina? Uyyyyyyyyy, difícil. Espanha é aqui ao lado, Argentina é lá loooonge. O castelhano de Espanha é assim-assim, o da Argentina é poesia falada e cantada. A Espanha joga um futebol digno de Cruijff, o famoso tiki-taka, já bem loooonge da fúria, estilo de jogo muito ligado ao fascismo. A Argentina joga à Argentina, bruta a conquistar cada centímetro no relvado, manhosa a dividir as bolas e talentosa à procura da glória. A Espanha nunca se viu em desvantagem neste Mundial, a Argentina já meteu a faca nos dentes e, ¡dios mío, qué héroes!

Há também o factor Oyarzabal, goleador da Espanha deste Mundial, digno representante da Real Sociedad, o único clube com o qual me sentiria à vontade para me candidatar a presidente. Amo San Sebastian, é o meu sítio preferido fora de Portugal. Só que a Argentina... A Argentina é a Argentina, caraças.

O espanhol Mikel Oyarzabal comemora o primeiro golo da sua equipa no jogo dos oitavos de final entre Espanha e Áustria, em Inglewood, Califórnia, perto de Los Angeles, a 2 de julho de 2026. AP Photo/Jae C. Hong

E, para mim, há duas Argentinas. A primeira é a filha do goleador Matateu, curadora do museu do Belenenses, no Estádio do Restelo. Chama-se meeeeesmo Argentina. Entrevisto-a em 2017 e a amizade prevalece, a senhora tem 71 anos e respira bonomia. Resgato uma sequência de perguntas e respostas para enquadrar a cena.

Argentina, filha de Matateu, arquivo pessoal de Rui Miguel Tovar  

E porquê o seu nome Argentina?
Qual é o problema?

É invulgar.
Não é nada, há bastantes Argentinas, umas seis ou sete em Portugal. Pelo menos, é o que diz o meu BI. Nasci num dia de jogo, um domingo, 28 Novembro 1954.

Qual jogo?
Pois, é isso: Portugal-Argentina no Jamor. O meu pai estava a jogar e, ao intervalo, anunciaram o nascimento de uma menina, filha do Matateu.

Anunciaram?
Através dos altifalantes do estádio.

Uma menina sem nome, ainda?
Como ainda não havia ecografias, a dúvida era rapaz ou rapariga. Uma vez definido o sexo, passou-se à escolha do nome e o jornal A Bola sugeriu o nome de Argentina ao Matateu e ao meu padrinho, um senhor muito importante do Belenenses chamado Manuel Vacondeus. Sabe como é, publicidade e tal. O meu pai aceitou e fiz-me Argentina. Se jogássemos nesse dia com o Japão, ficava Japão.

Ainda bem que não foi Burquina Faso.
Ahahahahahahahah, valha-me Deus. Aí, mudava.

E a sua mãe concordou com o nome?
Sim, ia fazer o quê?

O futebolista Sebastião Fonseca, conhecido como Matateu (1927 - 2000), avançado da seleção nacional de futebol de Portugal, durante um treino antes de um jogo do Grupo 6 do Campeonato do Mundo da FIFA contra a Inglaterra, em outubro de 1961. Foto: Evening Standard/Hulton Archive/Getty Images

E o Matateu queria uma rapariga?
Nãããão, queria um rapaz. Claro. Já reparou que os grandes jogadores nascidos em Lourenço Marques só tiveram meninas: uma para Matateu, uma para o Mário Wilson, duas para o Eusébio e mais duas para o Coluna.

Beeeeem, que coincidência. O que se lembra do Matateu?
Acompanhou-me sempre, ia buscar-me ao colégio.

Argentina, que maravilha. A filha da oitava maravilha. Isso mesmo, Matateu é alcunhado de oitava maravilha em Maio 1955, quando a Inglaterra perde pela primeira vez com Portugal (3:1 no Jamor) e o enviado-especial do Daily Sketch, um tablóide de Manchester, descreve Matateu da seguinte forma: “Um negro sempre sorridente, de Moçambique, é, esta noite, o rei do futebol português, Em Moçambique foi-lhe dado o nome de Lucas, mas há muito tempo que já ninguém se preocupa com isso. Passaram-lhe a chamar Matateu – um cognome que significa oitava maravilha do mundo – desde que começou a driblar como um mago e a chutar como um canhão. Fomos derrotados por essa oitava maravilha do futebol que rebaixou e humilhou uma Inglaterra destroçada e inebriada. E não há justificação porque, com exceção do maravilhoso Matateu, o grupo português é uma equipa de passeantes, com apenas uma vitória nos últimos 19 jogos.”

Argentina, pessoa. Check. Venha de lá a outra Argentina, país.

Passo lá um mês inteiro em Julho 2011 e sinto-me em casa desde o primeiro instante, quando um pássaro faz poop no meu casaco. O som do choque frontal do cocó branco com o verde tropa do meu kispo é audível. Idem idem para o som da gargalhada rouca do dono do quiosque de esquina em Puerto Madero. No quadradinho seguinte, o dito cujo diz-me com o ar mais sabedor do mundo ‘é sinal de sorte’. E é mesmo.

Nesse mês, entrevisto Messi mais Menotti mais Bilardo e falo com Maradona, à porta do hospital onde a sua mãe Dona Tota está internada. Sem esquecer as constantes good vibrations. Cidade curiosa esta, Buenos Aires. Quase não se vêem pessoas a fumar na rua. Daí que não abundem os sinais de proibição em restaurantes, bares ou cafés. Há fumo, sim, mas não vem do cigarro. Reparo na cuia (espécie de copo), com uma bomba (espécie de palhinha). Lá dentro, uma nuvem de fumo (lá está, nós avisámos). É água a ferver com erva. É o mate, a bebida oficial da Argentina.

Nas ruas mais movimentadas da capital, é raro ver alguém com mate na mão, porque a esmagadora maioria das pessoas são turistas. Se formos para outras paragens, mais recatadas, é comum observar-se uma família inteira de quatro/cinco pessoas, dos mais velhos aos mais novos, a partilhar uma cuia. Parados ou em andamento. E sempre acompanhados de um termo para manter a água quente.

País estranho este, a Argentina. Longe de ser uma força no mundo do cinema, como Hollywood (EUA), Bollywood (Índia) ou Nollywood (Nigéria), os três grandes da indústria, o entusiasmo das pessoas pelas estreias dos filmes é assustadoramente mágico. Tomemos como exemplo o caso de Harry Potter. Num sábado, antes da estreia, cinco mil mágicos, de varinha mágica em punho e de capa negra às costas, saíram à rua para uma manifestação pacífica!! Passou-se domingo, segunda, terça, quarta, quinta e chegámos à sexta. O dia mágico. Qualquer coisa como 548.942 espectadores invadiram as salas para o novo Harry Potter, o último da saga. Não só é a melhor receita do ano (destrona Piratas do Caribe, com 501.663) como de sempre (à frente de Os Simpsons, com 531.024).

Continente enorme este, a América. Há o Norte, o Centro e o Sul. Ao todo, são 35 países que ocupam 8,3 por cento da superfície total do planeta e 13,5% da população mundial. De Los Angeles a Buenos Aires, por exemplo, é quase o mesmo tempo de avião que de Lisboa a Los Angeles! E porquê de Los Angeles para Buenos Aires? Porque é a viagem mais comum de Viggo Mortensen. E porquê o Viggo Mortensen? Porque o actor está cá em Buenos Aires, a filmar “Todos Tenemos un Plan”, numa produção da Haddock Films.

Estou em Buenos Aires e Viggo Mortensen também. Curioso. E essa curiosidade leva-me a um sítio estranho, numa caminhada enorme. O primeiro passo é telefonar para a Haddock Films. Qual não é o nosso espanto quando me atendem ao primeiro toque e dão-me o contacto da Raquel, a senhora que trata de reencaminhar a imprensa para o set do filme. Qual não é o meu espanto (desculpem, estou mal habituado aos assessores de imprensa do futebol que me colocam obstáculos a cada telefonema... se os atendem) quando a Raquel me responde à primeira. Ouço uma nega, porque “só há quatro jornais, dois nacionais e outros dois internacionais, com acesso ao set até ao fim das filmagens”. E uma sugestão. “Mas porque é que não vai lá para conhecer o local? É uma viagem inspiradora!” Se a Raquel diz...

E o set é onde? Dique Luján, uma minúscula vila argentina a 50 quilómetros a norte de Buenos Aires. Mas são 50 km trabalhados. Por mais de duas horas, estou sentado num táxi. O senhor, com um galhardete enorme do San Lorenzo no retrovisor, fala-me da descida do histórico River Plate à 2.ª divisão nacional com um entusiasmo desmedido. Às vezes, larga o volante e gesticula energeticamente. Uma mão lá fora, ao sabor do vento, e a outra cá dentro, perto da minha cara. Até que passamos pelo “caminho da via morta”, uma estrada estreita a perder de vista, com árvores de um lado e do outro a tocarem-se lá no alto e a taparem a entrada dos raios solares. “Antes, isto aqui” explica-me o taxista, “não era uma estrada, era uma linha férrea, que ligava Dique Luján a Buenos Aires.”

De repente, paramos. Já chegámos? Não, ainda não. Agora temos de apanhar um bote rumo à ilha. Dique Luján está mesmo diante dos meus olhos e, ao mesmo tempo, tão longe. Há uma ponte levadiça mas o taxista não se quer aventurar por aí, diz que espera por mim naquele lado da margem o tempo necessário. A viagem de bote é rápida e chego à ilha onde se está a rodar o novo filme de Viggo Mortensen. À entrada da ilha, a tabuleta com o número de habitantes: 1.512. À medida que desbravo caminho, as pessoas perseguem-me com o olhar. É, estamos mesmo numa vila. Até os sons são diferentes. Um engraxador trabalha freneticamente com as duas mãos e o som do pano a puxar o lustro ao sapato parece o do R2 da Guerra das Estrelas. Aliás, o cenário não desdenha.

Páro à frente do set. Há alguma agitação, mas só vêem sombras. Que se transformam em astronautas. Sim, só vejo fatos brancos gigantes de um lado para o outro. Cena 1. Cena 2. Cena 3. Há algo que não está a sair bem. É aí que Viggo Mortensen sai do set. A beber mate! Com uma cuia do San Lorenzo!! Pintada de azul e vermelho, com o símbolo do clube. Viggo continua, pelos vistos, agarrado às origens. Ele que viveu na Argentina entre os três e os 11 anos, antes de ir para a Dinamarca.

Viggo Mortensen entre Soledad Villamil, à esquerda, e Sofia Gala, ambas atrizes argentinad, numa conferência de imprensa para anunciar o seu novo filme "Todos tenemos un plan", em Buenos Aires, Argentina, a 20 de maio de 2011. AP Photo/Eduardo Di Baia

Pela conversa do actor com alguém do staff, chego à conclusão de um aspecto importante: “aquilo” não são fatos de astronauta. Viggo Mortensen está “mascarado” de apicultor. “Elas [abelhas?] não saem. Está muito frio. Eles não vão sair”, diz com o ar mais calmo deste mundo. Senta-se num tronco de árvore e bebe mais mate. Sente-se vigiado. Olha para mim e abana a cabeça timidamente. Quero meter conversa, e como? Se fosse nos States, era fácil. What about those Yankees? (versão nova-iorquina), ou Dodgers (Los Angeles) ou Cubs (Chicago). É o que aprendemos com os filmes e séries. E lembramo-nos de... ‘y que pasa con San Lorenzo?”

Huuum, estamos tramados. Ele continua a beber o mate, olha-me de lado e pergunta-me em castelhano. “Eres del San Lorenzo?” Não, respondemos atabalhoadamente em português. À nossa frente, está o Aragorn. Impõe respeito. “Eres argentino?” Não, português. Pausa para silêncio (da nossa parte) e lábios em forma de peixe (para Viggo, a sugar mate). “Aaaah sim” e ri-se, mais descontraído, “são aqueles que não conseguiram ficar à nossa frente [da Dinamarca, na fase de apuramento para o Mundial-2010].”

Sim, é verdade, mas passámos num grupo com o Brasil, e vocês [eliminados na fase de grupos pelo Japão]? Aquilo sai-me sem pré-aviso. Até fico corado por dentro, caraças. Olhos semi-cerrados de Viggo, em tom de desafio. “Eres jornalista?” Ya ya, desportivo. “Ahhh, deportes? E o River Plate que desceu de divisão, já viste?” Vira o disco e toma o mesmo. Futebol. Se é para isso, fico a falar com o taxista... “Viste bem os incidentes no estádio e nas ruas no dia em que eles desceram de divisão? Que confusão. Pegaram fogo a caixotes do lixo! Partiram montras! Partiram carros! Que confusão. Não se parece nada com a Argentina, sabes? Há dois meses, fui ver o San Lorenzo ao campo do Tigre. Deram-me lugar na tribuna VIP mas quis ir para o meio dos adeptos. Foram 90 minutos sensacionais, se esquecermos a derrota. Tudo gente boa. Tiraram-me fotografias, dei autógrafos, falei com este e aquele, ‘todo bien’. Bem, vou voltar lá para dentro. Suerte.”

Quando chego a Portugal, de coração cheio por todas as experiências irrepetíveis, a minha mãe pergunta-me ‘então estiveste com o Viggo e não te lembraste de lhe pedir um autógrafo para mim?’. Eischhhhh, podes crer. O ídolo cinematográfico da minha mãe é o Viggo. E nunca me passou pela cabeça. ‘E nunca te passou pela cabeça, o autógrafo?’ Pergunta legítima da minha mãe, no aeroporto. ‘Mesmo, nunca te passou pela cabeça?’ Outra pergunta da minha mão, já a caminho de casa. Só me ocorre responder-lhe o seguinte ao exigente interrogatório: ‘Tá bem abelha.

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