Um sensor no interior da própria bola deteta cada toque, por mais pequeno que seja - neste caso detetou um toque minúsculo na cabeça - talvez até só na ponta do cabelo - de Pašalić, o que determinou o fora de jogo e a anulação do golo da Croácia e, por consequência, a vitória de Portugal
É uma das mais importantes decisões do VAR na história do Mundial, se não mesmo a mais importante. Seja como for, foi uma decisão que deixou a Croácia de coração partido e Portugal a agradecer à sua boa sorte.
Mas o que aconteceu exatamente no confronto de ontem à noite, nos 16 avos de final? E como é que a nova tecnologia incorporada na bola do Mundial ajudou a determinar o resultado? Vamos analisar tudo aqui.
Primeiro, quanto ao jogo em si. Portugal tinha acabado de marcar com um cabeceamento já nos descontos, colocando o resultado em 2-1 já nos momentos finais da partida. O golo de Gonçalo Ramos acabou por garantir a passagem da sua seleção para enfrentar a Espanha na próxima fase… mas não sem que antes houvesse ainda mais um drama.
À medida que o relógio ultrapassava o 103.º minuto do jogo - sim, leram bem -, os Vatreni pensaram que tinham marcado o golo do empate quando Joško Gvardiol empurrou a bola para dentro da linha de golo. Foi um momento que provocou euforia entre os jogadores e adeptos croatas e que deixou Portugal perplexo.
Mas, quando parecia que o jogo se encaminhava para o prolongamento, o árbitro indicou que o video-árbitro auxiliar (VAR) estava a analisar um possível fora de jogo na jogada que antecedeu o golo. Resumindo, o golo foi anulado por fora de jogo e a seleção portuguesa avançou para os oitavos-de-final. Mas a história não se ficou por aí.
Eis porque foi considerado fora de jogo
O golo foi anulado porque o croata Mario Pašalić se encontrava em posição de fora de jogo antes de passar a bola ao potencial marcador Gvardiol.
Pašalić tinha desviado a bola para a baliza depois de receber um cruzamento vindo da lateral. Quando esse cruzamento lhe foi dirigido, Pašalić estava claramente em posição válida.
Mas, no seu percurso até ele, a bola sofreu um ligeiríssimo toque do seu colega de equipa Igor Matanović. Esse minúsculo toque na cabeça dele – talvez até apenas na ponta do cabelo – fez com que Pašalić estivesse em fora de jogo e o golo fosse, corretamente, anulado.
Talvez tenham reparado que a bola também bateu num defesa português, mas esse toque foi irrelevante porque não foi intencional.
A FIFA não tardou a emitir um comunicado a explicar o que tinha acontecido, afirmando que houve um contacto "comprovado" por parte de Matanović, o que permitiu ao árbitro "determinar corretamente o fora de jogo".
O organismo regulador irá, sem dúvida, considerar isto uma grande vitória para a sua nova bola Trionda, que tem sido alvo de algumas críticas por se mover a uma velocidade anormalmente elevada.
"Os sensores IMU incorporados na bola Trionda são capazes de detetar qualquer contacto, mesmo que ligeiro, apresentado aos telespectadores na transmissão como um 'gráfico de batimento cardíaco', e proporcionam aos árbitros um nível de dados sem precedentes para tomarem decisões rápidas e precisas", explicou a FIFA.
Curiosamente, a NBA anunciou ontem que iria testar uma bola com um sensor incorporado durante as suas próximas ligas de verão.
Croácia continua furiosa
Apesar de ter sido tomada a decisão correta, o selecionador da Croácia, Zlatko Dalić, não ficou nada satisfeito, afirmando que o VAR tinha arruinado o espírito do jogo. Os adeptos croatas também atiraram garrafas para o campo, o que atrasou o reinício da partida.
"Isto mata as emoções. Mata tudo o que há dentro de ti", afirmou Dalić, segundo a TNT Sports. "Mata o que estás a viver e depois leva-te de volta ao início. Não é fácil lidar com tudo isto. O futebol deve ser justo, e as decisões também, mas já fomos longe demais com o VAR."
É seguro dizer que o treinador de Portugal, Roberto Martínez, tem uma opinião diferente. "A mensagem é muito clara", afirmou após o jogo. "As bolas agora têm um chip, e é muito claro que foi por isso que o VAR interveio. Não é uma opinião subjetiva."
Para grande frustração da Croácia, o ligeiro toque de Matanović mal se notava a olho nu. Em Campeonatos do Mundo anteriores, provavelmente teria sido considerado golo. Mas este ano, a FIFA implementou uma nova tecnologia.
Para simplificar, a tecnologia consiste na colocação de um sensor no interior da própria bola que deteta cada toque, por mais pequeno que seja. Em seguida, envia esses dados em tempo real para ajudar os responsáveis pelo VAR tomarem as decisões corretas. É semelhante à tecnologia que é comum em desportos como o críquete, mas que só recentemente foi introduzida no futebol.
Desta vez, Martínez tem razão. Mas isso não vai alegrar ninguém ligado à Croácia - nem os espectadores que criticam o excesso de tecnologia no "Jogo Bonito".
