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Afinal não deu Portugal. O país pifou outra vez

8 jul, 15:48
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O debate em torno da prestação da Seleção Nacional no Mundial de futebol deste ano é uma excelente metáfora do país. Em princípio, tínhamos todas as condições para sermos campeões. Só que não fomos. E não é por falta de vontade, de apoio ou de talento. É mesmo por falta de competência e de ambição. Basta ouvir Roberto Martínez ou os jogadores no final do jogo com Espanha. “Jogámos olhos nos olhos com uma das melhores seleções do mundo”, disse Martínez, orgulhoso, como se Portugal fosse uma equipa de terceira categoria. Até um dos nossos melhores jogadores de sempre, inspiração de tantas gerações, o CR7, veio com o discurso do “tivemos azar”, mas “saímos de consciência tranquila”. No fundo, é o eterno fado português do "jogámos como nunca, mas perdemos como sempre".  

O paralelo com a realidade nacional — política e económica — é incontornável. Contrariando a sua própria história, Portugal habituou-se a ser pequenino, a olhar de baixo para cima e a desculpar-se com o azar, quando o trabalho e a competência faltam. Não nos falta orgulho em sermos portugueses — isso não —, mas esse orgulho raramente vem acompanhado de ambição. Desejamos sempre o melhor e esperamos sempre o pior. Como se precisássemos de estar sempre preparados para nos desiludirmos.

Enquanto a seleção nacional andava pelas américas a fazer as suas exibições medíocres, e as televisões estavam entretidas no tiro ao Ronaldo, milhares de alunos que esperam concorrer este ano ao ensino superior batiam de frente com o país perseguido pelo “azar”. Na era da Inteligência Artificial e da robotização, o Estado Português achou — e bem — que talvez estivesse na altura de os exames do secundário serem corrigidos de forma digital. Não é ciência espacial, nem tampouco uma grande inovação. É apenas digitalizar as provas feitas pelos alunos e permitir que os professores as corrijam nos seus computadores, sem necessidade de andarem com pilhas de papel para a frente para trás. 

Em 2025, fez-se a experiência com o exame de Filosofia. E em 2026, o Governo decidiu avançar com toda a confiança. Mas correu mal. Os professores não tiveram acesso aos exames, ninguém sabe de quem é a responsabilidade e o ministro da Educação — que é dos mais competentes deste Governo, imaginem se não fosse —, já não consegue explicar o inexplicável. Que azar. Isto tinha tudo para correr bem. Só que não correu. Alunos e pais ficaram pendurados, sem saberem como vai ser o seu verão, mas, também, quem é que os mandou marcar férias para esta altura? Não sabem que estão em Portugal? Neste país, nada funciona à primeira. Até parece que é a primeira vez.  

No fundo, a ex-ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, é que resumiu bem isto: “O sistema pifou.” Na altura, referia-se ao controlo de passaportes no aeroporto de Lisboa. Mas, na realidade, o “sistema” é o próprio Estado. No caso dos aeroportos, foram meses e meses de filas intermináveis, com óbvios prejuízos para a economia do país e, sobretudo, para a sua reputação. Fomos notícia internacional por não conseguirmos colocar a funcionar umas máquinas que controlam passaportes e por também não termos um plano B. Nem C. Depois do dano provocado, o problema lá se foi resolvendo, com um novo ministro da tutela a meter ordem no caos que estava instalado. Mas o dano estava feito. 

Fossem os incêndios tão fáceis de resolver como o controlo de passaportes, e talvez ainda nos pudéssemos rir no final. Mas a verdade é que não é. Eis-nos chegados ao verão e às temperaturas extremas, com grande parte do território por limpar. As tempestades de janeiro só vieram agravar ainda mais um problema que já é antigo. O diagnóstico está feito, há muito: Portugal é um país com uma orografia difícil, onde a pequena propriedade impera, ninguém conhece o dono de muitos terrenos, outros são heranças indivisas e o Estado está proibido pela Constituição de entrar na propriedade privada para os limpar. Já toda a gente sabe disto há anos, mas eis-nos, mais uma vez, em plena época de incêndios a fazer diagnósticos, sem demonstrarmos a mínima capacidade para resolver problemas. 

O Estado pifou, e o pior é que está a arrastar toda a economia nacional. Desde logo, pela guilhotina fiscal e burocrática. Contribuintes e empresas gastam metade do ano a trabalhar para alimentar um monstro insaciável, que tudo engole e, de vez em quando, se há eleições à porta, regurgita umas migalhas. Mais uma vez, não falta diagnóstico, falta vontade política. 

O efeito de contágio no setor privado é evidente. A falta de mão de obra, pouco e muito qualificada, está a arrastar o país para a mediocridade nos serviços, na construção, na agricultura ou no turismo, só para citar alguns exemplos. Quem vive em Portugal está condenado a conviver com a incompetência e com a desresponsabilização. Quem paga, pouco ou muito, fica mal servido — e nem vale a pena queixar-se, porque, para inferno, já basta o que basta. Seja cliente ou consumidor, será sempre refém de uma economia deficitária em quase tudo, mas, sobretudo, em competência e qualidade. 

Por isso, o espírito com que a Seleção Nacional saiu dos Estados Unidos não pode surpreender ninguém. Foi azar. Em 2016, também parecíamos a equipa dos casados a jogar com os melhores da Europa e acabámos campeões. Desta vez, tivemos azar. Faltou-nos lá o Éder. O patinho feio que nos fez acreditar, por breves instantes, que, afinal, a sorte não se conquista. Pode mesmo cair do céu. É como o país. Com sorte, este Governo consegue passar os oitavos de final e aguentar-se no poder até ao fim. É esta a tática, não é?

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