A revogação da suspensão de Balogun abalou o futebol mundial, desencadeando novas especulações sobre a relação próxima entre Trump e o presidente da FIFA, Gianni Infantino
Durante 24 dias, o Mundial parecia ter conseguido um feito raro nos Estados Unidos em 2026: quase nada tinha a ver com Donald Trump.
Mas, numa reviravolta extraordinária, na sequência de um apelo do presidente, o craque e marcador dos EUA, Folarin Balogun, vai jogar na partida dos oitavos de final contra a Bélgica esta segunda-feira, apesar de ter sido expulso no jogo anterior e de ter recebido uma suspensão de um jogo.
"Obrigado à FIFA por fazer o que era certo e por reverter uma grande injustiça!", publicou o presidente no domingo, comemorando a vitória no Truth Social.
A revogação da suspensão de Balogun abalou o futebol mundial, desencadeando novas especulações sobre a relação próxima entre Trump e o presidente da FIFA, Gianni Infantino.
O facto de Trump ter discutido a suspensão numa chamada telefónica com Infantino e a decisão final da FIFA transformaram uma controvérsia sobre a arbitragem no futebol num incidente internacional em torno do evento desportivo mais popular do mundo.
O drama que se seguiu suscita preocupações quanto à interferência política e à integridade do torneio. Não importa necessariamente se a intervenção de Trump na questão foi decisiva. A simples impressão de que o foi corre o risco de prejudicar a perceção global de um evento que tinha gerado notícias notavelmente positivas.
A polémica é habitual nas finais do Mundial. Quem poderia esquecer o golo da "mão de Deus" de Diego Maradona pela Argentina em 1986 ou a cabeçada do astro francês Zinedine Zidane na final do Mundial de 2006?
Mas não há qualquer precedente conhecido de um líder político ter pressionado a FIFA sobre quem pode jogar num jogo, muito menos num jogo tão importante para as hipóteses de qualificação do país anfitrião.
A natureza hiperpartidária das claques de futebol significa que os adeptos norte-americanos provavelmente não se importarão com a forma como Balogu vai entrar em campo em Seattle esta segunda-feira.
No entanto, a Federação Real Belga de Futebol afirmou que as manobras antes do jogo violaram os regulamentos da FIFA e prejudicaram o fair play. O treinador da seleção nacional disse aos jornalistas que a federação agiria não para defender a honra nacional, mas para defender "o futebol em geral. Defender a sua integridade. Defender a sua ética."
E, para muitos adeptos de futebol fora dos EUA, uma vitória americana neste jogo virá acompanhada de um asterisco.
A intervenção de Trump irá suscitar suspeitas de interferência política
Isoladamente, há boas razões para pensar que Balogun foi injustiçado quando foi expulso durante a vitória sobre a Bósnia-Herzegovina na semana passada. Mas a decisão de Trump de se envolver introduz a possibilidade de que a suspensão da punição de Balogun possa não se basear apenas em critérios de justiça.
O árbitro não ordenou imediatamente a expulsão de Balogun, mas, depois de ver as imagens do incidente, decidiu que ele tinha cometido uma falta grave. À primeira vista, o choque com o defesa bósnio Tarik Muharemović parecia inofensivo. Mas, quando a jogada foi revista em câmara lenta, viu-se que o pé de Balogun arranhou a parte de trás da perna do adversário e torceu-lhe o tornozelo para uma posição horrível.
Muitos adeptos argumentaram que Balogun foi o mais recente jogador a ser prejudicado pelo sistema de videoárbitro do futebol e que não teve qualquer intenção de lesionar Muharemović. Muitas vezes, os choques entre jogadores parecem muito piores em câmara lenta. Nas gerações anteriores à inovação tecnológica, entradas como a de Balogun escapavam à arbitragem.
É possível concluir que Balogun teve azar, mas ao mesmo tempo considerar que a entrada merecia um cartão vermelho de acordo com as normas da FIFA. Vêem-se entradas semelhantes todas as semanas nas principais ligas profissionais europeias, que também resultam em expulsões. Por outro lado, é difícil compreender por que razão Balogun foi expulso, mas Lionel Messi saiu impune de uma entrada semelhante no primeiro jogo da Argentina.
Mas a resposta da FIFA ao incidente e a decisão de Trump de se envolver estão a suscitar preocupações.
Após o jogo, a FIFA deixou claro que a seleção dos EUA não tinha qualquer possibilidade de recorrer da suspensão e que Balogun não estaria disponível para jogar em Seattle na segunda-feira. Este foi um enorme golpe para os americanos, uma vez que o avançado do Mónaco é o melhor marcador da equipa.
O anúncio da FIFA, no domingo, sobre a revogação da suspensão deu muito poucas explicações sobre os motivos que levaram a esta decisão, alimentando as críticas de que foi aberta uma exceção para a estrela norte-americana depois de Trump se ter queixado.
A comissão disciplinar da FIFA invocou o artigo 27.º do seu código, que permite a suspensão total ou parcial de uma medida disciplinar durante um derterminado período de competição. O cartão vermelho mantém-se em vigor e, caso Balogun cometa outra infração, a suspensão será restabelecida, juntamente com eventuais novas sanções.
Não foi a primeira vez que a FIFA recorreu a esta cláusula. Antes disto, já tinha suscitado acusações de favoritismo em relação a um jogador muito popular quando permitiu que o português Cristiano Ronaldo jogasse nas fases preliminares da competição, apesar de este se encontrar suspenso devido a um cartão vermelho recebido num jogo de qualificação.
Trump nunca iria resistir aos holofotes do Mundial
Era quase inevitável que Trump encontrasse uma forma de intervir no Mundial, que comparou a vários Super Bowls simultâneos e que gera o tipo de atenção global à qual ele não consegue resistir.
No entanto, manteve-se em segundo plano durante os jogos das fases iniciais, parecendo mais concentrado nas comemorações do 250.º aniversário da Declaração de Independência - um evento no qual, segundo os críticos, também interveio de forma excessiva.
Mas o incidente com Balogun foi provavelmente demasiado tentador para Trump resistir. O presidente é um fã de desporto dedicado e conhecedor, e tem frequentemente utilizado o caldeirão do desporto para promover as suas batalhas políticas e culturais - ou como um fórum para exibir o seu próprio poder. No início deste ano, Trump comemorou o triunfo da seleção masculina de hóquei no gelo dos EUA contra o Canadá nos Jogos Olímpicos de Inverno como prova de que a América estava a "vencer novamente" sob a sua liderança, introduzindo uma nota partidária naquilo que tinha sido um momento nacional unificador.
E a carreira política de Trump mostra que ele dificilmente encara as regras como um obstáculo. Não importa como se ganha. O que conta é ganhar.
Uma fonte a par do assunto revelou à CNN no domingo que Trump falou com Infantino após o cartão vermelho a Balogun e lhe pediu para rever a decisão. Os dois têm mantido uma espécie de amizade íntima, e o apoio do presidente da FIFA parecia frequentemente um endosso político a um presidente extremamente controverso.
Infantino está frequentemente ao lado de Trump. Chegou mesmo a comparecer numa cimeira de paz sobre Gaza, no Egito, no ano passado. Após o comício de tomada de posse do segundo mandato de Trump, Infantino declarou no Instagram: "Juntos, vamos tornar não só a América grande novamente, mas também o mundo inteiro."
O presidente da FIFA é, há muito tempo, alvo de escrutínio político. Teve de responder por alegadas violações dos direitos humanos na construção de estádios no Catar antes da última fase final do Mundial, e pela decisão de atribuir a organização da fase final de 2034 à autoritária Arábia Saudita. Os críticos de Infantino ficaram ainda mais desconfortáveis quando ele atribuiu a Trump o primeiro Prémio da Paz da FIFA, depois de o presidente dos EUA não ter conseguido ganhar o Prémio Nobel da Paz.
Mas Infantino tem defendido que é fundamental que o presidente da FIFA mantenha laços cordiais com o líder do país anfitrião. A proximidade com a FIFA é especialmente notável porque o governo dos EUA - incluindo o FBI, o Departamento de Justiça e o IRS - foi fundamental para revelar o maior escândalo de corrupção da FIFA em 2015.
A polémica amizade de Trump e Infantino fará com que o drama em torno de Balogun se prolongue
Agora que o precedente foi estabelecido, quem pode garantir que outros líderes mundiais influentes não venham a pensar que podem obter uma vitória política ao pressionar a FIFA por causa de um incidente em campo?
E todas as jogadas controversas até ao final do Mundial vão agora ser alvo de um escrutínio rigoroso. Se a FIFA invocou os seus poderes vagos para suspender a exclusão de Balogun, não estará agora obrigada, por uma questão de honra, a fazer o mesmo por qualquer jogador de qualquer outra nação?
A situação de Balogun não foi a única notícia bombástica do Mundial no domingo, quando o Brasil foi eliminado da competição graças a dois golos do imponente avançado norueguês Erling Haaland.
Mas o alvoroço suscitado pela história de Trump e do melhor marcador dos EUA levantou o espetro prejudicial de que os acontecimentos fora do campo - assim como os que ocorrem dentro dele - possam alterar o destino do troféu dourado que o presidente deverá entregar daqui a duas semanas.
É uma pena para um torneio que, até aqui, proporcionava uma diversão bem-vinda face à política divisiva dos Estados Unidos.
