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O Mundial dele

12 jun, 07:30
Donald Trump e Gianni Infantino com a taça do Campeonatro do Mundo. O futebol é agora uma potência comercial com enorme influência na sociedade. Chip Somodevilla/Getty Images
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Os EUA quiseram ser bons anfitriões deste evento, de que precisam para reforçar o seu futebol. A liga nacional vale cerca de 260 milhões de dólares, contra os 23 mil milhões da liga de futebol americano

Em 1994, o futebol era, para os americanos, uma curiosidade. Um jogo dos latinos. Os Estados Unidos tinham os seus desportos consolidados: basquetebol, beisebol, hóquei no gelo e, claro, futebol americano; mas o futebol como o resto do mundo o conhece, não existia.

Mesmo assim, o Mundo confiou nos EUA e entregou-lhe o Mundial de 1994. Na cerimónia de abertura, em Chicago, o então presidente Bill Clinton, descreveu a devoção pelo futebol como "uma linguagem universal que nos une a todos (...) Aproveitemos esta oportunidade para apreciar a união entre os povos de todo o mundo que este desporto representa".

De Donald Trump, cuja ligação ao futebol vem do filho mais novo — um adepto do Arsenal e admirador de Ronaldo e Messi — não ouviremos mensagem igual. O discurso que fizer, se o fizer, será, provavelmente uma ode a si próprio, e à sua grandeza. Aliás, este é o seu Mundial.  Sugeriu que pode "aparecer" em dois ou três jogos. Já tem o Troféu do Campeonato do Mundo que lhe foi imerecidamente ofertado por Gianni Infantino, quando se apercebeu que Trump o cobiçava – a FIFA teve de encomendar outro. O mesmo Infantino, bajulador profissional, inventou o prémio FIFA da paz e atribuiu-o a Trump após a cerimónia do sorteiro do Mundial, como consolação pelas rejeições do Nobel.

Em oposição às tradições da competição, temos uma América chefiada por um narcisista, que se coloca a si próprio, e não aos atletas, no centro das atenções. Todos se recordam de como, após a entrega do troféu aos vencedores do Campeonato do Mundo de Clubes, no ano passado, Trump permaneceu no palco, num momento de absurdo desconforto, com os jogadores do Chelsea.

14 de julho de 2025. Donald Trump com jogadores do Chelsea. Foto Buda Mendes/Getty Images

Reconhecer a humanidade dos outros, sobretudo os diferentes, choca com a política trumpiana de imigração marcada por insultos (os tais “países de merda”) e o objectivo confesso de fechar as portas da América aos cidadãos de países “indesejáveis”.

Pessoas de 19 países de África, Caraíbas, Médio Oriente e Sudeste Asiático estão impedidas de viajar para os Estados Unidos devido a uma Ordem Executiva de Trump. Outros 20 países estão numa lista que impõe restrições severas. Em alguns casos, a emissão de um visto está sujeita ao pagamento de uma caução que pode chegar aos 15 mil dólares, inacessível à maioria. Os vistos de visitantes de fora da Europa requerem entrevista presencial cujo agendamento pode demorar um ano. 

Algumas consequências são sentidas directamente pelas selecções participantes. O avançado iraquiano Ayem Hussein foi detido e interrogado durante sete horas, no aeroporto de Chicago, e deportado. O fotógrafo da selecção do Iraque foi, na mesma instância, detido durante 10 horas e deportado. Ambos sem explicação. Um árbitro somali foi impedido de entrar no país. Todos eram portadores de vistos válidos.

Quatro países nas listas de indesejáveis (Irão, Haiti, Senegal, Costa do Marfim), participam no Mundial. Haitianos e iranianos não podem entrar nos EUA. Senegaleses e marfinenses estão severamente restringidos

No caso do Irão, complicado pela guerra, foram negados vistos a vários membros da delegação, e a FIFA cancelou os 8% de bilhetes que todas as federações recebem, por cada jogo, para distribuírem aos seus apoiantes. O Irão decidiu também estagiar e instalar-se no México, durante o Mundial, apesar de inicialmente estar previsto ficar no interior dos EUA.

O relacionamento de Trump com os co-anfitriões, Canadá e México, é tenso e desrespeitador. O presidente americano já ameaçou anexar o Canadá, porque sim, e invadir o México, para combater os cartéis da droga. Cancelou um acordo regional de comércio livre entre os três países, negociado pela sua primeira administração, adoptou políticas lesivas da cooperação económica com os países vizinhos e anda há meses a prometer uma guerra comercial.

Washington, 5 de dezembro de 2025. O presidente da FIFA, Gianni Infantino, tira uma selfie com o presidente norte-americano, Donald Trump, a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, e o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, durante o sorteio do Campeonato do Mundo de Futebol de 2026. AP Photo/Chris Carlson

Apesar disso, os responsáveis desportivos e dirigentes políticos uns níveis abaixo de Trump conseguiram a cooperação necessária entre os três os países para que o Mundial – apesar de Trump e não por causa dele – seja um sucesso.

O mesmo se passa com milhões de americanos, muito mais acolhedores de visitantes e adeptos de todo o Mundo do que quem, temporariamente, chefia o seu governo. Há esperança de um ambiente de festa nos estádios - se o ICE não aparecer à caça de imigrantes ilegais, criando um ambiente de medo e intimidação junto de quantos se encontrem em estádios e fan zones.

Os EUA quiseram ser bons anfitriões deste evento, de que precisam para reforçar o seu futebol. A liga nacional vale cerca de 260 milhões de dólares, contra os 23 mil milhões da liga de futebol americano. Quando receberam o Mundial, em 2018 estavam longe de imaginar que teriam um presidente que quer organizar um evento à escala planetária, mas sem o planeta.

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