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Jornalista. Diretor executivo CNN Portugal

"Doce é conquistar os próprios louros". De joelhos ante Rei Ronaldo - e como habitamos os sonhos uns dos outros

24 jun, 06:30
Cristiano Ronaldo, de Portugal, à esquerda, comemora após marcar o primeiro golo durante o jogo do Grupo K do Campeonato do Mundo de futebol entre Portugal e o Uzbequistão, em Houston, na terça-feira, 23 de junho de 2026. (AP Photo/Ashley Landis)
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OPINIÃO || Vitória contra o Uzbequistão é uma história bonita de Portugal - e de Cristiano Ronaldo na sua rota da sede

Há três tipos de amizade, ensinou Aristóteles: por utilidade, por prazer e por virtude. Qual deles sentimos por Ronaldo? Talvez a resposta dependa do dia e da hora, talvez ontem respondêssemos “utilidade” até às 18h00, “prazer” às 18:15 e “virtude” depois das 19h00. A variabilidade diz mais de nós do que dele. Ele foi o melhor em campo, ele marcou dois grandes golos, ele tem mais vidas que os seus sósias e mais mortes que Rasputine. E é entre estes dois filósofos, um ateniense iluminado e um russo louco, que nos dedicamos a este Portugal 5 – Uzbequistão 0.

Martinez leu a tática do Rui Miguel Tovar e pôs João Félix a jogar ao lado de Ronaldo, mas quem fez a diferença foi mesmo Ronaldo, Nuno Mendes, Bruno Fernandes e João Cancelo. Os jogadores entraram soltos como o arroz e a safra foi grande, golo aos seis, aos 17 e aos 39, estava a ser fácil, o Uzbequistão defendia-se franca e fracamente, fomos para intervalo com o rei na barriga, quer dizer, na barriga do rei, do rei Ronaldo que marcara o primeiro e o terceiro, iludindo toda a gente sobre quem marcaria o livre que deu o segundo, não foi ele, foi Nuno Mendes.

Ronaldo é o nosso psicodrama preferido, entre o temor dos nossos corações e o tremor das nossas terras, tratamo-lo com os pés quando falha e levamo-lo aos ombros quando acerta, bajulamos e basculamos, queremos substituí-lo, retirá-lo, reformá-lo, aposentá-lo, queremos prendê-lo numa casa dourada, tratamo-lo como se ele dependesse de nós e não soubesse sair da sua imortalidade, mas talvez sejamos nós que dependemos dele e não saibamos ficar na nossa mortalidade.

O mais bonito deste jogo não foi o bis de Ronaldo, foi ver esta força de quem durante uma semana foi desprezado, ultrajado, insultado, cuspido - e entra em jogo sem acossamento mas com espírito de missão, joga sem raiva mas com alegria, sai sem ressentimento mas com esperança. Cristiano nunca desiste de se superar e nunca se rende à fatalidade, ele é como Corto Maltese, a personagem da BD de Hugo Pratt que olhou para a mão, pegou numa navalha e com ela sulcou a linha da vida que queria, para assim criar o seu destino. Só que o marinheiro Corto Maltese é um anti-herói romântico, ao contrário do nosso capitão. Obrigado, Ronaldo, por (mais) este dia, mesmo se foi fácil a Portugal entrar por ali adentro. Muito fácil.

O Uzbequistão já foi conquistado por árabes, persas, macedónios, mongóis e russos, sacudindo-se de ser república soviética em 1991. Tanta invasão veio em parte do interesse na Rota da Seda, e por ali passaram grandes cãs mongóis, incluindo aquele a quem devem o nome os uzbeques, o Khan Usbek, mais um exemplar entre poderosos com mortes súbitas: controlava um dos maiores exércitos do mundo mas acabou morto pelo irmão, que se casou com a sua mulher. A realidade prepara a ficção: duzentos e tal anos depois, Shakespeare escreverá sobre o poderoso rei Hamlet, morto pelo canalha do irmão Cláudio, que logo apressa casamento com a viúva Gertrudes. No fim, acaba tudo morto.

A equipa do Uzbequistão tem craques, mas não se viu nenhum. O seu jogo foi seco como as estepes de um país encalacrado entre Turquemenistão, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Afeganistão, um país sem litoral mas com mar, o Mar Aral, um gigante lago de água salgada que quase secou por causa das plantações de algodão. Por ali andou também Alexandre, o Grande, um herói militar temível que nunca perdeu uma batalha, e em criança foi orientado por aquele senhor de lá de cima, Aristóteles. Por bem, foi Alexandre quem conquistou Samarcanda, essa sim cidade fértil e irrigada, e era aqui que queríamos chegar.

“A Casa Dourada de Samarcanda” é um dos mais belos livros de Hugo Pratt, e decorre precisamente aqui, nesta região, que Corto Maltese, um “apaixonado pela ideia de estar apaixonado”, calcorreia atrás de um fabuloso tesouro escondido nas montanhas. Ele chegará à Samarcanda descoberta por Alexandre, à Samarcanda uzbeque, à Samarcanda onde há uma “casa dourada”, que é na verdade uma prisão terrível, assim chamada porque dela só é possível fugir “através dos sonhos dourados do haxixe”. Nessa prisão está Rasputine, um mercenário siberiano, assassino impiedoso cuja juventude foi devorada por crimes, ele procura fugir daquele inferno “sem ser a dormir e a sonhar”.

Rasputine só tem pesadelos. E faz-se de convidado para os sonhos dos outros.

De quem é este nosso sonho de sermos campeões do mundo? É um sonho delirante (eu acredito no Rui Miguel Tovar, que acredita na ½ final), mas é ou não nosso, povo que oscila entre o êxtase e a paragem cardíaca? Será Ronaldo quem entrou no nosso sonho ou nós quem entrámos no dele?  

O Rasputine de Hugo Pratt é uma ficção, mas fisicamente é a cara e o corpo chapados desse outro já citado, o hipnótico e assustador Grigori Rasputine, o filósofo louco russo, fanático religioso que se proclamou santo e foi tão próximo dos Romanov que a sua morte anteciparia a queda da monarquia dos czares. Também a ele quiseram matar. Assassinar. Mas ele era tão má peste que caiu na armadilha sem morrer, primeiro envenenaram-no com bolos e vinhos ensopados de cianeto e ele não morreu, alvejaram-no e ele não morreu, ataram-no a uma cadeira e atiraram-no ao rio gelado e aí sim, ele morreu, não do veneno nem do tiro mas de frio, de hipotermia, foi preciso matá-lo três vezes seguidas para ele morrer uma.

"És o melhor dos assassinos”, escreverá Shakespeare, não em Hamlet mas na voz do aziago Macbeth. A frase será usada no poema “D. Juan” de Lorde Byron, Byron que é citado na primeira fala de Corto Maltese no livro. Se há dias terminei com o modernista T.S. Eliot, hoje ando para trás (no tempo) para o romântico Byron: “Eu quero um herói”, escreve em “D. Juan”. Neste jogo de Portugal contra o país de Samarcanda não houve batalha campal, pelo que a frase a citar não é a de que “a guerra é uma arte de espalhar miolos e cortar traqueias”. É outra: “Doce é conquistar, não importa como, os próprios louros, / Seja com sangue ou com tinta; doce é pôr fim à contenda”.

Quem está a sonhar no sonho de quem? Depois de um atentado com uma granada, o sábio imã diz a Corto Maltese: “Há muitas maneiras de morrer… esta é uma delas”. Há muitas maneiras de ver a carreira de Ronaldo morrer e esta é uma delas: devagar, a jogar, a marcar, a brilhar um pouco menos um pouco mais, a viver.

Istão é sufixo para “terra de”. Jogadores portugueses, agora sim, encontraram-se, Épraistocaquistão. Estamos de pazes feitas. Bons sonhos.

Cristiano Ronaldo cercado de colegas de equipa após marcar o primeiro contra o Uzbequistão. AP Photo/Karen Warren

 

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