Rui Miguel Tovar confessa o que nunca foi segredo: a sua admiração ilimitada pelo selecionador do Gana (ex-Colômbia, ex-Irão, ex-Egito, ex-África do Sul, ex-Emirados Árabes, ex-Portugal e futuro em todas estas seleções). Carlos Queiroz, who else? Quem o conhece de ginjeira, esboça um sorriso generoso: bicampeão mundial sub20, finalista da Taça Africana das Nações, cinco fases finais seguidas do Mundial e selecionador com mais vitórias na história: 142
São Petersburgo, 15 Junho 2018, antevéspera do jogo de abertura do grupo do Irão, vs. Marrocos. Lembro-me como se fosse ontem. Hall do hotel bem movimentado e barulhento, cheio de jogadores da selecção iraniana, alguns jornalistas e outros comuns mortais, separados por uma fina corda púrpura. Às tantas, abre-se a porta do elevador e aparece um descontraído Carlos Queiroz, com um pullover sobre os ombros. O capitão iraniano Masoud, número 7 e figura do AEK Atenas, dirige-lhe a palavra. "Mister, temos aqui as nossas famílias. O que acha de nos juntarmos na sala de reuniões?" Queiroz, pouco amigo do reboliço no hotel dos tais comuns mortais, aka família, nem pestaneja. "Masoud, a família agora somos nós."
Carlos Queiroz, who else? Quem o conhece de ginjeira, esboça um sorriso generoso. Bicampeão mundial sub20 por Portugal, finalista da Taça Africana das Nações pelo Egipto, cinco fases finais seguidas do Mundial e selecionador com mais vitórias na história (142), what else? Admiração ilimitada. Da minha parte, digo. Aos 73 anos de (boa) vida, o homem continua aí para as curvas e é o único treinador português das 48 selecções presentes no Mundial, ao serviço do Gana, apurado com uma jornada de antecedência no grupo L, o de Inglaterra, Croácia e Panamá, e adversário da Colômbia nos 16 avos-de-final.
O seu percurso à frente do Gana começa há dois meses, por incrível que pareça. A sua equipa técnica visiona e analisa mais de 200 compactos de vídeos individuais de jogadores e observa 170 jogos, 30 dos quais ao vivo e a cores por Carlos ou por elementos do staff. Numa primeira selecção, identificam-se 75 jogadores.
À medida que o tempo passa, o número reduz drasticamente. Tomam-se decisoes técnicas entre uma dor de cabeça ou outro e, depois, convive-se com más notícias de última hora, como as lesões dos defesas Salisu (Monaco) e Djiku (Spartak Moscovo) mais a do playmaker Kudus (Tottenham), sem esquecer ainda o caso do capitão Partey, acusado de sete acusações de violência doméstica e uma de agressão sexual, proibido de entrar no Canadá. Isto é, Partey só é titular se o Gana jogar nos EUA.
A estreia é no Canadá, 1:0 vs. Panamá. Segue-se o 0:0 vs. Inglaterra, nos EUA, com Partey no onze. A favorita Inglaterra só faz três remates à baliza, o primeiro dos quais aos 58 minutos. Nicky Butt, Roy Keane, Gary Neville e Paul Scholes comentam o jogo para a televisão e elogiam a capacidade defensiva do Gana. Ou melhor, de Queiroz. E recordam-se do seu ferrolho num outro 0:0, em Camp Nou, em 2008. É a primeira mão da ½ final da Liga dos Campeões e o Manchester United sobrevive ao Barcelona de Pep e Messi. Na segunda mão, 1:0 em Old Trafford. Na final, ouro sobre azul: vitória nos penáltis vs. Chelsea. O segredo de Carlos é a cultura da vitória, alicerçada no estilo never-say-die. A derrota vs. Croácia afasta-o do reencontro com Portugal, após aquele improvável 1:1 no Mundial-2018. Venha de lá a Colômbia, por ele treinada em 2019-20.
Nasce em Nampula e o seu pai Júlio é avançado do Ferroviário e faz dupla com Matateu. No quadradinho seguinte, Júlio faz-se treinador dos seniores do Ferroviário enquanto Carlos é guarda-redes dos juniores. “Disseram-me que era bom à baliza, mas acho que era alguém que queria um lugar lá à frente.” Mais a sério, o seu ídolo é Costa Pereira, figura imensa do Benfica, bicampeão europeu em 1962 (Queiroz tem então 12 anos) e primeiro guarda-redes a jogar fora da área no Brasil, daí a alcunha de ‘o goleiro do Maracanã’ – curiosamente, Fernando Santos é da colheita de 1954, um ano mais novo que Queiroz, e também tem Costa Pereira como referência maiúscula.
Naquele tempo em Nampula, admite o próprio Queiroz, “não havia discotecas”. Como tal, “o passatempo da minha geração era desporto sim, desporto sim, desporto sim”. Carlos cresce em Moçambique até torcar de continente em 1967, um ano após o terceiro lugar dos Magriços em Inglaterra. Já maior de idade, faz-se treinador pela primeira vez, ainda como estudante de segundo ano, no Colégio Americano. Daí para o Olivais (juniores). Depois, Belenenses (juniores). Finalmente, Estoril (seniores). Convida-o Mário Wilson, extraordinário comunicador e então treinador principal, para o cargo de adjunto-preparador físico. A primeira lição de vida é do capitão. Ei-la: “Aprende isto: um treinador nunca fica satisfeito, fica é aliviado.” Estamos em 1983-84, Queiroz tem 30 velas. Agora, 73.
Nesse parêntesis temporal de 43 anos, a sua presença nota-se. E recomenda-se. É ele quem revoluciona o futebol português, já dentro da Federação Portuguesa de Futebol, como seleccionador das camadas jovens. É inegável, por muitas voltas que se dê. Goste-se ou não da pessoa, do personagem nas conferências de imprensa, do treinador de campo: é ine-gá-vel. Vejam bem isto, senhoras e senhores: seis finais e duas ½ em oito fases finais de 1988 a 1991. Ah é verdade, e três títulos (Mundial sub20 em 1989, Euro sub18 em 1989 e Mundial sub20 em 1991). Se fizermos zoom aos jogos, 26 vitórias, 9 empates e quatro derrotas.
Mais significativo que os resultados, a força da coragem para mudar a mentalidade. Não há um jogador dessa geração, desde JVP até Rui Costa (e a escolha não é aleatória, tem a ver com os autores do primeiro e último golos, no Euro sub16 em 1988 e no Mundial sub20 em 1991), que não valorize a diferença. Antes, a saída de Portugal para um torneio no estrangeiro é equiparado a um pesadelo, a derrota é, por norma, um dado adquirido – paradigma, afinal, de um país cinzento, sem moral nem ambição. Com Queiroz, upa upa, a atitude é "vamos ganhar, a questão é saber por quantos". Insistimos, os Figos, Jorge Costas, Rui Bentos, Peixes ou Brassards desta vida jogam futebol como respiram e Portugal começa primeiro a ser visto e depois a ser referência. Mérito de Queiroz, bem acompanhado pelo companheiro de sempre, Nelo Vingada.
Acredite se quiser, o primeiro trabalho de Queiroz com uma selecção é em 1982. O Brasil de Telê Santana, esse mesmo!, estagia em Portugal antes de dar espectáculo no Mundial em Espanha e o trio Queiroz-Jesualdo Ferreira-Mirandela Costa aparece artilhado com cassetes Betamax no Jamor. A ideia é apresentar determinados conceitos de dois adversários dos brasileiros na fase de grupos. Ou seja, a equipa de Queiroz fizera corta-e-cola de jogadores, sistema e jogadas estudadas de Escócia e URSS. Diz Queiroz. "No fundo, prevenir e entrar em campo a saber algumas manhas do adversário." As reuniões técnicas fazem-se no hotel do Brasil, ali no Guincho, e Queiroz aprende uma lição valiosa sobre tecnologia. "Por mais eficientes e interessantes que possam ser, há sempre uma entidade superior no futebol: o pé do jogador."
Anos depois, muitos mesmo, já no século XXI, Queiroz recebe um recado da sua secretária do Manchester United a informá-lo que o brasileiro Sócrates, capitão desse Brasil colheita 1982, lhe ligara a pedir que traduzisse o que os jornais ingleses escreveram sobre a sua pessoa, a propósito da estreia do Doutor numa equipa dos distritais chamada Garforth Town. "O seu sonho sempre foi jogar em Inglaterra, e cumpriu-o aos 50 anos de idade."
Entre 1982 e 2004, Queiroz é notícia de primeira página como seleccionador de Portugal. Estamos em 1991 e o seu nome surge como substituto de Artur Jorge, a meio da qualificação para o Euro-92. "O desafio foi-me lançado pelo João Rodrigues, presidente da federação, mas não queria aceitar. Não achava oportuno, ainda por cima estávamos quase fora do Europeu. Ainda me lembro perfeitamente da reunião, num gabinete da Praça da Alegria. Disse de minha justiça ao João Rodrigues, ele ouviu e depois levantou-se. Pediu-me desculpa por uns minutos. Quando voltou ao gabinete, disse-me ‘acabei de anunciar à imprensa que o Carlos é o próximo seleccionador, agora é consigo: sai desta porta e fale com os jornalistas’. Saí e fui logo bombardeado com parabéns dos jornalistas."
O teste de fogo na qualificação é a Holanda, então campeã europeia em título. “Ganhámos à Finlândia e precisávamos de ganhar na Holanda. A Holanda dos três holandeses, passe a expressão. A Holanda de Rijkaard, Gullit e Van Basten. Ganharam-nos em Roterdão com um golo do Witschge num remate fora da área em que apanha o Baía em contrapé. Do que mais me lembro desse jogo é de Rijkaard e Van Basten terem ido cumprimentar o Peixe depois do jogo, a darem-lhe os parabéns pela exibição. O Peixe só tinha 19 anos. Acho que se estreou nesse jogo e tudo. Isso é uma memória muito forte. Somos eliminados e, ainda assim, as estrelas do futebol mundial dão-nos os parabéns.”
Segue-se o apuramento para o Mundial-94. Portugal faz bem o trabalho de casa e ganha três pontos em quatro à Suíça. O problema é que a Suíça ganha três à Itália e desequilibra o grupo. Itália e Suíça seguem em frente, Portugal fica novamente em casa. Essa fase de qualificação tem um jogo memorável, em Berna, onde Queiroz estreia Abel Xavier, jogador da 2.ª divisão. Pormenor, nunca um jogador da 2.ª chega à selecção portuguesa. Até aí. Abel é titular do Estrela e, a partir daí, vira fenómeno global, ao ponto de jogar com Beckham nos Los Angeles Galaxy.
Fala-se em aposta arriscada. Queiroz tem a palavra. “Conheço o Abel desde os 14 anos, sabia perfeitamente das suas capacidade físicas, técnicas e tácticas. Reconhecia-lhe valor desde o primeiro dia, quando chegou aos treinos da selecção de juvenis. A sua evolução foi meritória, foi campeão mundial sub20 em 1991 e era uma questão de tempo o salto para um grande. Acabou por ser o Benfica. Depois Itália, depois Alemanha, depois Inglaterra, nos dois grandes de Liverpool, depois Turquia. Enfim, o Abel tinha qualidades inatas. Era central de origem, adaptei-o a lateral. Ele faz esse jogo a lateral e é dele o cruzamento para o empate do Semedo.”
Já agora, essa qualificação tem outro jogo de eleição, o 5:0 vs. Escócia na Luz. “Tudo nos correu bem nessa noite. O trio da frente, Rui Barros, Futre e Cadete, jogou como nunca e foi o fim da carreira do Andy Roxburgh, de quem sou muito amigo há anos e anos. Nunca me perdoou.” A derrota em Milão, com golo em fora-de-jogo de Dino Baggio, afasta-nos dos EUA. E afasta Queiroz da federação.
Para trás, a transição gradual entre os campeões mundiais sub20 e os mais velhos, como Oceano, André, João Pinto, Rui Águas, Paneira. E para a frente? Sporting, como substituto de Bobby Robson, cobardemente despedido pelo presidente Sousa Cintra durante o voo Salsburgo-Lisboa. Como a vida é tramada e os adeptos implacáveis, é mais conhecido como o treinador do 6:3, o da substituição de Paulo Torres ao intervalo (quando já há 3:2, hat-trick de JVP), do que como vencedor da Taça de Portugal-1995 (bis de Iordanov, 2:0 vs. Marítimo).
EUA, o sonho americano. Queiroz assina por cinco anos e o objectivo é, essencialmente, a apresentação de um relatório sobre como o futebol yankee deve funcionar até se criar uma selecção competitiva para atacar o título mundial em 2010. Chama-se Q-Report e a principal recomendação de Queiroz é criar um campeonato sub19, com base no sucesso da selecção francesa, acabada de se sagrar campeã mundial numa mescla entre os veteranos (Deschamps, Desailly, Blanc, Djorkaeff) e os mais novos (Vieira, Henry, Trezeguet, Pires). Para Queiroz, cada clube da MLS teria obrigatoriamente de ter uma equipa sub19, com os jogadores a prescindirem da universidade (college) em prol do profissionalismo, uma ideia tirada da NHL, a liga norte-americana de hóquei no gelo.
O plano implicaria gastos na ordem de dois milhões de dólares por ano nos programas de formação, numa altura em que a MLS está em crise financeira. Sunil Gulati, director-geral da MLS, lê o projecto e duvida da sua viabilidade. “Sinceramente, não sei se abdicaria da sua educação na universidade se tivesse um filho com potencial para jogar futebol.” O projecto não avança, já Queiroz faz pela vida e chega ao mundo árabe, pela porta dos EAU, onde convive com uma realidade absurda aos olhos de hoje. “Devia ser o único treinador principal de Portugal a trabalhar fora do país e ainda não tínhamos um nome com força no panorama dos treinadores. As pessoas olhavam para nós como que a dizer ‘mas quem é um treinador português para trabalhar no mundo de treinadores brasileiros e franceses?’ Até o advogado da federação dos EAU me dizia ‘tu falas bem português, fala brasileiro’. Naquele tempo, Portugal era mesmo só Eusébio e Amália.”
A breve passagem pelo mundo árabe permite-lhe uma amizade com Carlos Alberto Parreira. Quando o brasileiro se instala em Los Gatos para a fase final do Mundial-94, conquistado pelo Brasil de Romário, o nome de Queiroz aparece na lista dos ilustres convidados para acompanhar a preparação. Que luxo. “Foi um privilégio imenso, maiúsculo. Eu ali no meio da futura selecção campeã mundial, com Romário, Bebeto, Dunga, até o Ronaldo fenómeno muito noviiiiiinho. Foi das coisas mais fechadas que vi, esse estágio. Foi de um rigor e disciplina impressionantes. Funcionava com um sistema de passes que tinhamos de assinar diariamente. Um dia, o Parreira esqueceu-se de assinar o meu passe e o segurança não me deixou passar. De todo. Tive de esperar pelo Parreira para dar início ao meu dia de trabalho. São experiências que nos enriquecem.”
Tal como a de África do Sul, em 2000. Ponto prévio: o objectivo é o apuramento para o Mundial-2002. A acontecer, seria inédito para aquele país. O que faz Queiroz? Faz história com agá maiúsculo, à conta de quatro vitórias e um empate – já depois de ter empatado na estreia com a França, campeã mundial e europeia em título (0:0 em Joanesburgo). Antes do tal Mundial, a Taça Africana das Nações. A Àfrica do Sul elimina Marrocos de Humberto Coelho na fase de grupos e, depois, cai vs. Mali nos ¼ final. Siga a marinha, ainda falta o Mundial. “Nós preparamo-nos para tudo: a lista de convocados, as viagens, os centros de estágios, os hotéis e essa logística toda. A mês e meio do Mundial, com tudo organizado por mim, um movimento menos agradável, muito pouco agradável mesmo, criou uma situação de ruptura dentro da federação. Acusaram-me de decisões racistas. Enfim, as grandezas e misérias do ser humano. Isso deu-me uma possibilidade, abriu-me a porta inesquecível.”
Como? Onde? Quem? Porquê?
É quem!
Nélson Mandela. “Ele interferiu e tentou pacificar, não queria que eu saísse da selecção. Chamou-me a casa dele, ouvi a sua mensagem, os seus desejos e recordo com muita clareza uma frase dele: ‘Eu não estive 27 anos na cadeia para me dizeres não a um sonho, não a um desejo, não a ver um africano branco e um africano negro na selecção sul-africana’. Ele sabia que eu tinha nascido em África, portanto a história do racismo ultrapassava todos os limites da decência.”
Qual foi então a história? “A pessoa que dirigiu esta campanha era dono de um clube e tinha em mente introduzir jogadores do seu clube na selecção para promovê-los e vendê-los. Conseguiu, dois dos seus três jogares transferiram-se. Eu recusei-me, ninguém de fora pode interferir assim no meu trabalho. E o trabalho em questão era a convocatória para o Mundial-2002. Não havia condições para continuar. E se nem o Mandela conseguiu pôr cobro à situação…”
Como isto da vida dá voltas e mais voltas, Queiroz volta a cruzar-se com Madiba em 2010, no Mundial em África do Sul, agora já como seleccionador de Portugal. É obrigatório passar a bola a António Simões, então um dos adjuntos. “No emparelhamento dos oitavos-de-final, calhou-nos o vencedor do grupo H. Foi a Espanha, campeã europeia em título e já derrotada pela Suíça na jornada de abertura desse Mundial. A equipa era treinada pelo Del Bosque, sucessor de Aragonés, e era dominada por jogadores do Barcelona, entre Puyol, Piqué, Xavi, Iniesta e Busquets. Também havia ilustres do Real Madrid, companheiros de equipa de Ronaldo, casos de Xabi Alonso, Casillas e Sergio Ramos. O cenário estava montado, a imprensa espanhola estava a adorar o dérbi ibérico.
Para libertar ansiedades e emoções a mil, Carlos Queiroz fez uma coisa inteligentíssima e marcou uma reunião de toda a comitiva com um senhor chamado François Pienaar. Quem? Pois é, só mesmo o Queiroz para sacar este truque de magia: o Pienaar tinha sido o capitão da selecção de râguebi da África do Sul, campeã mundial em 1995, numa época crucial na vida daquele país com o fim do Apartheid e a convocação das eleições presidenciais, com vitória de Nelson Mandela.
Ora bem, todo esse enquadramento de Mandela, Apartheid e Mundial de râguebi em 1995 foi o motivo para um filme de Clint Eastwood chamado Invictus, com Morgan Freeman a fazer de Nelson Mandela e Matt Damon de Pienaar. Sente-se claramente no filme a essência de um país dividido pela raça e pelo ódio, amenizado pelo calor humano de Mandela. É uma fita que nos faz eriçar os pelos, até porque, no campo desportivo, a África do Sul acaba por cometer uma surpresa maiúscula ao chegar à final e, depois, derrotar a favorita Nova Zelândia, após prolongamento, em Joanesburgo. Esse filme é de 2009, estamos em 2010. Quem o viu, sente-o. Quem não viu, vê-o. E é nesse contexto que a presença de Pienaar foi uma cartada bem jogada.
Nós já estávamos na Cidade do Cabo, onde íamos pernoitar para jogar com a Espanha no dia seguinte. A seguir à refeição, aparece o Pienaar. É devidamente apresentado e aplaudido. É grande [1,91 m] e largo [108 kg], como convém. E nunca se senta, o seu discurso de motivação é sempre feito de pé. Aquilo passou depressa, falou sobre a capacidade de superação, a capacidade de entrar em campo sem arrependimentos nem medos e a capacidade de pensar nas pessoas em Portugal a ver o jogo. Para rematar, disse só isto: ‘Têm de imaginar que vão ser campeões do mundo’. Foi um momento único, generoso e muito emotivo. Só que.
Só que o presidente da federação pediu a palavra logo a seguir e borrou a pintura. Autenticamente. Gilberto Madaíl levanta-se, faz o uso da palavra sem o dom da palavra e lá se foi a magia. No dia seguinte, Portugal perdeu com um golo de Villa e aconteceu mais um episódio inqualificável, quando Ronaldo passou pela zona mista e disse aquele ‘quer que eu explique? Fale com o Carlos Queiroz’.”
Pois é, as posições entre Ronaldo e Queiroz começam aqui a extremar-se e nunca mais voltam ao ponto de partida. Logo eles que forjam uma amizade desde a chegada de Cristiano a Old Trafford, em 2003. “Ainda hoje continuo a pensar que não era merecedor desse comentário, injusto, incorrecto e desadequado, principalmente vindo do Cristiano. Por muito que o queira fazer, o capitão da equipa não pode tomar aquela atitude. É minha obrigação estar um patamar acima dessas coisas. E quero guardar do Cristiano outras coisas, mais importantes e significativas: além da responsabilidade directa da forma como ele chega ao Manchester, trabalhei seis anos com aquele menino e fui quem o juntei com Alex Ferguson na minha casa em Lisboa para adiarmos por um ano a sua transferência para o Real Madrid.”
A saída de Portugal em 2010 é um tormento, mete tribunal europeu e tudo. Queiroz ganha a dupla batalha, vs. ADOP e FPF. “Num processo em que as mesmas pessoas que acusavam eram as mesmas que julgavam e condenavam, uma subtileza inacreditável numa sociedade que se diz moderna e democrática como a de Portugal, encontrei-me num beco sem saída, porque estava impedido de recorrer. Eu acuso-te, eu julgo-te, eu condeno-te e tem mais: não podes recorrer. Isso foi traumatizante.” A única saída possível foi o tribunal europeu. Sozinho, contra o mundo. Vitória por goleada.
Aparece então o Irão. “Quando lhe expliquei a situação da eventual suspensão, o presidente da federação só me disse: ‘nós esperamos por si três, quatro, cinco ou seis meses’. Face a uma atitude tão firme e confiante, aceitei o convite e foram oito anos à frente do Irão.” Oito anos entre 2011 e 2018 mais um, em 2022. Ao todo, três Mundiais e duas Taças da Ásia.
“Quando se chega a países desconhecidos, pensamos sempre que vamos ver Marte. Só que o Irão era um país como os outros: as mães levam os filhos à escola, os pais vão de carro para o trabalho, há gente educada, amável. O tempo de criança, em que dividíamos o mundo entre índios e caubóis, ficou muito lá para trás. E essa é a sorte de ter visitado dezenas de países: há sempre coisas boas e coisas más. No Irão, muitas coisas boas. Só o facto de alguns jogadores ainda me chamarem de Papá é do mais gratificante que há.” Por falar nisso, nove jogadores dos 26 do Irão deste Mundial-2026 são lançados por Queiroz – entre eles, o inimitável Taremi. É obra.
E da Colômbia? Quantos jogadores da Colômbia do Mundial-2026 há nesse registo? Quatro: Luis Suárez, Luis Díaz, Muñoz e Lucumi. Lançados por Queiroz na época 2019-20, quando a Colômbia comete a proeza de sair da Copa América sem qualquer golo sofrido nos ¼ final, eliminada pelo Chile, nos penáltis. Essa Colômbia é muito parecida com a de 2026. O capitão é o mesmo: James. “É uma selecção cheia de talento, com muita matéria-prima. O contacto com os líderes de balneário foi interessante, numa primeira fase do processo, que até foi promovida pelo [avançado] Falcao com uma reunião conjunta em Roma. Juntaram-se os emigrantes, digamos assim, e falámos todos juntos. Escutámos problemas e inquietudes para fazer um plano de acção no futuro imediato e também longínquo.”
Longínquo, podes crer. Seis anos depois, eis-nos a falar de um Queiroz vs. Colômbia em Kansas, onde Carlos joga pela primeira vez em Setembro 1996, pelo NY/NJ MetroStars, para a MLS. Acaba 2:2 e derrota no shoot-out por 3:1. O único penálti convertido pela equipa de Queiroz é de um italiano bom de bola: Roberto Donadoni. E o seu guarda-redes é Tony Meola, mais parecido com Tony Danza do ‘Chef mas pouco’. Queiroz é o contrário: ‘Chef mas muito’.
