FIO DE JOGO || A maior estrela do Mundial de 1966 nunca marcou um golo, nunca vestiu uma camisola e nunca entrou em campo. Chamava-se Pickles e, durante um passeio aparentemente banal, encontrou o objeto mais procurado do futebol mundial
Quando pensamos no Mundial de 1966, pensamos em Bobby Moore, no golo fantasma de Geoff Hurst ou em Eusébio, melhor marcador da competição. Dificilmente pensamos num rafeiro britânico. No entanto, poucos protagonistas tiveram um papel tão improvável - e tão decisivo - na história dos Campeonatos do Mundo como Pickles, o cão que encontrou a Taça Jules Rimet depois de esta ter desaparecido a pouco mais de três meses do arranque da competição.
Em março de 1966, faltavam pouco mais de três meses para a Inglaterra organizar, pela primeira vez, um Campeonato do Mundo. Entre os eventos previstos estava uma exposição de selos no Westminster Central Hall, em Londres. Mas no meio de milhares de peças para colecionadores, havia uma que captava todas as atenções: a Taça Jules Rimet, o troféu que todas as seleções sonhavam erguer em Wembley naquele verão.
Não era um troféu qualquer. Criada para o primeiro Campeonato do Mundo, em 1930, recebeu inicialmente o nome de "Victory". Só depois da Segunda Guerra Mundial passou a homenagear Jules Rimet, o presidente da FIFA que transformou em realidade a ideia de organizar um Mundial. A pequena estatueta dourada representava Niké, a deusa grega da vitória, e já tinha sobrevivido a um conflito mundial. Segundo se conta, durante a ocupação nazi de Itália, Ottorino Barassi, dirigente da Federação Italiana e vice-presidente da FIFA, retirou-a de um cofre bancário e escondeu-a numa caixa de sapatos debaixo da cama para impedir que fosse confiscada.
Parecia destinada a resistir a tudo, menos a um ladrão em Londres.
Na manhã de 20 de março, alguém entrou no Westminster Central Hall, ignorou coleções de selos avaliadas em milhões de libras e levou apenas um objeto: a Taça do Mundo. O roubo aconteceu enquanto, no piso inferior do edifício, estava a decorrer um encontro de cristãos protestantes. No dia seguinte, o The Guardian descrevia a ironia da situação: o troféu mais importante do futebol mundial tinha desaparecido "de um edifício no coração de Londres ocupado por mais de trezentos metodistas que cantavam hinos". Parecia o enredo de um romance policial.
Quando os funcionários regressaram à sala de exposição, a vitrina permanecia praticamente intacta. Não havia vidros partidos nem sinais evidentes de arrombamento. A taça simplesmente já não estava lá. A poucos meses do Campeonato do Mundo, a Inglaterra tinha perdido o símbolo máximo da competição que se preparava para organizar.
A polícia britânica assumiu imediatamente a investigação. Durante dias, seguiram pistas, verificaram denúncias e atenderam telefonemas de pessoas convencidas de que sabiam onde estava a Jules Rimet. Mas nenhuma informação os levou ao troféu e, a cada dia que passava, aumentava o embaraço. A FIFA temia um desastre de imagem.
A solução acabaria por surgir da forma mais improvável possível: durante o passeio de um cão chamado Pickles.
Era domingo, 27 de março. David Corbett, um carteiro de 26 anos, saiu de casa para passear o rafeiro e aproveitou para telefonar ao irmão, que estava prestes a ser pai. Quando regressava da cabine telefónica, reparou que Pickles tinha parado junto a um carro estacionado e farejava insistentemente um embrulho escondido debaixo de uma sebe.
O embrulho estava envolvido em folhas de jornal e o inglês receou que pudesse tratar-se de uma bomba. Ainda assim, decidiu espreitar. Bastou afastar um pouco o papel para ler algumas inscrições gravadas no metal.
"Uruguai, Brasil, Alemanha… Meu Deus, é a Taça do Mundo", recordaria anos mais tarde em entrevista ao Maisfutebol.
David correu para casa para contar à mulher, mas o entusiasmo não foi correspondido.
"Ela não percebia nada de futebol e não ligou nenhuma", contou, entre risos. "Por isso fiz a única coisa que podia fazer: fui à polícia."
Mas nem aí foi levado a sério. Os agentes da esquadra local olharam para o pequeno troféu com desconfiança e riram-se. A Jules Rimet era bastante mais pequena do que a maioria das pessoas imaginava e os polícias duvidaram que aquele pudesse ser o verdadeiro troféu do Campeonato do Mundo.
Só quando um detetive a examinou é que perceberam o que tinham diante deles. E em vez de receber um agradecimento, David foi levado para a sede da polícia metropolitana de Londres, e interrogado durante horas. Os investigadores queriam saber tudo: quem eram os pais, onde viviam os irmãos, o que faziam os tios. Durante algum tempo, tornou-se o principal suspeito do roubo.
No entanto, rapidamente ficou claro que nada tinha que ver com o caso. Quanto ao verdadeiro ladrão, esse nunca chegou a ser identificado.
Já Pickles, de um dia para o outro tornou-se uma celebridade. Recebeu um ano de comida gratuita, participou em exposições caninas, entrou num filme e tornou-se presença habitual em programas de televisão. A popularidade foi tal que, segundo David Corbertt, o cão chegou mesmo a "roubar" primeiras páginas ao então primeiro-ministro britânico, Harold Wilson, em plena campanha eleitoral.
Alguns meses depois, já com o Mundial terminado, David foi convidado para um jantar oficial da seleção inglesa e entrou no hotel com Pickles ao colo. Bobby Moore, Bobby Charlton e os restantes campeões do mundo fizeram questão de cumprimentar o herói de quatro patas.
A Jules Rimet também passou a ser tratada com outro cuidado. Temendo um novo roubo, a Federação Inglesa mandou fabricar uma réplica. Bobby Moore ergueu a taça verdadeira em Wembley, mas, pouco depois, um polícia trocou-a discretamente pela cópia durante os festejos.
E, afinal, foi uma precaução sensata. Em 1983, já na posse definitiva do Brasil, a Jules Rimet voltou a desaparecer. Tinha sido entregue aos brasileiros depois da conquista do terceiro título mundial e extava exposta na sede da Confederação Brasileira de Futebol, no Rio de Janeiro. Desta vez, nunca mais apareceu. Não houve nenhum Pickles para a encontrar.
