Aos 40 anos, o guarda-redes viveu o sonho de uma vida ao parar a campeã europeia Espanha com uma exibição monumental na estreia da seleção cabo-verdiana num Mundial
Há dois anos, no arranque da fase de qualificação para o Mundial 2026, Josimar Dias, vulgo Vozinha, dizia, numa entrevista ao site da FIFA, que tinha chegado «a vez» de Cabo Verde. O que ele não sabia é que a glória dos Tubarões Azuis seria também a sua, pela estreia épica na maior competição de futebol do planeta em que, Vozinha e a seleção, travaram a poderosa Espanha.
O guarda-redes cabo-verdiano teve de esperar 40 anos para viver o dia mais importante da sua vida, aquele em que ganhou um lugar na eternidade do seu país. E o mundo foi testemunha, premiando-o com o estatuto de figura pública nas redes sociais. Num par de horas, passou de cerca de 40 mil seguidores, contas do próprio, para mais de dois milhões! Para quem o valoriza, não é coisa pouca.
Mas quem é, afinal, Vozinha, o homem que travou Yamal e companhia e deixou boquiaberto o mundo da bola?
Natural de Mindelo, na ilha de São Vicente, o pequeno Josimar, que só não foi Valdano como o pai queria porque as autoridades locais não o permitiram, desde cedo mostrou queda pelas balizas. Sim, pequeno, porque os 1,90 metros de respeito que hoje exibe levaram o seu tempo a ganhar forma.
À FIFA, contou que a baixa estatura nos tempos de criança o levou a ser preterido em alguns clubes, até que veio a adolescência e com ela o grande pulo. Em todos sentidos. Josimar crescia a olhos vistos e, como o jeito para a baliza era evidente, não demorou a emancipar-se.
Foi também por essa altura que ganhou a alcunha que o acompanhou para o resto da vida. Criado pelos avós, ouvia os mais velhos chamarem-no de Vozinha sempre que voltava para casa chateado das “peladinhas” de rua que nunca se cansava de jogar.
A brincadeira deixava-o irritado, chegou a confessar, mas quando emigrou pela primeira vez, aos 25 anos, para jogar nos angolanos do Progresso do Sambizanga, viu-se perante um dilema. É que o clube já tinha um Josimar no plantel e o recém-chegado teve de decidir entre ser o Josimar II ou Vozinha, como já era então conhecido em Cabo Verde. Como não estava destinado a ser mais um, a decisão foi óbvia. E assim nascia um mito.
Hoje, é um dos capitães de Cabo Verde e uma figura respeitada no grupo liderado pelo não menos emblemático Bubista. Ter 40 anos (e 1,90 metros de altura) é coisa para ajudar a impor-se, mas Vozinha é muito mais do que isso.
É, sem discussão, um dos futebolistas mais amados no seu país. De tal forma que, quando pensou em retirar-se da seleção depois da eliminação de Cabo Verde nos quartos de final da CAN 2024 no desempate por penáltis frente à África do Sul, foi rapidamente dissuadido pelos companheiros de equipa, que só imaginavam ir ao Mundial se tivessem aquela Vozinha de comando na baliza.
De facto, ela fez-se ouvir em todas as fases finais para as quais Cabo Verde se apurou ao longo da sua história, um feito que só Ryan Mendes consegue igualar.
Vozinha voltou à seleção com uma confiança tal que, durante a qualificação para o Mundial, manteve a sua baliza a zeros em sete dos dez jogos disputados pelos Tubarões Azuis.
Sete foram também as defesas que fez, esta segunda-feira, frente à Espanha, algumas exibindo uma elasticidade tal que poucos acreditariam estar na presença de alguém com 40 anos. A idade é mesmo só um número.
A carreira de clubes, essa, foi mais modesta. O próprio Vozinha sente que, apesar de se dizer «satisfeito» com que ela lhe deu, tinha «capacidade e qualidade para ter jogado em ligas muito maiores».
Ficou-se pelos campeonatos “esquecidos” da Moldávia, de Chipre e da Eslováquia, sendo que em Portugal nunca se chegou a estrear na Liga. Disputou ainda assim a II Liga, primeiro no Gil Vicente, em 2016/2017, e nos últimos dois anos pelo Desp. Chaves, onde nem sequer foi um indiscutível. Na última época, por exemplo, dividiu a titularidade com o sérvio Marko Gudzulic, tendo disputado apenas 19 jogos.
Só que o futebol nem sempre é feito de histórias óbvias e lineares. E a de Vozinha merecia um capítulo de tal forma épico como o que viveu frente à Espanha, em Atlanta, que será transmitido de geração em geração.
Daqui a muitos anos, mesmo aqueles que se mostrarem incapazes de acertar à primeira no nome de cada neto, vão certamente contar-lhes que viram um guarda-redes de 40 anos voar para travar o campeão da Europa no primeiro Mundial em que o país participou. E ai deles se não acreditarem!
