CRÓNICA BRASIL 1 - MARROCOS 1 || Se Ancelotti tivesse assistido ao Brasil 70, esta estreia na Copa teria sido diferente. O Brasil batalhou contra o fuso horário europeu, entrou com sono e saiu pondo fim à diversão de quem ama o Mundial e ao sofrimento de quem ainda quer um hexacampeonato. Mas atenção a este Marrocos
O fuso horário às vezes é capaz de pregar peças engraçadas. Com a Copa do outro lado do mundo, a diferença entre o relógio local e o de Lisboa atrapalha e, quem sabe, até afasta os adeptos que gostariam de acompanhar todos os jogos, mesmo aqueles que começam quando os galos já cantaram, o Sol já nasceu e o café já está quase na mesa para mais um dia como tantos outros. Também pode atrapalhar o jornalista que vira a madrugada atrás de narrativas interessantes sobre um jogo de futebol cujo resultado - o agitado empate 1 a 1 - nem foi tão interessante assim. Mas, acima de tudo, parece atrapalhar os jogadores do Brasil, que acostumados com o horário europeu, aparentavam sonhar com um cobertor quentinho e um colchão macio quando entraram em campo para enfrentar a Seleção de Marrocos.
Embora noutra geografia, é como se o espírito de Marco Fortes, atleta português que participou nos Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, tivesse subido aos jogadores brasileiros. O atleta do lançamento do peso ficou mais conhecido pelo que disse após a participação do que pelo que fez no estádio, tendo até sido, segundo o próprio, expulso da comitiva mais cedo do que o previsto: “De manhã, só é bom é na caminha”. Só que neste caso, não era bem de manhã...
O horário local nem parecia tão mau assim: o pontapé inicial estava marcado para 18h de New Jersey. O problema é que isso já ultrapassava as 23h em Lisboa (e Londres!), e já nem era sábado à noite lá para Paris, Barcelona ou Madrid. E, assim, os brasileiros sentiram. Pareciam dominados por uma sonolência inexplicável para uma estreia de Campeonato do Mundo e por uma pressão muito eficiente da equipa marroquina.
A bola não ficava nos pés de quem vestia amarelo. Talvez tivesse aversão à cor dos girassóis e das abelhas. Talvez tenha pensado, como um touro, que o encarnado do sangue é muito mais interessante que o canário pentacampeão. E passeava feliz por entre os pés dos defensores, médios e avançados marroquinos. Mesmo quando não estava com eles, buscava voltar. E a pressão funcionava, aniquilando, a cada minuto, a esperança de 200 milhões de brasileiros de um jogo tranquilo e três pontos sem sustos.
E o susto chegava a cada ataque. Marrocos perdeu uma ou outra oportunidade até não perder mais. Brahim Díaz, talvez o melhor amigo da bola até então, foi quem lançou para Saibari. O avançado estava livre, aproveitando a falta de atenção que se convertia num método de marcação raramente utilizado na elite do futebol mundial: olha de longe e torcer pelo melhor. Saibari dominou com calma, conduziu com perigo e finalizou por cima de Alisson. Um a zero, que a essa altura parecia até barato.
O Brasil sentiu o golo. Mesmo com mais espaço para trabalhar – Marrocos já tinha baixado as linhas, pressionava apenas atrás do meio-campo e, mesmo assim, pouco sofria –, era difícil encontrar alternativas para criar chances de perigo. Lucas Paquetá, o médio armador, pouco armava. Raphinha, o extremo driblador, pouco driblava. E Vini Jr., a grande esperança, estava sumido.
Mas é difícil impedir a genialidade de Vini Jr. durante 90 minutos. O relógio já batia mais de 30 minutos da primeira parte, e a história parecia que não mudaria. A esta altura, os mais pessimistas já me tinham enviado mensagens: cravavam uma eliminação precoce, uma derrota na estreia e, nesse ritmo, talvez acreditassem numa nova pandemia ou guerra mundial. O número 7 discordou. Recebeu pelo lado esquerdo, limpou a jogada e bateu firme. Bono pulou, não encontrou nada e o placar permaneceu empatado até o final da primeira parte.
Quando voltou para o relvado, o Brasil já não estava sonâmbulo como nos minutos iniciais do jogo; Marrocos tampouco tinha a capacidade de pressão que havia desestabilizado os pentacampeões durante minutos que pareciam sem fim. Mas num campeonato de tiro curto – com apenas três jogos e logo dois eliminados -, parece que ninguém queria arriscar. Um ponto contra o adversário mais difícil seria um remédio levemente amargo que todos estavam dispostos a engolir.
Vanderlei Luxemburgo já explicou isso há bastante tempo numa frase icónica que marcou o futebol brasileiro, e que deve ter passado batida pelos estudos de Ancelotti quando assumiu a Seleção. “O medo de ganhar tira a vontade de vencer”. Dito e feito. Objetivo 1: não dar espaço. Objetivo 2: se possível, e se não for muito inconveniente, fazer um golo lá na baliza adversária.
Marrocos com a bola não conseguia chegar. Brasil nos contra-ataques também não. Vini Jr. continuava como a principal válvula de escape pelo lado esquerdo. De vez em quando, recebia em liberdade, conseguia arrancar em velocidade e chegou até a encontrar Raphinha livre dentro da área. O avançado do Barcelona, porém, finalizou mal, e Bono fez uma defesa tranquila.
Um passe para cá, outro para lá. O meio-campo era agitado, o jogo até divertido, mas as chances de golo permaneciam escassas. As alterações de Ancelotti pouco surtiram efeito, e o Brasil viu os segundos passarem até ao apito final, que colocou fim à diversão de quem ama Copa do Mundo e ao sofrimento de quem ainda quer um hexacampeonato. Cada um somou um ponto, mas o jogo entre Brasil e Marrocos ainda não acabou: nos próximos jogos, provavelmente disputam entre si para ver quem liderará o Grupo C.
Momentos do jogo
Saibari abre o marcador para Marrocos! 🇲🇦#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #Brasil #Marrocos #betano pic.twitter.com/ka7tumC1hR
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Baila Vini 💛💚#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #Brasil #Marrocos pic.twitter.com/FyzwEwDO79
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Melhor do jogo - Mohamed Ouahbi com uma estratégia quase impecável
O treinador marroquino pensou em todas as fases do jogo. Não foi suficiente para ganhar ao Brasil – algo que, mesmo para o melhor Marrocos da história, não pode ser considerado um resultado ruim –, mas teve boas oportunidades, saiu na frente no placard e colocou medo não só nos jogadores, mas também nos adeptos brasileiros.
A ideia de pressionar a saída de bola canarinha durante os primeiros 15 minutos funcionou. O Brasil não teve respiro, a bola batia e voltava aos africanos que, por pouco, não fizeram o primeiro golo ainda no primeiro quarto da partida. Mesmo assim, quem marcou primeiro foi Marrocos, aproveitando as deficiências defensivas da equipa pentacampeã e o posicionamento ruim dos médios defensivos.
Tudo isso ocorreu devido ao bom trabalho de Ouahbi. Marrocos estreou-se com apenas um ponto no Campeonato do Mundo, mas dará com certeza trabalho a qualquer adversário. E quem sabe não consegue uma medalha este ano...
Pior do jogo – Ancelotti e a antipatia por Endrick
A Rede Globo produziu este ano um ótimo conteúdo audiovisual. A série Brasil 70 narra a história do tricampeonato mundial brasileiro, com uma Seleção de cinco camisas 10, crises impostas pela ditadura militar e vitórias memoráveis, principalmente contra a Itália na final e o golo de Carlos Alberto Torres.
Como mostra a série, Zagallo, o treinador escolhido para substituir João Saldanha – demitido por pressão do governo –, não gostava de Tostão. Não importava se ele havia sido artilheiro nas eliminatórias, se fosse ídolo do Cruzeiro ou se os próprios jogadores entendiam que o avançado era fundamental para o funcionamento da equipa. Zagallo dizia várias vezes: Tostão não se encaixava no esquema de jogo, era necessário um atleta mais forte, que iria bater nos centrais adversários e empurrar a linha de defesa para trás.
Isso mudou – pelo menos na ficção, mas provavelmente não foi muito diferente nos treinos reais – com uma cutucada de Pelé. “Os jogadores têm de se adaptar ao treinador, mas o treinador também tem de se adaptar aos jogadores”.
Escrevi três parágrafos para dizer: Ancelotti não assistiu ao Brasil 70. Se tivesse assistido, a estreia na Copa do Mundo poderia ter sido diferente. A antipatia que o treinador tem com Endrick ainda está por ser explicada, mas hoje ficou bem clara. Após salvar a Seleção no amigável contra o Egito, o avançado que brilhou pelo Lyon depois se tornar ídolo histórico do Palmeiras aos 17 anos não foi sequer cogitado para entrar em campo contra Marrocos. A sua velocidade, capacidade de finalização e, acima de tudo, estrela não saíram do banco e viram uma equipa apática pisar para fora de New Jersey com apenas um ponto.
Faltam dois jogos, e contra o Haiti o Brasil não pode errar.
Surpresa do jogo
A estreia do Brasil não foi de grandes surpresas. Quem acompanha o trabalho de Ancelotti desde o Real Madrid sabe que Endrick nunca foi seu favorito. Portanto, é natural que tenha ficado no banco. Na Seleção, a dificuldade para criar e os erros de posicionamento defensivo tampouco são novidade, sendo algo que vem de treinadores anteriores que deixaram uma base tenebrosa para o italiano trabalhar nos últimos meses.
Por outro lado, os marroquinos são organizados e praticam um bom futebol há algum tempo. Ficaram em 4º lugar em 2022 e venceram – mesmo que de maneira polémica – a Copa Africana de Nações. Não me espanta que tenham imposto dificuldades ao Brasil durante 90 minutos.
