MUNDIAL 2026

Saiba tudo aqui
Mais sobre o Mundial 2026

Noruega vs. Ancelotti? Um-do-li-tá, cara de amendoá

13 jun, 12:18
1 de junho de 2024. Os jogadores levantam o treinador principal do Real Madrid, Carlo Ancelotti, no ar após a vitória na final da Liga dos Campeões de futebol entre o Borussia Dortmund e o Real Madrid, no estádio de Wembley, em Londres. (AP Photo/Kirsty Wigglesworth)
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Rui Miguel Tovar revela por quem está a torcer neste Mundial. Detalhadamente

Lembro-me perfeitamente como se fosse hoje, dia 23 Fevereiro 2026. É uma segunda-feira, tenho precisamente 49 anos e uma semana de vida – nem mais nem menos. Estou dentro de um bê-éme a fazer lembrar o terramoto de Lisboa, sentado ao lado da condutora e, na viagem Porto Covo-Lisboa, verbalizo pela primeira vez um sentimento muito nítido desde a jogatana deles em Milão. "Estou pela Noruega no Mundial."

Nada. não desvia o olhar da estrada, não tira os óculos escuros nem roda o pescoço para a direita com um esgar de espanto, tssss tssss. Tenho ideia até de que as suas palavras foram de desdém, qualquer coisa como ‘ai é?’. G’anda galo. Quer dizer, o ‘estou pela Noruega’ vem cá de dentro, vulcão dos cinco sentidos, é sentido. Vai daí, espero um audível uauuuu. Ou, vá, um uau sem os três u’s suplentes. Em vão. Insisto: nada.

Baaaaaah, é mesmo aquela cena do ‘não há bela sem senão.’ Bom, adiante. Melhores dias virão. Ou melhor, melhores dias virão? (a especulação vende e faz crescer água na boca).

16 de novembro de 2025. Jogo de apuramento para o Mundial de 2026. O norueguês Erling Haaland, em primeiro plano, comemora com os colegas de equipa depois de Jorgen Strand Larsen ter marcado o quarto golo da sua equipa durante o jogo de qualificação para o Grupo I do Mundial de 2026, entre a Itália e a Noruega, em Milão, Itália. AP Photo/Luca Bruno

Estou, sim. Pela Noruega, digo. Adoro o Aursnes, simpatizo com o Odegaard, espanto-me de três em três dias com o Haaland (desde aquele momento em que recebo uma mensagem out of the blue de um amigo do coração de Ribeirão Preto a dizer ‘marcou nove golos num jogo do Mundial sub-20’). E o curioso é que nem vou à bola com eles em 1994, sobretudo cometem a desfaçatez de adiar o inevitável com a Itália até aos 69 minutos. Estou, sim. Pela Itália, digo. Em 1994, reitero. Golo de Dino Baggio e respiro de alívio, a vociferar contra o catenaccio norueguês (nem sei se o praticam, só sei que não deixam entrar nenhuma bola e isso aos meus olhos é só inaceitável: azzurro uma vez, azzurro sempre).

23 de junho de 1994. O italiano Dino Baggio festeja depois de marcar o golo da vitória da Itália contra a Noruega, no jogo da primeira fase do Grupo E do Campeonato do Mundo de Futebol, no Giants Stadium, em East Rutherford, Nova Jérsia, EUA. Na comemoração vê-se também Paolo Maldini (atrás do braço) e Antonio Benarrivo. A Itália venceu por 1-0. AP Photo/Luca Bruno

Abro mais um parêntesis para falar de Rushfeldt, um avançado norueguês da moda nos anos 90 e contratado pelo Benfica ao Rosenborg na era Heynckes em 1999-2000. O problema da transferência é o presidente himself – esse mesmo, Vale e Azevedo. Faltam garantias, o Rosenborg entra em litígio com o Benfica e o negócio não se faz, muito embora Rushfeldt seja apresentado oficialmente e até se treine com os colegas na Luz. Nesse curto período de encantamento, dou de caras com uma notícia d’A Bola, cujo título é ‘Camisolas de Rushfeldt’. O texto a duas colunas fala da venda de produtos na Loja do Benfica. A camisola mais vendida é a de João Vieira Pinto. Seguem-se-lhe Nuno Gomes e Poborsky. O quarto classificado é Rushfeldt. Notável. Nunca jogou pelo Benfica e há quem tenha no seu armário uma camisola com Rushfeldt nas costas, a vermelho e também a prateado (de realçar, já agora: a notícia fala do sucesso esmagador do equipamento alternativo, mais vendido até que o principal).

Fecho o parêntesis e retomo o fio à meada. Quatro anos depois, eles voltam ao Mundial. E cometem a surpresa mais maiúscula de todas, 2:1 ao Brasil na terceira jornada da fase de grupos. Atenção, o Brasil é o campeão mundial em título e até ganha os dois primeiros jogos (Escócia 2:1, Marrocos 3:0) – já a Noruega não é tida nem achada no mapa-mundi do futebol e só acumula dois pontos em seis possíveis. Incapaz de controlar a língua, Zagallo inventa uma guerra com o seleccionador norueguês Egil Olsen. Em causa, a vitória dos noruegueses por 4:2 em Oslo, no ano anterior. E?! Na véspera, Olsen, sem ironia nem desfaçatez, admite voltar a ganhar aos campeões do mundo. Zagallo passa-se dos carretos: "Se eu fosse o treinador da Noruega, já estaríamos nos oitavos-de-final."

O jogo propriamente dito é uma pasmaceira até aos 78 minutos, altura em que Bebeto faz o primeiro da noite. No outro jogo do grupo, Marrocos faz pouco da Escócia (2:0) e festeja a qualificação inédita para os oitavos. Nem o empate da Noruega, através do matulão Tore-Andre Flo, aos 83’, arrefece os ânimos dos marroquinos. Tanto assim é que o benfiquista Tahar dá beijos para a câmara de televisão na hora do 3:0, bis de Bassir.

Àquele hora nenhum marroquino (nem norueguês, provavelmente) sonha com a vitória da Noruega e é aí que aparece Júnior Baiano a fazer penálti. A decisão é polémica porque nenhuma repetição dá razão ao árbitro norte-americano Esfan diar Baharmast. Só dois dias depois, a câmara de uma televisão sueca, instalada atrás da baliza do Brasil, valida o lance. No penálti, Rekdal é frio o suficiente para enganar Taffarel. Acaba 2:1 para a Noruega. Com este resultado, Marrocos (3:0 vs. Escócia) volta para casa com quatro portugueses na bagagem, a Saber (Sporting), Chippo (FC Porto) e El Hadrioui mais El Khalej (Benfica).

23 de junho de 1998. O guarda-redes brasileiro Taffarel estica-se, mas não consegue alcançar a bola, enquanto o norueguês Kjetil Rekdal marca o golo da vitória por 2-1 com um penálti no jogo entre Brasil e Noruega, do Grupo A do Mundial de 1998, no estádio Velodrome, em Marselha, França. AP Photo/Doug Mills

O Brasil de 1998 divide o grupo com Marrocos e Escócia mais Noruega. O de 2026 vai a jogo com Marrocos e Escócia mais Haiti. É do arco da velha, a cena dos sorteios, não é? E hoje é dia de Brasil vs. Marrocos, os dois grandes derrotados pela Noruega de 1998.

Ponto de inflexão e, quiçá, discórdia: sou do Ancelotti, agora seleccionador do Brasil. É o meu treinador preferido há anos, anos, anos e anos. Ancelotti, Carlo Ancelotti. Craque do além, homem bonacheirão, bem-disposto e descontraído por natureza, amante do futebol. Ofensivo e defensivo. Nunca me esquecerei de uma conversa com Rui Costa na zona mista do Giuseppe Meazza, na ressaca de um Milan 0:1 Juventus. Estamos em 2005, o Milan já só pensa na final da Liga dos Campeões vs. Liverpool e eu já só penso numa supertaça europeia vs. Sporting, finalista da Taça UEFA, em casa, vs. CSKA Moscovo – por norma, este tipo de desejos muito arrojados dá raia e este é um dos que tais, porque a supertaça é Liverpool vs. CSKA (damn, emoji de coração partido).

Dizia, estamos em 2005 e a Juventus acaba de se sagrar campeã italiana em pleno Giuseppe Meazza com um golo de cabeça de Trezeguet, após assistência de bicicleta de Del Piero (0:1). Passam milhares de figuras na zona mista entre Buffon, Nedved, Maldini, Kaká, Shevchenko, Del Piero e, por fim, Rui Costa. Para início de conversa, em jeito de amarrá-lo a mim por mais de uns segundos de conveniência, peço-lhe um autógrafo para o Afonso Coelho, filho de um amigo xxl meu. Ponto prévio, o Afonso é das poucas figuras do planeta Terra e arredores que sabe escrever o nome do avançado russo Beschastnykhn (será assim?) sem pestanejar. Ponto assente: o Afonso é fã incondicional de Caracciolo, então avançado do Brescia. Dito isto, peço um autógrafo ao Rui Costa para o Afonso, adepto do Caracciolo. Claro, Rui Costa nem acredita. ‘A sério? Ahahaha, grande escolha.’

Autógrafo dado, atenção garantida. Pergunto-lhe por tudo e um par de botas, até à pergunta essencial da minha existência de então: porque é que Ancelotti mete sempre Ambrosini em situação de aflição, quando o Milan precisa de ganhar e à falta de uns 20/25 minutos? Quero dizer, Ambrosini é batalhador, aguerrido e that’s all folks. Nada a ver com a maioria dos jogadores do Milan (excepção a Gattuso, óbvio), mais refinados e elegantes. A resposta é simples: ‘Ambrosini jogou muito basquetebol na infância e é um dos jogadores com mais poder de impulsão. Entra porque a ideia é ganhar todas as bolas de cabeça no meio-campo.’

Ancelotti e a sua teimosia com Ambrosini? Assunto encerrado. Por essa altura (2005, insistimos), já Ancelotti se sagrara campeão italiano no início de uma caminhada única a nível planetário. Segue-se o título de campeão inglês (Chelsea 2010), francês (PSG 2013), alemão (Bayern 2017) e espanhol (Real Madrid 2022). Ancelotti é o primeiro a vencer os cinco campeonatos europeus mais importantes. Só lhe falta o quê? Um livro, claro.

E ele dá corda aos sapatos. Que é como quem diz, vá pelos seus dedos. E toca de escrever uma deliciosa autobiografia. Começo pelos tortellini com Beckham. “Convidei-o a almoçar comigo em Parma e ele não queria sair do restaurante. Só me pedia 'mais um prato, mais um prato'. Pensei até em chamar a polícia mas convenci-o quando disse 'se não nos vamos embora, organizo mais uma tournée das Spice Girls.' Catorze segundos depois, já estávamos dentro de um carro. Quando o treinei no Milan, ele ainda não se tinha esquecido das delícias da Emilia-Romaña.”

Milan? Toma lá mais uma história. “O meu rabo é à prova de terramotos [parece o bê-éme da minha condutora preferida], já me sentei em bancos que não param de se mexer, já resisti a todos os níveis da escala de Richter. Sento-me diariamente em cima de um vulcão. Com Berlusconi é mais intenso. Ele ama Ronaldinho, Rui Costa, Savicevic, Van Basten, Kaká, e tem todo o direito de me pedir explicações sobre esta ou aquela táctica, mas que fique claro: eu é que faço as equipas. Uma vez o Berlusconi sentou-se ao lado dos jogadores para ouvir a palestra. Ouviu-me, não fez uso da palavra e depois segredou-me ‘vamos ganhar’. Estava certo, para variar.”

E, sim, o Milan é campeão europeu. "Uns dias antes da final da Liga dos Campeões-2003 com a Juventus, abdiquei do treino e convidei os jogadores para uma mini-sala de cinema. Eles instalaram-se, eu fechei as luzes e meti aquela cena de 'Um Domingo Qualquer', de Oliver Stone. O discurso de Al Pacino antes de um jogo crucial de futebol americano falava de 'a vida é uma questão de jardas, como o futebol. Em cada jogo, na vida ou no futebol, a margem de erro é assim, mínima. Por isso, ou sobrevivemos como equipa ou morremos como indivíduos.' Além do discurso, preparei um DVD com as imagens da caminhada para a final. Quando liguei as luzes, todos estavam com pele de galinha. Ganhámos essa final e eu não fui nomeado para os Óscares como melhor realizador."

23 de maio de 2007. O treinador do AC Milan, Carlo Ancelotti, lança o troféu ao ar após a vitória da sua equipa por 2-1 sobre o Liverpool, na final da Liga dos Campeões disputada entre o AC Milan e o Liverpool no Estádio Olímpico de Atenas, Grécia. AP Photo/Luca Bruno

Segue-se o sucesso em Inglaterra, com a dobradinha (inédita na história do Chelsea). ‘Em Itália, travei diálogos duros com Mourinho e não gostávamos um do outro, mas mudei a minha opinião sobre ele quando fui treinar o Chelsea. Servi-me às vezes do seu arquivo de treinos. Na véspera da eliminatória para a Liga dos Campeões, em Milão, no dia 24 Fevereiro 2010, encontrámo-nos no túnel de acesso ao relvado. Apertámos as mãos, dissemos um ao outro ‘zero confusão, zero controvérsia’ e chegámos a um acordo. Não creio que alguma vez venha a ser amigo do José mas temos um respeito recíproco. Quando ganhei a Premier League pelo Chelsea, escreveu-me um SMS a dizer ‘Champanhe’. Quando ele foi campeão italiano pelo Inter, escrevi-lhe ‘Champagne, mas não demasiado’.

Ainda Inglaterra. “Joguei, e ganhei, uma final da Taça de Inglaterra pelo Chelsea. Quando o príncipe William me desejou boa sorte, queria perguntar-lhe pela avó mas faltou-me a coragem. Tenho admiração, veneração pela rainha Isabel. É fascinante. Gostaria de a conhecer, mas não sei muito bem como. Não se pode telefonar para Buckingham Palace e dizer ‘olá sou o Carlo, posso falar com a Isabel?’ Resta-me continuar a ganhar para ver se ela dá conta da minha existência.”

Carnaval do Rio de 2026. Da esquerda para a direita, o ex-jogador de futebol brasileiro Cafu, a rainha do samba Sabrina Sato, o ex-astro do futebol brasileiro Ronaldo e o treinador da seleção brasileira Carlo Ancelotti nas celebrações do Carnaval no Sambódromo, no Rio de Janeiro. AP Photo/Silvia Izquierdo

Por falar em existência, quem é o melhor da história do treinador Ancelotti? “Cada vez tenho mais a certeza que treinei um ET. Zidane era um espectáculo, um show diário. Só tinha um defeito: raramente marcava golos, porque não passava muito tempo na grande área. Parecia alérgico aquela zona, mas era um maestro no resto. Ele inventava, nós víamos. Eu observava porque era o meu trabalho, os companheiros também porque não podes desviar os olhos de uma obra de arte.”

Obra de arte seria uma final entre Noruega e Ancelotti. E se? Um-do-li-tá, cara de amendoá...

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Mundial 2026

Mais Mundial 2026

Mais Lidas