Que tragédia, o 5 de Julho para o Brasil. De 1982 para 2026

6 jul, 06:30
Mundial 2026: Brasil-Noruega (EPA/WILL OLIVER)
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Esta era a final desejada de Rui Miguel Tovar, que aqui escreveu há três semanas que iria torcer pela Noruega neste Mundial. Agora, conta-lhe como viu o jogo em que a sua equipa predileta afastou o Brasil

Estamos, a minha filha e eu (por ordem de paciência), há 20 minutos numa loja do chinês em Évora.

- escolhe lá, Ema

- estou muito indecisa 

- olha que o parque infantil fecha daqui a nada 

- espeeeera pai... (silêncio) ... (vira-se de costas para mim e diz baixinho, como se eu não ouvisse) isto é uma tragédia, precisamos de uma emergência!

Pois é, uma tragédia. O Brasil acaba de ser eliminado do Mundial-2026 e bate o recorde pessoal de seis fases finais sem levantar o caneco, desde 2002. Nunca visto, incrível. O mérito vai para a insuspeita Noruega. Antes da estreia do Brasil neste Mundial, vs. Marrocos, escrevi aqui na CNN que torcia pela Noruega e por Ancelotti, seleccionador do Brasil. O ideal seria encontrarem-se na final, mas, afinal, foi nos oitavos. Bonito, sempre. E a verdade é que nunca estive confortável no jogo. Ao contrário das duas equipas, até divertidas no seu modo de jogar para a frente e, de quando em vez, com jogadores a sorrirem uns para os outros, uma lufada de ar fresco na ressaca do inadmissível comportamento do Paraguai vs. França.

Uma tragédia. O Brasil está fora. E logo no 5 de Julho, o fatídico dia da tragédia de Sarriá, numa alusão àquele 3:2 de Paolo Rossi ao mágico Brasil de Telê Santana, no Mundial-82. Agora, outro 5 de Julho a travar o coração dos brasileiros. Atenção, muita atenção, a Noruega é o maior adversário dos brasileiros. Ou melhor, o único sem qualquer derrota. Em quatro jogos, dois empates e duas derrotas. À quinta, (ainda) não foi de vez. A Noruega segue em frente. Palmas, muitas palmas, não é todos os dias que se elimina o pentacampeão. O jogo até começa favorável à Noruega, com um golo e tudo. Só que é anulado pelo fiscal-de-linha da bancada contrária ao do banco de suplentes, por fora-de-jogo de Sorloth, autor do cruzamento para o remate certeiro de Berg.

O Brasil acorda para a vida, dá corda aos sapatos e espanta a flagrante superioridade da Noruega. Aos 11’, ganha um penálti por carrinho desnecessário de Ajer sobre Mateus Cunha, só validado pelo VAR, perante o deixa-andar do árbitro norte-americano Elfath. Encarrega-se da marcação Bruno Guimarães, defende Nyland. Tome nota, é o primeiro penálti falhado pelo Brasil em Mundiais desde o de Zico em 1986, vs. França (defesa de Bats). E tome também nota, é a primeira de muitas defesas do guarda-redes norueguês ao longo dos 90 minutos.

Até ao intervalo, Nyland ainda evita o golo a Vini Jr. No outro lado, também Alisson dá o seu espectáculo com defesas a remates de Odegaard e Haaland. O nulo é enganador, ponto.

A segunda parte começa com o Brasil a abrir e a esbarrar em Nyland. E mesmo quando o guarda-redes da Noruega não toca na bola, a sua figura gigante faz confusão a quem lhe aparece pela frente, como o recém-entrado Endrick, aos 59 minutos. O jovem recebe de Vini Jr, domina mal, pisa a área e... atira ao lado. A luz do Brasil empalidece de repente e dá lugar à da Noruega, com ordem e progresso, através de Schjelderup. O benfiquista obriga Alisson a uma defesa atenta e, depois, saca um cruzamento perfeito da esquerda para a entrada de cabeça de Haaland, em antecipação ao central Gabriel.

Em desvantagem, o Brasil aperta e ganha uma série de cantos, todos eles inconsequentes e marcados por Neymar, então entrado para o lugar de Martinelli. Aos 87’, Ajer quase faz autogolo. Vale-lhe quem? Ya, adivinhou: Nyland. Que classe. Mais à frente, aos 90’+1, Schjelderup volta a explorar o lado esquerdo e mete a bola para o meio, onde Haaland pára a bola com o pé direito antes de prepará-la com o esquerdo e atirar também com o esquerdo por entre as pernas de Danilo. É verdade, sim senhor, Alisson estica-se todo. Em vão, a Noruega sentencia. Dois-zero, bis de Haaland. Memorável. O 9 já tem sete golos, tantos quantos Messi e Mbappé. Que tratado.

Entramos no período de acréscimos, sete minutos que se prolongam porque há uma confusão monstra nas imediações da área do Brasil, quando Neymar acerta em cheio em Odegaard. O brasileiro vê amarelo, o norueguês festeja como se fosse um golo. O jogo parte-se todo e é ver o Brasil a despejar bolas para a área contrária. Uma delas vai ter com Casemiro e Ostigaard acerta-lhe uma cotovela. Elfath apita penálti na hora. Nyland provoca Neymar, o 10 fala com ele à distância de 11 metros. O bate-boca acaba em golo do Brasil, bola para um lado, guarda-redes para o meio.

Por falar nela, a bola vai ao meio, a Noruega recua-a para o guarda-redes e depois avança sem critério. O Brasil recupera e chuta lá para a frente, também sem jeito. Nyland defende, deita-se no relvado, levanta-se e atira. Fim de papo. Longa vida à Noruega, continuo a dizer. Já o Brasil... Que tragédia, precisa mesmo de uma emergência.

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