SUPERCRÓNICA BRASIL2-1JAPÃO | Equipa brasileira saiu vitoriosa e garantiu uma vaga nos oitavos de final do Mundial 2026 em partida difícil e emocionante
O jogo entre Brasil e Japão colocou em campo duas equipas que pareciam antagónicas. De um lado, a história, os cinco títulos e o talento. Do outro, o futebol de origens brasileiras - Zico levou-o ao país asiático - a disciplina tática e o medo da derrota. O Japão começou bem, mas foi o Brasil que levou a melhor após mais de 90 minutos de futebol nos Estados Unidos.
Foi com base no antagonismo que a partida se desenvolveu durante os primeiros 45 minutos. O plantel comandado por Ancelotti não sabia o que fazer em campo. Quando tinha a bola, procurava um mapa para correr sem medo atrás do X que marcaria o tesouro na baliza adversária. Quando não a tinha, corria atrás dos japoneses com a timidez de uma criança que acabou de ser questionada por um familiar: “Lembras-te de mim?”, e se esconde atrás da mãe sem saber o que fazer.
Nada funcionou no plano de jogo brasileiro - e muito disso é culpa de uma estratégia executada com perfeição pelo Japão. Contra o Haiti, a Canarinha encontrou um adversário que subia demais e dava espaços para Vinícius Júnior avançar em velocidade. Diante da Escócia, venceu com base em erros e mais erros de saída de bola que certamente foram estudados. Mas o que fazer quando o adversário corta os espaços e te obriga a criá-los?
Existem algumas possibilidades para ter chances em jogos assim, mas todas passam por uma estratégia não apenas coletiva. A individualidade precisa de aparecer dentro do relvado para puxar o marcador, driblar, finalizar de perto, de longe. Encontrar um passe genial que ninguém viu ou colocar a bola na cabeça do avançado num cruzamento da linha de fundo.
No entanto, ninguém foi capaz de fazer isso. No meio-campo, Paquetá e Bruno Guimarães não conseguiam encontrar os avançados em posição que permitisse criar uma jogada de perigo. No ataque, Vinícius, Rayan e Matheus Cunha permaneceram isolados durante os primeiros 45 minutos.
Enquanto isso, o Japão foi inteligente. Conhecendo as enormes limitações criativas do Brasil, precisou apenas de esperar que a oportunidade surgisse para avançar com liberdade pelo campo de ataque. Até isso acontecer, bastava ter calma e não dar espaços para o talento brasileiro aparecer.
E o momento japonês eventualmente chegou. Enquanto uns se preocupavam em fazer um jogo de ‘erro zero’, Danilo pareceu não ter esse receio. Com um passe fraco, tentou acionar os médios brasileiros, mas encontrou perfeitamente os pés de Kaishu Sano. O número 24 do Japão pôde, então, conduzir tranquilamente, aproveitando a inexistência da marcação brasileira naquele setor.
Já não é de hoje que Casemiro demonstra ter dificuldade para atuar contra boas equipas. Na estreia, foi o pior jogador brasileiro em campo contra Marrocos. Agora, deixou novamente a equipa desprotegida durante os 45 minutos iniciais.
O jogador já havia sido advertido com um cartão amarelo há alguns minutos quando Sano arrancou pelo meio-campo. Para não ser expulso, optou por não fazer a falta necessária para impedir o golo adversário. Mas porque é que se manteve a metros de distância que não permitiriam o desarme mesmo que ele quisesse? Isso não sabemos dizer, e o Japão abriu o placar numa primeira parte para esquecer da equipa brasileira.
Ao voltar do intervalo, porém, o Brasil era outro. Lucas Paquetá, lesionado, teve de ser substituído, e Ancelotti optou por Endrick - para a surpresa da Internet mundial. A alteração, porém, não foi o mais importante. Apesar de o avançado ser muito habilidoso e capaz de melhorar o desempenho do restante plantel, o mais importante era uma mudança de postura, de ânimo. E, de algum jeito, Ancelotti conseguiu fazer essa substituição.
Vinícius Júnior parecia mais confiante, Matheus Cunha abria espaços com boas movimentações e Casemiro passou a jogar mais avançado para tentar redimir-se pelo erro que colocou o Brasil atrás do placar. A seleção Canarinha também pareceu ter entendido que os caminhos poderiam não vir pelo chão, mas o ar continuava como uma boa alternativa.
A baixa estatura dos japoneses fez as jogadas aéreas parecerem ainda mais interessantes, e foi para isso que o número 5 brasileiro passou a aparecer na área. Na primeira oportunidade que teve, a bola parou em cima da linha num lance estranho às três tabelas em que a bola, por alguma razão, não entrou. Na segunda, porém, Casemiro não desperdiçou: após cruzamento de Gabriel Magalhães, cabeceou, marcou e igualou o placar.
O médio foi do inferno aos céus dentro da mesma partida. Para muitos, o seu destino após a eliminação seria a cruz, a prisão ou, para os mais misericordiosos, o exílio. Em 2022, foi um dos culpados pela derrota contra a Croácia e, agora, poderia repetir o filme que parecia escrito por um guionista pouco competente e criativo. Mesmo assim, não desanimou e parecia ser um dos líderes da remontada brasileira durante a primeira metade da segunda parte.
Após a pausa para hidratação - e publicidade -, o jogo ficou morno. Durante 20 e poucos minutos, parecia que as duas equipas estavam satisfeitas com o resultado e pensavam no prolongamento, nos penáltis e, quem sabe, nos oitavos de final. O Brasil tinha dificuldades, de novo, para criar. O Japão esperava pacientemente por uma oportunidade, mas dessa vez sem encontrar um erro infantil da defesa brasileira. Casemiro saiu por cansaço, entrou Fabinho. E tudo parecia caminhar para um final desanimado.
Mas um guionista sem criatividade também consegue criar um clímax emocionante. O filme parecia uma sequência - ou reboot - das eliminações vividas pelo Brasil nos últimos anos, mas na verdade era uma história original. E uma nova obra merece um novo herói, que surgiu com o nome de Gabriel Martinelli.
Faltava um minuto para o fim da partida, o relógio já marcava 95 minutos e foi a hora do antagonismo entre as equipas aparecer novamente. Enquanto um estava conformado com o empate e temia a derrota, o outro queria ser hexacampeão. Rayan recebeu no lado direito do ataque e, calmo, levantou a cabeça e pensou em qual seria a melhor opção, algo que também faria no segundo seguinte Bruno Guimarães, quando recebeu a bola de frente para a baliza.
Às vezes gostávamos poder saber o que se passa na cabeça de um jogador em determinado momento. Bruno recebeu em condições de finalizar, qualquer outro jogador o faria. Independentemente dos quatro japoneses que estava em sua frente, era a opção mais viável para muitos atletas - inclusive pelos que já passaram pela seleção brasileira. Nesse contexto, faria o remate, viria a bola sair pela linha de fundo e o placar permaneceria empatado.
Mas Bruno foi diferente. Teve todas as infinitas frações de segundo que precisava para levantar os olhos, encontrar Martinelli sozinho e efetuar o passe. O resto, é história, e Brasil nos oitavos de final do Mundial 2026.
Melhor - o psicológico da seleção
O Brasil demonstrou força mental para não se perder durante a partida. Apesar de ter sofrido o golo ainda na primeira parte, voltou melhor e conseguiu recuperar-se. Casemiro, um dos culpados pelo golo japonês, melhorou e empatou. A equipa não desistiu e conseguiu a qualificação para os oitavos de final no último minuto.
Pior - a primeira parte
A primeira parte da seleção brasileira foi para esquecer. A equipa não conseguiu criar oportunidades e viu o Japão terminar os 45 minutos iniciais à frente no placar. Danilo errou um passe desnecessário, Casemiro não ocupou o espaço no meio-campo e todos os jogadores poderiam fazer mais, como fizeram após o reinício da partida.
Surpresa - o herói da noite
Gabriel Martinelli não teve a melhor época no Arsenal e teve a sua convocação contestada por alguns adeptos brasileiros. No entanto, hoje mostrou que pode não apenas ser útil, mas ser fundamental. Entrou na segunda parte para fazer o golo da vitória e colocar o Brasil nos oitavos de final. Foi, sem dúvida, o herói improvável que o Brasil precisava.
