SUPERCRÓNICA ESCÓCIA 0-3 BRASIL || Neymar voltou a jogar pela seleção, mas quem brilhou foi o número 7. Mais dois golos para o avançado do Real Madrid que é, indiscutivelmente, o melhor brasileiro neste Mundial
Ancelotti nunca foi um treinador cujo estilo de jogo fosse parecido com o que o Brasil está acostumado, mas isso está longe de ser algo mau. Em 58, 62, 70 e até 2002, o Brasil era capaz de vencer, convencer e encantar os milhões que celebraram tantos títulos mundiais distribuídos pelas décadas.
Em 94, era mais pragmático e depositava a magia nas costas de Romário. Agora, com Ancelotti, o pragmatismo parece ter retornado, e a magia fica sob a responsabilidade de Vinícius Júnior, que não tem dececionado.
Nos últimos anos, o Brasil até tentou reencontrar a sua essência sem sucesso através de técnicos nacionais que prometiam jogar bonito. Fernando Diniz queria posse de bola, jogo posicional e maravilhar o mundo. Foi assim que ele, pelo Fluminense, se orgulhou de “dominar” o Manchester City por 15 minutos quando foi derrotado na final do Mundial em 2022 por 4-0. Na seleção, não foi muito diferente - a grande mudança é que não dominava nem conseguiu dar a volta.
Sob o comando italiano, porém, a história é diferente. O Brasil não tenta fazer magia, ganhar por seis, sete ou oito. Na verdade, estuda o adversário e procura uma nova alternativa em cada partida. Tenta, e tem conseguido, potencializar as peças que tem, as opções do plantel e punir os erros dos outros. Lembra muito a revolução no futebol paulista feita por Felipão (Scolari, que também muito fez por Portugal) e Luxemburgo, há quase 30 anos.
Em São Paulo, o Palmeiras jogava bonito e ganhava assim. O Corinthians jogava feio e ganhava também (mas ganhava menos, vale ressaltar). Inclusive, o Palmeiras das décadas de 60 e 70, o único clube do Brasil que era capaz de disputar títulos com o Santos de Pelé, era conhecido como Academia pelo futebol bonito que costumava praticar.
Mas isso também mudou nas décadas de 90 e 2000. Foi quando Felipão chegou ao Palmeiras, em 1997, e abriu mão do jogo bonito. A equipa era sólida defensivamente, errava pouco, atacava em velocidade e tinha jogadores de qualidade inquestionável para finalizar as jogadas. No Corinthians, Luxemburgo teve o efeito oposto: colocou a equipa para ser ofensiva, jogar com classe. No começo, os adeptos até poderiam questionar, mas foi impossível não apoiar as novas estratégias quando os resultados chegaram. O Palmeiras venceu a Libertadores, a Taça do Brasil e muito mais; o Corinthians conquistou um Brasileiro e um Paulistão.
Agora, mesmo quem não tem muito carinho por esses clubes vê -se obrigado a entender um novo estilo de jogo numa seleção em que o padrão já estava consolidado. Ancelotti colocou o Brasil para ganhar ao Haiti em contra-ataques em velocidade, aproveitando a marcação inexplicavelmente alta do adversário e a qualidade inexplicável de Vinícius Júnior.
Contra a Escócia, mais uma vez, não entrou para dominar todos os espaços: bastava dominar na estratégia. Os erros dos europeus eram bastante diferentes, se comparados com o adversário anterior. A marcação era mais baixa, os espaços reduzidos: como resolver isso? Para o Brasil, pareceu bastante simples. Bastava pressionar (um pouco, nem foi preciso tanto esforço assim) a saída de bola escocesa que os erros apareceriam.
“Aperta que eles entregam”, diziam narradores nas transmissões brasileiras. Dito e feito. Primeiro foi Rayan, que roubou a bola e conseguiu deixar Vinícius Júnior na frente do guarda-redes adversário. Naquela hora, o tempo parou.
Quando a bola chega aos pés de um craque, tudo funciona diferente. As leis da física ou da natureza parecem não funcionar. Às vezes, os génios encontram espaços onde não existem. E em outras horas encontram dias inteiros em poucos segundos. E assim funciona o jogo do Brasil quando o número 7 recebe sozinho no “mano a mano” com a baliza adversária.
Vini Júnior parecia estar em casa. Quando todos esperavam uma finalização direta, sem pensar, ele optou por parar a bola e ver o guarda-redes da Escócia passar à sua frente. Neste caso, a física aplicou-se: na inércia, um corpo em movimento permanece em movimento. Na área, um guarda-redes que tenta impedir um remate que não veio continua em movimento até sofrer o golo. Vini finalizou sem dificuldades e abriu o placar.
Isso ainda não foi suficiente para conter os ímpetos de Vinícius Júnior, que também marcou um golo mal anulado pela arbitragem, pelo menos na nossa perspetiva. Muitas vezes criticado por não ter o mesmo desempenho na seleção e no Real Madrid, neste Mundial o avançado assumiu a responsabilidade e, jogo após jogo, conduz o Brasil como um maestro conduz a orquestra. Abre espaços, corre, passa, finaliza... desta vez, cruzamento de Bruno Guimarães e novo golo. Melhor em campo, sem grandes surpresas.
A segunda parte veio com mais domínio contra uma Escócia que precisava de ir atrás do resultado. Sem sucesso, os escoceses viram o Brasil crescer e dominar o meio-campo. Casemiro, que vem de atuações bastante questionadas, melhorou. Bruno Guimarães, que começa a render como no Newcastle, recebeu o lançamento. Matheus Cunha, que ganhou a titularidade merecidamente após um grande jogo contra o Haiti, estava disponível, foi acionado e ampliou.
O jogo pragmático já tinha criado uma goleada, e o Brasil queria mais. Mas não queria, necessariamente, mais golos, mais domínio, mais resultado. Queria, principalmente, mais uma opção: e por isso Neymar entrou em campo.
A resiliência de Neymar nos últimos anos pouco lembrou a do velho Santiago do clássico de Hemingway. Na verdade, o avançado há anos que luta contra problemas físicos que culminaram também em problemas técnicos. Quase não jogou no Al Hilal, encontrou dificuldades para ter regularidade no Santos e contou com o seu status de ídolo nacional para chegar a mais um Mundial.
Ancelotti em diversos momentos rejeitou a convocatória de um jogador que não estivesse pronto para entrar em campo, e não chamou Neymar até a última lista. A justificaçaõ era a mesma: chamaria quem pode jogar, quem joga melhor e quem estaria disponível no Campeonato do Mundo. A vida na Confederação Brasileira de Futebol, porém, não é tão simples assim.
Se eu fosse explicar todo o histórico de relações entre Gilmar Mendes (ministro do Supremo Tribunal Federal), Francisco Mendes (filho de Gilmar) e a CBF, esta crónica viraria um livro sem grandes dificuldades. Basta dizer o seguinte: Gilmar e Francisco possuem uma enorme influência em tudo o que acontece no futebol brasileiro, e, segundo o jornalista Lauro Jardim, ‘Chico’ vangloriou-se no Fórum de Lisboa por ter sido o responsável por convocar Neymar para o Mundial. Uma indicação mais política que desportiva.
O número 10 vinha lesionado e sem jogar há cerca de um mês. Antes disso, lidou com outras lesões e oscilou entre jogos com grande protagonismo e outros menos impactantes no Santos. Na seleção, foi poupado durante as duas primeiras partidas e recebeu alguns minutos sem grandes responsabilidades contra a Escócia. Entrou mais para ganhar ritmo do que para marcar golos. E isso parece ter sido feito. Saiu de campo inteiro, sem cometer grandes erros e, mais importante, à disposição da próxima partida. O Brasil está qualificado e precisará de toda a ajuda necessária para chegar à final e conquistar o hexacampeoanto. Sem dúvida, um Neymar em condições é o reforço dos sonhos para qualquer equipa. Resta saber se ele chegará lá.
Momentos do jogo
Vini Jr a aproveitar o erro da defesa escocesa ⚡️
1-0 para o Brasil!#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #Escócia #Brasil #betano pic.twitter.com/03LhER8QGj
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VINI JR A BISAR ⚽️⚽️#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #Escócia #Brasil #betano pic.twitter.com/7xp2O0GbbH
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Matheus Cunha a fazer o terceiro da Canarinha 🇧🇷#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #Escocia #Brasil #betano pic.twitter.com/TNgVgpzl0a
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O melhor
Vinícius Júnior foi, sem dúvidas, o melhor jogador em campo. Mais uma vez, o avançado do Real Madrid demonstrou que é um dos melhores do mundo e não sente a pressão de representar a Seleção Brasileira num Mundial. Este ano, já são cinco golos na competição e contando. Certamente, o número 7 será a grande arma do Brasil para sobreviver às eliminatórias e chegar ao título.
O pior
O árbitro César Ramos foi o grande destaque negativo da noite. O mexicano não teve muitas intervenções relevantes, mas anulou de maneira polémica um golo de Vinícius Júnior. No lance, o avançado colocou-se à frente do central escocês, que errou o passe e perdeu a bola. O brasileiro marcou, mas não pôde comemorar por muito tempo. Mesmo assim, o lance não foi fundamental para o resultado, e a Seleção venceu sem dificuldades.
A surpresa
Rayan não jogou bem na última partida e, mesmo assim, ganhou a vaga de Raphinha (lesionado) entre os titulares. O jovem mostrou inteligência tática e foi importante na construção do resultado, principalmente ao pressionar a saída de bola adversária. Deve receber mais uma merecida oportunidade no 11 inicial na próxima fase.
