Perto da história, perto daquela pirâmide
Nisto do futebol, como na vida, também é importante retermo-nos nas coisas que julgamos pequenas à primeira vista, que nos surgem como pormenores apenas quando delas ainda não retirámos o real significado.
O Estádio Lumen Field, em Seattle, Estados Unidos da América, apresentava-se assim: três imponentes bancadas, cada uma o prolongamento da outra – todas repletas, bandeiras e cachecóis, milhares e milhares de adeptos, o Mundial no seu expoente máximo.
E depois, na outra ponta, a quarta bancada, a que falta referir – apenas com uma leve conexão com as outras, mas, em termos arquitetónicos, quiçá a mais bonita. Foi impossível fugir à metáfora: acreditemos que até os jogadores nela repararam.
A bancada para a qual o Egito começou a atacar – e que serviu de inspiração para uma história que podia ser tão bonita – assemelhava-se a uma pirâmide. Pontiaguda no topo; com uma base larga.
Chamemos-lhe ironia, destino ou poesia: o certo é que, durante a primeira parte, em que, à frente dos olhos, tinham essa mesma bancada, os egípcios foram muito melhores.
No jogo inaugural do grupo G do Mundial, a equipa africana procurava fazer história: nunca havia ganho uma partida na maior competição de seleções de futebol. E entrou com vontade.
Fruto de uma pressão alta logo à saída de bola da Bélgica, mas também beneficiando de uma boa dose de facilitismo belga, os comandados de Hossam Hassan dominaram à vontade.
Não é que a primeira parte tenha tido grandes oportunidades de golo – longe disso – mas a principal de todas deu num (merecido) golo para o Egito. Ashour foi o culpado quando, jogava-se o minuto 19, recebeu uma bola à entrada da área, encheu-se de coragem, não estivesse ele à frente da bancada-pirâmide, e rematou logo dali para o fundo das redes.
A festa estava montada e foi-se prolongando até ao início de uma segunda parte em que a Bélgica sabia que tinha de mostrar mais.
Sem substituições, houve uma ligeira alteração no lado dos europeus: De Ketaelare apareceu a derivar mais para a direita. E o facto é que a Bélgica melhorou.
De Bruyne deu um primeiro sinal com um remate ao poste (53 minutos) e o Egito remeteu-se mais à defesa, tentando-se agarrar à magra vantagem – e à história.
Mas depois veio a entrada da experiência, ou seja Lukaku, um poço de força, 1.91 e 93 quilos, jogador experimentado, campeão em vários sítios – e melhor marcador da história da Bélgica.
Desta vez, não marcou, mas segundos em campo bastaram que mostrasse o que (ainda) vale: após um cruzamento de Munier, juntou-se à molhada, atrapalhou os centrais egípcios e um deles – Hany – fez um auto-golo.
O relógio marcava 66 minutos, tudo podia acontecer, mas nada de mais relevante se passou: a Bélgica voltou a ter mais bola; Egito mostrou que quis ganhar.
No final, deu empate. E, longe de ter sido um grande espetáculo, a música dos Nirvana que entoava, no início do jogo, nos altifalantes do Estádio Lumen Field – o tal da bancada em estilo de pirâmide – cumpriu-se minimamente.
«Here we are now, entertain us!»
A FIGURA: Ashour
Foi dele o golo inaugural da partida – e que golo. Aquele pontapé jamais sairá da memória de Ashour, médio egípcio que, além do tento apontado, ficou a centímetros de bisar ainda na primeira parte. Seria substituído, mas tal não apaga a boa performance. No lado da Bélgica, destaque para Tielmans: um capitão, na verdadeira aceção da palavra
O MOMENTO: Efeito Lukaku (66m)
Ele tinha entrado há segundos: Lukaku não teve uma época fácil, a contas com lesões que o impediram de mostrar, no Nápoles, tudo o que sabemos que é. Começou o Mundial no banco, mas bastou entrar em campo – ironia das ironias – para a Bélgica empatar a partida. Estorvou os defesas do Egito num lance que acabou com um deles a fazer um auto-golo.
