CRÓNICA BÉLGICA 3-2 SENEGAL || Houve 86 minutos de jogo e depois houve um eclipse. Houve também duas equipas que proporcionaram um dos jogos mais divertidos e imprevisíveis deste Mundial, ainda com direito a golpe de teatro no fim
Marrocos eliminou os Países Baixos nos penáltis, mas foi muito melhor, a Costa do Marfim podia perfeitamente ter forçado o prolongamento contra a Noruega e a República Democrática do Congo obrigou a Inglaterra a um esforço que não vinha no guião.
Eram mais que muitos os avisos para a Bélgica, que de nomes para nomes é claramente melhor que o Senegal. O problema é que os nomes só por si não jogam. Não é por se chamar Kevin De Bruyne que a bola vai automaticamente entrar mais redonda. Não é por se chamar Jérémy Doku que os dribles vão sair todos bem. Ajuda, claro, mas não é suficiente.
Para os mais desatentos, o Senegal fez esta quarta-feira apenas meia-surpresa ao ser quase sempre melhor, até deixar de o ser. Aliás, a surpresa foi o “tiro na cabeça” que a equipa deu depois de se colocar de cadeirinha no resultado. A expressão foi utilizada por Luís Freitas Lobo na antena da Sport TV, e é certeira, porque os Leões de Teranga foram melhores durante 86 minutos, mas depois eclipsaram-se totalmente. Quase que pareciam nem querer ganhar. Ou pelo menos ganhar tão facilmente.
É que esta equipa africana foi melhor que a Bélgica. Melhor conjunto coletivamente, mas também tem os jogadores em muito melhor plano. Basta ver que aqueles dois ali de cima, Kevin De Bruyne e Jérémy Doku, saíram antes do minuto 60 (!).
Até por saber isso se justifica as lágrimas de uma adepta captada pelas câmaras já nos descontos do tempo regulamentar, com a Bélgica a carregar como antes parecia impossível para tentar evitar um prolongamento. Não o evitou.
E a menina que chorou antes viria a chorar mais depois. Com toda a razão, o que aconteceu foi um autêntico filme de terror para os senegaleses. Vê a sua seleção ser melhor durante quase todo o jogo e acaba eliminada por erros infantis que levaram ao prolongamento e por um penálti caído do céu. A Bélgica passa, sim, mas muito mais na raça do que na qualidade.
Voltemos atrás para explicar como se chegou aqui.
O primeiro golo do Senegal chegou a favor da corrente do jogo, com Habib Diarra a aproveitar um ressalto para bater um desamparado Thibaut Courtois, que mais não pôde fazer do que ir buscar a bola dentro da baliza.
A Bélgica assustou-se, mas de nada serviu no imediato. O Senegal continuou a dominar territorialmente e a assustar de forma frequente. Ainda antes do segundo golo chegou até a ter momentos de posse em que parecia ser a seleção que precisava de marcar.
Ao minuto 79 foi possível ver Rudi Garcia, treinador da Bélgica na primeira experiência como selecionador, meio baralhado a mexer num bloco de notas. Talvez até ele esteja a tentar perceber o que é que queria fazer quando enviou aqueles 11 homens para dentro do campo. É a imagem que fica desta seleção, que claramente tem de se refundar para voltar ao topo em que esteve durante a última década.
Antes disso, a aparente machadada foi dada ao minuto 51, num grande golo de Ismaila Sarr, que aproveitou uma bola longa perfeita de Moussa Niakhaté para fazer um grande golo, que só serviu para enterrar mais a Bélgica, que haveria de reaparecer vinda do nada, mostrando que um golo pode acordar do sono qualquer equipa.
Já depois disso, até depois da imagem de Rudi Garcia perdido - ele e a equipa, que Leandro Trossard e Youri Tielemans foram apanhados a discutir a meio da partida -, Romelu Lukaku apareceu para fazer o que faz sempre, marcar golos. Foi dele que os Diabos Vermelhos renasceram quando já nada o fazia prever, aproveitando o suicídio coletivo e individual do Senegal - a arma que dispara na direção própria havia mudado de direção -, que foi particularmente visível três minutos depois, com Youri Tielemans a aproveitar tudo isso para empatar, lançando as tais lágrimas.
Depois de passar o jogo todo a dar tiros na cabeça, alguns deles disparados até antes de começar a partida, a Bélgica contou com o mesmo brinde do adversário. E logo a dobrar, arrastando o jogo até ao prolongamento, onde o Senegal quebrou totalmente.
O prolongamento foi um desfile de sofrimento para o Senegal, claramente destruído fisicamente, algo que a Bélgica aproveitou para ter algum ascendente. As duas equipas acabaram por se arrastar, ainda que com algumas oportunidades nas duas balizas - incluindo uma bola na barra do benfiquista Dodi Lukebakio -, até ao penálti. Penálti, sim, e não penáltis.
Já a chegar ao fim do prolongamento o árbitro foi chamado pelo VAR para ver algo que aconteceu na área do Senegal. Era um pé fora do sítio a tocar no atacante da Bélgica. Penálti, portanto, ainda que não tenha sido 100% claro e óbvio. Youri Tielemans, um dos melhores da Bélgica, assumiu a responsabilidade e virou herói para a Bélgica, colocando a equipa a vencer um jogo em que só foi melhor a partir dos 86. É futebol, é o que é.
Eis a crónica de um jogo em que um treinador pareceu não querer ganhar durante 86 minutos e em que o adversário respondeu com minutos finais de aparente desejo semelhante. Como tinha mesmo de ganhar um, a coisa lá se resolveu, mas fica a sensação de que pode ter vencido a pior equipa.
Agradece, ainda assim, o espectador, que todos estes tiros na cabeça e loucura dentro do relvado proporcionaram um dos jogos mais divertidos e imprevisíveis deste Mundial, com o relógio a estender-se para lá dos 130.
A Bélgica fica agora a assistir ao Estados Unidos-Bósnia para saber com quem vai jogar, mas vai ter de acelerar para não ter de voltar a entrar em trabalhos.
