Do dia em que Maradona cantou com os Queen e trocou camisola com Freddie Mercury até às visitas do já veterano Di Stefano a Lisboa. Rui Miguel Tovar conta histórias de três grandes jogadores da Argentina, que hoje joga contra a Inglaterra na meia-final do Mundial
Começo com um pedido de desculpas. Dois, vá. O primeiro e o segundo. À ausência de textos aqui no site da CNN, junta-se o tom marcadamente pessoal. Hoje é dia de jogo grande, clássico mundial, e vem-me imediatamente à memória aquele 8 Março 1981, dia em que Argentina e Inglaterra se unem a driblar milhares de espectadores no palco improvisado do estádio do Vélez Sarsfield.
Quando cantam ‘Another One Bites The Dust’, a voz de Diego ecoa por toda a Buenos Aires: “Quero agradecer ao Freddie e aos Queen este momento, fizeram-me muito feliz’. Eis a ordem das músicas desse show de bola (e música).
1. Intro [Freddie aparece com uma t-shirt do Super-Homem]
2. We Will Rock You (fast)
3. Let Me Entertain You
4. Play The Game
5. Somebody To Love
6. Mustapha
7. Death On Two Legs
8. Killer Queen
9. I’m In Love With My Car
10. Get Down Make Love
11. Need Your Loving Tonight
12. Save Me
13. Now I’m Here
14. Dragon Attack
15. Now I’m Here (reprise)
16. Fat Bottomed Girls
17. Love Of My Life
18. Keep Yourself Alive
19. Instrumental Inferno
20. Flash’s Theme
21. The Hero
22. Crazy Little Thing Called Love
23. Bohemian Rhapsody
24. Tie Your Mother Down
25. Another One Bites The Dust [Maradona canta e encanta]
26. Sheer Heart Attack [Freddie aparece equipado à Argentina, n.º 10]
27. We Will Rock You
28. We Are The Champions
29. God Save The Queen
O tom marcadamente pessoal continua a correr-me nas veias, aviso. E porquê? Fácil, Argentina é o meu país preferido. Como turista, adepto da bola, amante de cafés e vibração citadina. Como se isso fosse pouco, a Argentina reúne três génios sem igual. O primeiro de todos é Alfredo Di Stéfano. Aliás, Don Alfredo. Único treinador a ganhar o campeonato argentino pelos dois maiores (Boca-1969, River-1981), único Bola de Ouro a treinar em Portugal (Sporting-1974), único a marcar em cinco finais da Taça dos Campeões (e seguidas!), único em muuuuuuitos mais registos. Até na arte de falar.
Sobre Cruijff, por exemplo: “Não é um avançado, mas marca golos; não é um defesa, mas raramente perde no um para um; não é um médio, mas joga para os companheiros.” Outra dele: “Os presidentes dos clubes devem falar pouco de futebol e entender-se com os bancos. Devem ser sérios, educados e tranquilos.” Mais uma: “Sempre digo aos jovens: o futebol é o pão de hoje e a fome de amanhã.” É um artista dentro e fora do campo, todos o admiram, com honra e glória.
Diz Eusébio, em 1999, a propósito da sua posição, a sétima, no Jubileu da UEFA – os 50 melhores da Europa nos últimos 50 anos: “Se eu tivesse sido eleito como primeiro desta lista, pegaria no troféu e ia oferecê-lo a Di Stéfano, porque ele foi o melhor de sempre. É mais velho do que eu e habituei-me a admirá-lo.”
O meu pai segue o mesmo guião. “Ele jogava com todas as partes do corpo, aquilo é que era um jogador completo. E recuava, roubava a bola ao adversário e iniciava um ataque. Às vezes, até o concluía com um golo. Garanto-te: um fenómeno sem igual!” Quando se cresce a ouvir falar de Di Stéfano como o indiscutível número um, é fácil absorvermos o ídolo. Mesmo sem nunca o ter visto em acção. E o resultado prático é este inquérito da revista Penthouse à minha pessoa, em 2012.
Quem é o melhor jogador de futebol de todos os tempos: Messi ou Pelé?
Alfredo di Stéfano
Porquê?
Porque o meu pai assim o diz. Porque o Eusébio assim o diz. E mais, muitos mais. Quem viu Di Stéfano, não o compara a Pelé nem a Messi.
Lembras-te do momento em que a tua decisão pelo Messi/Pelé se tornou óbvia? Algum lance que tenhas visto na televisão, algum golo, alguma finta que te tenha “empurrado” para o Messi/Pelé?
Okay, pelo que percebo da conversa estamos a insistir na condição de vice-rei do Di Stéfano. Muito bem. O Messi é mais fantástico, o Pelé é mais completo, até porque foi guarda-redes em quatro jogos oficiais (37 minutos, no total) e não sofreu qualquer golo!
Quais são os pontos fortes do teu eleito?
“Who is this man? He takes the ball from the goalkeeper; he tells the full-backs what to do; wherever he is on the field he is in position to take the ball; you can see his influence on everything that is happening... I had never seen such a complete footballer. It was as though he had set up his own command centre at the heart of the game. He was as strong as he was subtle. The combination of qualities was mesmerising.” Um Sir chamado Bobby Charlton a respeito de Di Stéfano.
E os fracos?
Pontos fracos do Di Stéfano? Essa é boa.
Achas que o Messi/Pelé (aquele que não escolheste) tem estatuto para disputar o título de melhor jogador de sempre?
Não brinquem comigo. Nem com o Eusébio. E muito menos com o meu pai.
Quem são os três melhores jogadores de sempre?
Outra vez? Alfredo (1), di (2) Stéfano (3).
Pois é, Di Stéfano. E agora? Fácil, obrigatório entrevistar o Di Stéfano. Sim, “o” porque já o conheço de ginjeira, tantas as vezes que ouço falar dele lá em casa. A ideia é engraçada e nem é preciso ir a Madrid. Basta um telefonema, afinal somos vizinhos. Portugal, Espanha, Lisboa, Madrid. Digo eu, inocentemente. O telefone é uma excelente invenção...
Boa tarde, é da casa do senhor Di Stéfano?
É, sim.
Posso falar com ele?
Espere só um minuto.
(...)
Sim, quem fala?
Sou Rui Miguel Tovar, jornalista do...
Não falo com jornalistas.
(...)
Completo a frase: o telefone é uma excelente invenção... se a pessoa do outro lado quiser participar na conversa. O interesse esmorece, mas não desaparece. É preciso criar um assunto para chegar à fala. Às tantas, lembro-me do português Jorge Mendonça, com quem Di Stéfano trava intensas e belas batalhas dentro de campo. Um no Atlético, o outro no Real. O telefone é uma excelente invenção, a sequela...
Boa tarde, é da casa do senhor Di Stéfano?
É, sim.
Posso falar com ele?
Espere só um minuto.
(...)
Sim, quem fala?
Sou Rui Miguel Tovar, jornalista do...
Não falo com jornalistas.
Espere, espere, só quero uma declaração sua sobre o Jorge Mendonça para um trabalho.
Do Jorge Mendonça?
O português do Atlético Madrid. Jogou consigo...
Se jogou! Fartava-se de nos marcar golos, uns cinco ou seis. Era una bestia [de bestial, entenda-se] e muy muy correcto. Os defesas atropelavam-no e ele continua impávido e sereno. Um senhor no trato. Encontrava-o às vezes em Madrid e sempre se dirigiu a mim de forma educadíssima. Se estivesse sentado, levanta-se. Se estivesse no outro lado da rua, saudava-me com alegria. Um señor. Já chega?
Só mais uma pergunta.
Bom, vá lá.
Quando é que a Argentina vai ganhar um Mundial?
Faltam sempre 10 cêntimos para completar um euro à grande maioria das selecções. Toda a vida foi assim. Esses 10 cêntimos são do povo. Na Argentina, somos primeiro da selecção.
E...
Não falo mais.
Di Stéfano, Don Alfredo. O homem, campeão de tudo e de alguma coisa, vive dois pesadelos com o Benfica. Um na final da Taça dos Campeões, 5:3 ao Real Madrid em 1962, e outro na Luz, 5:1 ao Real Madrid em 1965. O seu regresso à Luz é como treinador da equipa de veteranos do Real Madrid. Cabe-me a mim ser o enviado (especial?) do jornal Record ao Aeroporto da Portela para receber a malta do antigamente. É uma chuva de estrelas, entre Buyo, Chendo, Camacho, Martín Vázquez, Butragueño e por aí fora.
Quando vislumbro Di Stéfano, apresso o passo na sua direcção. E ele faz o mesmo... na direcção oposta. Às tantas, Di Stéfano entra no autocarro pela porta dos fundos. Sobe os degraus e desaparece da minha vista. Entro em modo malmequer, arrisco-não arrisco, arrisco-não arrisco, arrisco-não arrisco. Arrisco e também subo as escadas. Durante o movimento, olho para cima e sorrio para Di Stéfano, sentado na primeira cadeira. No quadradinho seguinte, sou escorraçado pela sua bengala. "?Quien és? !Vete vete, vete ya! Aquí no es tu lugar". Só rir (kind of).
No dia seguinte, jogo na Luz entre veteranos. Insisto na jogada, agora mais profissional, como jornalista, na sala de imprensa. Há perguntas de todo o género e eu, tímido, volto a entrar em modo malmequer. Pergunto-não pergunto, pergunto-não pergunto, pergunto-não pergunto. Pergunto, claro que sim. Levanto a mão, espero a minha vez e... 'Bom dia, senhor Alfredo di Stéfano, muito se fala do seu golo mais artístico, de calcanhar, num Bélgica-Espanha, em que não há imagens televisivas, só o esboço de um cartoonista de um jornal belga, assoberbado pelo seu gesto. Pode contar-nos como marcou esse golo?'
Não, não posso. Marquei muitos golos de calcanhar. Próxima pergunta.
Próximo. Jogador, digo eu. Més que un crack. Maradona, isso mesmo. Onde joga? Més que un clube. Barcelona, claro. O slogan é original, a ideia de contratar Diego nem por isso. Quando desponta no Argentinos Juniors, o dirigente catalão Joan Gaspart viaja até Buenos Aires para falar com clube e jogador. Nada feito, ninguém se quer desfazer do menino de ouro. Porque ainda é cedo para grandes voos. ‘Nem a família o queria ver ainda na Europa.’
Passam-se uns anos e Gaspart repete a visita, Diego já no Boca. Agora é para valer. ‘Quando chegámos a Buenos Aires, ninguém deu por nós. À medida que o tempo passa e o negócio ganha contornos mais reais que nunca, foi o fim do mundo. A polícia chegou a informar-nos, a mim e ao presidente Núñez, que tinham medo de um atentado. A verdade é que tivemos de ser escoltados até ao aeroporto dentro um tanque, sim um tanque, daqueles de guerra, no dia em que voltámos a Barcelona. Ao nosso lado, escolta de carros e motos. Deixaram-se à porta do avião, mesmo junto às escadas de embarque. E só saíram do local quando o avião começou a sua marcha. Nunca vi isso nem voltei a ver. Com o contrato assinado e o acordo divulgado, virámos vilões e a ideia generalizada era a de que íamos sacar um tesouro da Argentina.’
Diego em Barcelona, às ordens de Lattek. Ao seu lado, um craque alemão chamado Schuster. E outro dinamarquês, Simonsen de seu nome. Problema, a Liga espanhola só aceita dois estrangeiros por jogo. Simonsen vê a jogada com um insulto e pede a anulação do contrato. Meu dito, meu feito. Num movimento inesperado, vai jogar para a 2.ª divisão inglesa (Charlton), longe dos holofotes e da pressão. E acaba a carreira onde a começa, no Vejle, clube da sua terra natal. Com Maradona e Schuster, a ilusão do barcelonismo é imensa em recuperar o título de campeão perdido desde 1974, na primeira época de Cruijff.
Diego vai morar em Pedralbes, numa casa com três andares, dez quartos e um campo de ténis. A renda é de 450 contos. O início é inglório. Apanha uma febre alta e falha metade da pré-época, até à final do Teresa Herrera, na Corunha, onde o Dínamo Kiev dá um baile de todo o tamanho ao Barcelona com quatro golos em 38 minutos. Acaba 4-1, o festival. A estreia oficiosa é em Meppen, na Alemanha, a 20 km da fronteira holandesa, a 3 Agosto.
O primeiro golo da pré-época é precisamente de Diego, de penálti. O argentino elogia o espírito de grupo. ‘Os marcadores de penáltis são, por norma, Quini e Simonsen. No entanto, eles insistiram para que fosse eu o rematador, uma atitude que me emocionou.’ Três semanas depois, no dia 21, a estreia oficiosa em Espanha. Que não continental, e sim na ilha de Maiorca. Os lugares mais caros estão todos cheios, as clareiras do estádio notam-se é no peão. Diego joga de início e atira ao poste. Só isso.
Quatro dias depois, a estreia em Camp Nou, por ocasião do Joan Gamper, então um torneio quadrangular. Na ½ final, 0-0 vs Internacional e desempate por penáltis. Quini falha, Alexanco idem, Diego é o único do Barcelona a enganar o guarda-redes Benítez. Como consolação, o terceiro lugar? Nem isso, outra derrota nos penáltis. Diego volta a acertar o seu remate. Ainda a Liga está por arrancar e já o presidente Núñez desce ao balneário para o tradicional puxão de orelhas. Més que uma confusão. Sobre Diego, chovem críticas. ‘Não vos compreendo, juro; vocês podem criticar-me, porque valho oito milhões de dólares e tenho de fazer mais, muito mais, mas não critiquem constantemente os meus companheiros como se eles fossem os maus da fita’, diz o 10.
Na sua cabeça, os maus da fita nem jogam. Um é o presidente Núñez, ‘um tarado social, que se atira de cabeça para entrar em todas as fotografias e que nos oferece sempre mais dinheiro no intervalo dos jogos como se a vitória ou a derrota dependesse da guita. O outro é o treinador alemão Udo Lattek. O seu registo de treino é monocórdico, quase pré-histórico. A lenga-lenga de sempre, correr à volta do campo e levar bolas medicinais de oito quilos de uma baliza à outra. Uma vez, Diego atira-lhe a bola ao peito e diz-lhe ‘ouça mister, porque não faz isto uma vez para ver como se sente amanhã?’
Arranca a Liga, em Valencia. O Luis Casanova até estala. No meio-campo, Kempes abraça Diego para a fotografia. Aos 20 minutos, Diego marca o primeiro da noite numa jogada bonita de combinação com Marcos pela esquerda. O Valencia dá a volta, 2-1. O Barcelona cai, com estrondo. Diego é apupado por tudo e todos, imprensa incluída. ‘Maradona é um bluff, uma invenção dos argentinos.’ A meio da semana, o Barcelona desloca-se a Florença para ganhar oito milhões de pesetas pela presença de Diego. É o preço da fama, já exercido sobre outras figuras do passado, como Pelé e Eusébio.
Há que esmifrar a galinha dos ovos de ouro. Com Diego, idem idem aspas aspas. Jogam dez suplentes mais Diego, acaba 0-0. No regresso a casa, a delegação do Barcelona passa o dia todo em aeroportos. Organizações limão é o que é. Diego começa a impacientar-se. Tal como Núñez, farto de ouvir falar das noitadas do argentino, ora em discotecas, ora em concertos. Diego nem sequer se esconde. Pregunta-lhe sobre Nuñéz. ‘Não quero saber, ele não pode controlar a minha vida privada’.
Numa dessas escapadas, Diego é visto em Viseu. Ya, na capital das rotundas em Portugal. Uauuuuuuu. Nem mais. Repetimo-nos, uauuuuuuu. É a cerimónia da entrega dos prémios Gandula, organizada pelo jornalista Wilson Brasil, radicado em Portugal há anos e jornalista da Gazeta dos Desportos. Há vários convidados de gabarito, como José Maria Pedroto, João Rocha, António Garrido, Fernando Gomes, Octávio Machado, Reinaldo, Mário Jorge e por aí fora.
De repente, perto da meia-noite, surge um carro. Abre-se a porta e sai Diego. Insistimos, uauuuuuuuuuu. È seguramente o mais ilustre visitante dessa Feira de São Mateus. Às três da manhã, dá entrada no Hotel Grão-Vasco, onde fala à revista ‘Olá Viseu’
- O que fez deslocar-se a Viseu quando outros se recusam a vir?
- É meu costume contribuir com a minha presença para o êxito de todas as realizações do género, pois considero que, através dela, posso dar uma achega para a sua continuidade. Espero voltar em breve para conhecer melhor a cidade, porque hoje não deu tempo nenhum.
- Aceitaria um convite para jogar em Portugal?
- Sim, já existem clubes de bom cartel, só que tenho contrato com o Barcelona por seis anos.
- Acredita na Argentina para o próximo Mundial?
- A Argentina tem uma equipa tão boa como as melhores, o que lhe dá as mesmas possibilidades. Acredito que será campeã mundial em 1986.
- É do conhecimento geral que adiou a data do seu casamento pelo facto da imprensa ter tomado conhecimento antecipado da sua realização. É possível saber para que data está marcado?
- Neste momento, ainda não tenho data. Logo que seja acordada com a minha noiva, comunicá-lo-ei à imprensa.
- O que sente quando marca um golo?
- Considero-o como se fosse o melhor de toda a minha carreira. É como se fosse o meu primeiro golo.
Golo, palavra-chave do futebol. E também do jornalismo. Quando me aventuro a acompanhar na Argentina a Copa América-2011 de fio a pavio, nunca me imagino a falar com Lionel Messi. É o nosso terceiro homem. Estamos em La Plata, zona de praia perto de Buenos Aires. São agora 23 horas e 58 minutos do dia 1 de Julho de 2011. Significa isto que o nosso relógio está parado. Huummm, aqui há gato.
Bom, a Argentina acaba de empatar 1:1 com a Bolívia, no jogo de estreia da Copa, e a selecção é despachada do estádio com uma valente assobiadela. O povo não está com os jogadores. O namoro dura, quanto muito, o hino nacional. Depois... depois é um completo desatino. Quando a bola começa a rolar, há desencanto, assobios, críticas e cânticos. Como este “Movete Argentina movete/movete y dejá de joder/que esta hinchada está loca/hoy no podemos perder”. Há gritos de recriminação para todos. Incluindo Messi.
Mas o Messi é o melhor jogador do mundo, não é?
É.
Portanto devia ser proibido assobiá-lo ao primeiro empate?
Exacto.
Mas eu poderia fazê-lo?
Podia.
E o que é que me acontecia?
Nada.
Mas estava a ir contra a lógica?
Estava.
E como é que a lógica me punia?
De maneira nenhuma.
Isso não é um bocadinho incoerente?
Psssssstttt. O Messi é o melhor do mundo mas pode-se assobiá-lo. Mas devia ser proibido. Mas pode-se assobiá-lo. Só que devia ser proibido. O que é que acontece a quem o faz? Nada. Devia ser proibido, mas pode-se fazer. Só que devia ser proibido.
Na zona mista do estádio, os jornalistas argentinos é que mandam. Uns bebem mate (um dia ainda vou perceber como se faz e como se bebe; um dia...), outros falam ao telemóvel e há os que estão colados à porta de saída dos jogadores, com os olhos esbugalhados. E eis que eles saem. Os jogadores, não os olhos. Por favooooooor. Os jornalistas mexem-se rapidamente e começam a tratá-los pelos apelidos. É comum ouvir-se coisas desconcertantes como “Cuchu, o que achaste do empate?”, “Hey Pupi, como vai ser com a Colômbia?”, “Pintita, a Bolívia mereceu o empate?“ ou “Checho, o Kun é titular no próximo jogo?”
É assim o trato dos jornalistas com a selecção argentina. Não há cá Cambiasso, Zanetti, Gago, Batista ou Agüero. Todos têm uma alcunha. Na esmagadora maioria dos casos, desde a infância. Todos? Não. Ninguém trata Messi por Pulga. Ou é Leo ou Messi. E ele fala com toda a gente. Com aquele ar distraído, claro, mas fala. Com pressa, óbvio, mas fala. Ok, estamos diante do melhor jogador do mundo e não lhe queremos perguntar nada sobre Barcelona, Real Madrid, Pepe, Cristiano Ronaldo e os objectivos da Argentina para esta Copa América. Ora bem, noves fora nada... e só nos ocorrem perguntas sobre 2007. Nós explicamos.
Na última Copa América, o Coco [hãã, já aprendi: é o Alfio Basile, seleccionador argentino em 2007] disse que tu ficavas mais tempo no treino a praticar livres directos. Continua a ser assim?
Enquanto eu jogar, tenho de treinar muito para chegar ao nível dos melhores. Em 2007, eu e o Coco entendemos que podia estender um pouco mais os treinos para praticar.
Essa Copa doeu-te, porque a Argentina parecia a favorita perante um Brasil C e depois deu-se aquele golpe de teatro, com 3:0 na final?
Foi uma decepção, claro. O Brasil ganhou-nos bem, embora nós estivéssemos estado muito bem em toda a Copa. O grupo era óptimo, unido. Estava Riquelme e Verón, com quem ainda troco muitas mensagens. Havia o Tevez, com quem dividia o quarto. Ele é ordenado como eu e gostamos das mesmas músicas. Por isso, o som estava sempre alto.
Pelo que li nessa altura, não só o som. O Coco não vos interrompeu um jogo de futevólei?
Pero... tu quien eres? [Messi olha para a minha cara, depois para a minha credencial, diz Portugal] Pffff. Há um dia em que o Abbondanzieri e o Verón passam pelo nosso quarto e ouvem o barulho de uma bola. Entram lá dentro e improvisamos um futevólei. Puxamos as camas para aqui, para ali. Eu e o Verón ganhámos o primeiro set. Quando íamos começar o segundo, Coco abriu-nos a porta e pediu-nos silêncio. Ao que parece, o barulho da bola e as nossas gargalhadas estavam a incomodar a siesta dele.
Lembro-me de fotografias das agências com vocês, jogadores, na piscina do hotel com adeptos a pedirem-vos autógrafos lá dentro?
Sim, sim [risos tímidos], uma loucura. Mas houve mais. O Bobadilla, guarda-redes paraguaio, disse-me que um dia tinha de ir lá a casa dele para conhecer o filho, que é um tremendo fã meu. São “recuerdos” inesquecíveis.
E organizaste o torneio Winning Eleven, da PlayStation?
Bueno, organizar não será o termo correcto. Ganhei, isso sim. O Lucho [González, então no FC Porto] era o adversário mais perigoso. A nossa eliminatória estava empatada 1-1 mas depois... [e sorri]
E qual é o melhor Messi: o virtual ou o real?
Naquela PlayStation, o Messi é muito rápido, difícil de agarrar. Mas quando esse Messi falha um golo, digo muitas asneiras.
O Messi do Barcelona ou o da Argentina?
Do Barça.
Aquele clube mudou-te a vida, não foi?
Simmmmm, cresci muito. Pessoal e futebolisticamente.
Quando lá chegaste, quem era a referência no ataque?
Tive a sorte de encontrar o Ronaldo [fenómeno]. Um avançado estupendo pela forma como definia, pela velocidade e pela técnica.
E quando chegaste à equipa principal, quem foram as tuas referências?
Tinham chegado Riquelme e Saviola. E havia estrelas como Ronaldinho, Deco, Motta e Sylvinho, que me ajudaram bastante. O Deco, por exemplo, levava-me a cortar o cabelo, a comprar sapatos. Todos cuidavam muito bem de mim. Eu só tinha 16 anos.
