Rui Santos chama a atenção para as declarações de Lothar Matthäus, ex-campeão do Mundo, após a eliminação da Alemanha e reconhece que ele pode ter alguma razão sobre a… perda de foco na competição
Lothar Matthäus, que foi um dos jogadores mais proeminentes de sempre do futebol alemão (o mais internacional, com 150 presenças na seleção germânica), campeão do Mundo em 1990, em Itália, após a vitória por 1-0 na final frente à Argentina, “Bola de Ouro” nesse ano e tendo marcado presença em 5 (!) Mundiais, não se calou após a eliminação desta “Alemanha de Nagelsmann”, versão 2026, e talvez tenha colocado o dedo na ferida, quando disse que a presença das mulheres, filhos e outros familiares desde o início da prova retirou o foco aos jogadores.
Matthäus afirmou que alguns atletas pareciam estar mais preocupados com a organização da estadia dos familiares do que com a preparação dos jogos. Não teve meias-tintas e acrescentou que terão existido discussões internas relacionadas com viagens, hotéis e todas as questão associadas à logística das mulheres e das respectivas estruturas familiares.
O que Lothar Matthäus quis dizer é que a Alemanha, no seu todo, não esteve totalmente concentrada na competição e a ideia que deixou passar, em cima da realidade, é que esteve “de férias” neste Mundial, com os jogadores concentrados em questões laterais e não propriamente em competir, como devia.
O ex-campeão do Mundo defendia que as famílias só deveriam juntar-se à equipa a partir dos quartos-de-final ou até mais à frente, porque nessa fase da prova a sua presença poderia ter um efeito positivo, quando a concentração já estivesse consolidada. Recordou uma experiência vivida em 1994 e que, como “capitão”, aconselhou a regras mais restritivas.
O futebol mudou muito nos últimos tempos, há coisas que hoje são consentidas e que no passado não eram toleradas, mas esta crítica de Lothar Matthäus obriga-nos a reflectir sobre qual deve ser o modelo adequado para que os jogadores, sejam de que seleção for, não retirem o foco e a concentração do essencial e, às vezes, o excesso de relaxamento toma conta das equipas e afecta o respectivo rendimento.
A alta competição não se compadece com distrações diversas e acredito que este possa ser um factor difícil de gerir por parte dos treinadores.
É tudo muito fácil, há dinheiro a mais e talvez por isso vemos seleções menos cotadas a conseguirem algumas surpresas perante seleções com outros recursos e potencial.
E depois há os bitaites, as críticas às críticas, as fotos e os vídeos, a passagem de modelos, as malas e as pinturas e os atributos físicos a causar esse tipo de distração. Os adeptos podem gostar de ver, há muito consumo nas redes sociais mas o equilíbrio deve estar na base de tudo.
A presença das mulheres e das namoradas dos jogadores pode ter, até, um efeito positivo, mas neste aspecto estou com Lothar Matthäus: presença controlada, selectiva, discreta, o que não sei se é compatível com os tempos em que vivemos, marcados pela ausência de lideranças indiscutíveis: hoje em dia quanto mais “porreiro”… melhor. Tudo muito fácil, tudo muito… desportivo, com dinheiro a rodos a entrar nos cofres da FIFA e a ser distribuído generosamente por quem faz esta roda girar.
