Portugal-Gana: memórias de 2014 e a «ansiedade» da estreia no Mundial

23 nov, 23:52
Portugal vs Gana (EPA)

Que é feito dos jogadores que integraram a seleção no Brasil e como se viveu aquela vitória amarga, pelo olhar de quem lá esteve. Ainda as dificuldades de Portugal com o jogo de abertura, os alertas que já chegaram do Qatar e a diferença desta seleção

Portugal dá esta tarde (16h00) o pontapé de saída na sua oitava presença no Campeonato do Mundo. É um reencontro com o Gana, que defrontou em 2014, à procura de contrariar uma tendência: a seleção não venceu os últimos três jogos de estreia no Mundial.

Nessas três ocasiões, só em 2014 Portugal não conseguiu passar a fase de grupos e a despedida aconteceu precisamente frente ao Gana. O mal estava feito para trás. Começou na derrota na estreia frente à Alemanha (4-0), quando Portugal teve Pepe expulso e ainda perdeu por lesão Fábio Coentrão – que voltaria mesmo para casa com o Mundial a decorrer – além de Hugo Almeida e Rui Patrício. Ao segundo jogo, com os Estados Unidos, com mais duas baixas por lesão – Éder e André Almeida -, um golo de Varela salvou nos últimos minutos um empate, evitando a eliminação logo aí. Para o terceiro jogo, a seleção precisava de vencer o Gana, esperar que a Alemanha ganhasse aos Estados Unidos e anular uma desvantagem de cinco golos para os norte-americanos. Venceu por 2-1 e voltou para casa.

Foi um triunfo amargo, como recorda Miguel Veloso, que estava em campo nessa partida no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. «Era um jogo decisivo para nós. Tentámos tudo por tudo, mas infelizmente as coisas não correram como a gente queria», diz ao Maisfutebol o atual jogador do Hellas Verona, que depois da baixa de Coentrão passou a jogou no lado esquerdo da defesa e fez nessa partida o cruzamento que resultaria no primeiro golo do jogo, um autogolo de John Boye.

«Obviamente queríamos fazer o nosso melhor e queríamos passar, mas era uma tarefa difícil», recorda Veloso: «Falo por mim. Estava um pouco ansioso porque queria dar o meu melhor e ajudar a seleção a alcançar o objetivo, que era passar o grupo. Mas infelizmente não correu da melhor maneira.» O médio admite também que os muitos contratempos afetaram a equipa nesse Mundial. «É obvio que influencia o espírito de grupo. Influencia tudo, porque obviamente não queremos que nenhum dos nossos se lesione, ou que aconteça alguma coisa de grave. De certa forma afetou-nos um pouco. Não é uma desculpa, mas a realidade é essa.»

Seleção tem quatro «sobreviventes» do Portugal-Gana no Qatar

A seleção que Paulo Bento tinha levado ao Brasil era a mais velha de sempre de Portugal num Mundial. Mas, oito anos e meio depois, Fernando Santos ainda conta no Qatar com quatro jogadores daquele grupo: Rui Patrício, Pepe, William Carvalho e Cristiano Ronaldo. Pode ver aqui o que é feito dos jogadores que representaram Portugal naquele duelo de Brasília. Com circunstâncias diversas para todos, a começar pelo desempregado Ronaldo. E há ainda a ironia de Paulo Bento, o selecionador de Portugal no Brasil, estar no Qatar ao comando da Coreia do Sul e ser adversário da seleção nacional na última jornada da fase de grupos. O Gana, que teve uma passagem conflituosa por aquele Mundial, com um diferendo relativo aos prémios dos jogadores, só tinha 21 jogadores na ficha de jogo, porque Muntari e Boateng tinham sido expulsos da seleção. No Qatar só estão dois jogadores que jogaram aquele Mundial pelo Gana, os irmãos Ayew. O selecionador Otto Addo apostou em caras novas, naquela que é a seleção com média de idades mais baixa do Mundial, 24.7 anos, e que inclui o sportinguista Fatawu, o quinto jogador mais jovem no Qatar.

A diferença com Fernando Santos

Miguel Veloso continua a jogar, aos 36 anos. E não sabe quando parará. «Enquanto sentir competitividade dentro de mim, que é aquilo que me leva a treinar todos os dias e poder melhorar, continuarei a jogar até não me quererem», sorri. Do Euro 2008 ao Mundial 2014, o médio integrou várias gerações na seleção nacional. Somou 56 jogos e ainda fez parte do grupo no início do consulado de Fernando Santos. Desde então Portugal foi campeão europeu e venceu uma Liga das Nações, somando pelo meio resultados aquém das expectativas, desde logo no Mundial 2018 e no Euro 2020, quando foi eliminado nos oitavos de final. Somando tudo, Miguel Veloso defende que Fernando Santos trouxe algo à seleção que fez a diferença.

«Portugal conseguiu ganhar o título europeu e na minha opinião o mérito é todo do mister Fernando Santos. Apesar de todas as críticas que ultimamente tem vindo a receber, até porque nós sabemos que no futebol tudo se esquece muito rápido. Mas penso que a diferença é o ambiente que o mister Fernando Santos conseguiu criar na seleção», observa: «Eu tive oportunidade depois de voltar a alguns jogos na seleção e penso que a coisa mais importante foi exatamente o espírito de grupo, o espírito de família e de rumar todos para o mesmo sentido, porque a única coisa importante é o grupo.»

«Digam-me um Europeu ou um Mundial em que não se fala do Ronaldo»

A isso, continua, junta-se muita qualidade na seleção atual: «Portugal nestes últimos anos tem vindo a acrescentar mais ainda a nível de talento, tem jogadores muito fortes.» E continua a ter Cristiano Ronaldo, a constante nestes anos todos. Isso não mudou. Tal como o ruído em volta do capitão, diz Miguel Veloso.

A situação de Cristiano Ronaldo, que levou à rescisão com o Manchester United, tem dominado a atualidade em volta da seleção. Mas o médio diz que não é assim tão diferente doutras grandes competições. «Digam-me um Europeu ou um Mundial em que não se fala do Cristiano Ronaldo. Nós sabemos o jogador que é, a dimensão da pessoa que é, por isso do meu ponto de vista não é muito diferente. Obviamente que se calhar cada ano fala-se de uma coisa diferente, mas não há nenhum Mundial ou Europeu que não se fale do Cristiano Ronaldo», afirma. «Até ao momento em que ele continuar a jogar, até ao último dia, sempre se irá falar. Estamos a falar de um jogador que fez história no futebol, um jogador importantíssimo, portanto penso que este ano não é diferente dos outros.»

Isso não prejudicou o grupo noutras ocasiões, na sua opinião: «Não afeta o grupo por nada. Penso que dá ainda um pouco mais força. Porque ter um grupo coeso e ver que algum dos nossos está a ser atacado ou a ser falado dá-nos mais força ainda para poder ajudar esse colega. Penso que não iá afetar a seleção, pelo que tenho visto de fora penso que o grupo é muito coeso.»

A barreira do jogo de estreia

Vem aí a estreia no Qatar, um jogo que tem sido uma barreira para Portugal. Em 2010, a campanha começou com um nulo frente à Costa do Marfim. Quatro anos mais tarde foi o embate com a Alemanha, que arrancava ali a caminhada até ao titulo mundial. Em 2018 a estreia foi um empate que até teve um tom épico frente à Espanha (3-3), com um hat-trick de Cristiano Ronaldo.

O primeiro jogo é particularmente complicado, admite Miguel Veloso, que além de 2014 esteve também no Mundial 2010, onde assistiu do banco ao empate com a Costa do Marfim. «Não é questão de ser o jogo mais difícil, é questão da ansiedade, do querer fazer o melhor, de querer não errar. Então obviamente que o nervosismo acaba de certa forma por afetar. Mas é só até entrar em campo. Depois, quando a bola começa a rolar, tudo passa. Mas até chegar o momento em que a bola começa a rolar, o nervosismo e a ansiedade tocam-te um pouco», afirma. O resultado, depois, depende de muitos outros fatores, acrescenta: «Com a Alemanha até entrámos bem, depois infelizmente passámos a jogar com 10 e as coisas tornaram-se bastante difíceis.»

A forma como se começa, acrescenta, pode ter muita influência na confiança da equipa. Um mau arranque pode colocar muita coisa em dúvida, diz Miguel Veloso, dando os exemplos das favoritas surpreendidas na primeira ronda, como Argentina ou Alemanha: «É como temos visto mos primeiros jogos neste Mundial. Não quer dizer que esteja tudo acabado, ainda faltam outros dois jogos, mas é sempre importante entrar bem, porque depois também ajuda a nível de confiança e de grupo.»

Miguel Veloso acredita que a seleção nacional não se deixará afetar pela ansiedade quando entrar em campo nesta quinta-feira no Estádio 974. Além disso, acrescenta, os resultados-choque a que já se assistiu no Qatar são mais uma chamada de atenção. «Amanhã obviamente que há um pouco de nervosismo, porque tenho a certeza que todos querem fazer o seu melhor, mas tenho a certeza que Portugal irá entrar bem», diz: «Ainda agora o Japão ganhou à Alemanha e não se pode subestimar nenhum adversário. De certa forma estes resultados que aconteceram até hoje são bons para nós, no sentido de um alerta. Acho que Portugal não vai facilitar e penso que o grupo irá fazer uma excelente campanha.»

Fernando Santos e Cristiano Ronaldo têm dado voz à ambição de chegar ao título mundial. Veloso diz que o primeiro objetivo é a primeira fase. «Estou convicto que Portugal irá passar o grupo, mas é preciso não subestimar nenhum adversário. E penso que com o staff que Portugal tem, as condições, com o potencial que cada jogador tem individualmente e com a equipa que tem, é correto ambicionar chegar o mais longe possível. O mais importante, e é isso que Portugal pensa, é pensar em passar a fase de grupos e depois é jogo a jogo.»

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