opinião
Editora Digital CNN Portugal

Hoje sinto-me Morgan Freeman, sinto-me presidente da FIFA e sinto-me emir do Catar

20 nov, 19:20
Cerimónia de abertura. Foto: Getty Images

O Mundial arrancou este domingo e quem viu a cerimónia de abertura ficou a conhecer um país que não existe. De todas as coisas que ouvi neste primeiro dia, "queremos cerveja" foi a única que me convenceu.

“O futebol une as nações e junta o mundo”. Quem o diz é Morgan Freeman, mas também é o emir do Catar ou o presidente da FIFA: todos com o mesmo discurso, para nos convencer que este é, afinal, um país diferente do que tínhamos ouvido dizer.

A mensagem principal durante a cerimónia de abertura foi evidente: inclusão, inclusão, inclusão. Um ator afro-americano a estender a mão a um jovem catari, portador de uma doença rara, numa espécie de “A Criação de Adão”, de Miguel Ângelo, como se o teto do Estádio Al-Bayt não tivesse sido construído à custa de imigrantes explorados ou mortos.

Pela voz de Morgan Freeman - aquela voz pausada, forte, séria, que nos faz acreditar em milagres - não ouvimos, obviamente, falar deles. O ator, que já fez de Deus e de Mandela, parece que agora optou por fazer de crente.

E, para quem acredita nesta história, ela também foi contada em árabe, por Ghanim al Muftah, um conhecido empreendedor catari que sofre de síndrome de regressão caudal: “Todos são bem-vindos”. Porque, durante um mês, o Catar precisa de todos.

Ainda assim, bastava olhar para a tribuna principal do estádio para perceber que a inclusão depende, afinal, do ponto de vista.

As principais figuras da organização deste Mundial e do Catar são homens.

“Pessoas de diferentes raças, nacionalidades e orientações são todas bem-vindas ao Catar. Que bonito é ter as pessoas juntas e não divididas para celebrar a diversidade”, repetiu o emir Tamim bin Hamad al-Tani. Muito se falou em "união" em torno do futebol, "tolerância", "sem discriminações": de tanto ouvirmos estas palavras, parece que, afinal, são os próprios que estão a tentar convencer-se de que são verdade.

Palavras que já tínhamos ouvido noutras alturas, até este sábado, quando o presidente da FIFA demorou cerca de uma hora a impingir em conferência de imprensa que devíamos "pedir desculpa antes de começar a dar lições de moral a alguém", defendendo a todo o custo o país-organizador.

"Hoje sinto-me catari. Sinto-me árabe. Sinto-me africano. Sinto-me gay. Sinto-me deficiente. Hoje, sinto-me como um trabalhador migrante", disse, sem perceber que, só ao fazê-lo, está a esconder a dor que essas pessoas carregam (no Catar e em todo o mundo).

E continuou: "Eu sei o que é ser discriminado e vítima de bullying por ser estrangeiro noutro país. Em criança também fui gozado por ser ruivo e ter sardas". Infantino quer a nossa empatia - e até me comoveu com as sardas! -, mas esta foi-se no dia em que a FIFA se vendeu.

Da cerimónia não há muito mais a dizer, a não ser que contou também com um cantor sul-coreano, Jung-kook, membro dos BTS, ao lado de outro catari, Fahad Al Kubaisi, com o tema "Dreamers". Sonhadores, claro, ao contrário dos vários artistas que não aceitaram viajar até este pesadelo.

"Queremos cerveja"

Felizmente, o dinheiro ainda não compra tudo no futebol e, em campo, o Equador mostrou claramente a sua superioridade frente ao Catar. Valencia marcou dois golos, até tinha ido ao terceiro mas o VAR apanhou-o fora de jogo, e o primeiro jogo do Mundial de 2022 trouxe o primeiro país organizador a perder um jogo inaugural. Porque, se ainda duvidamos que “o futebol une as nações e junta o mundo”, pelo menos temos a certeza que a bola ainda sabe ser justa.

Enquanto isso, nas bancadas, os equatorianos cantavam "Queremos cerveja, queremos cerveja". Não haja dúvidas: podem contratar todos os artistas, podem falar todos os responsáveis, que os adeptos ainda sabem quais são os seus direitos humanos básicos.

Relacionados

Opinião

Mais Opinião

Patrocinados