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Hoje é feriado, (inserir palavrão em arábe)!

22 nov, 17:55
Argentina-Arábia Saudita. Foto: AP

Temos falado tanto de direitos humanos, que hoje a Arábia Saudita decidiu censurar-nos. Apenas com futebol

Argentina, berço de Quino, Astor Piazzolla, Maradona e Che Guevara. Argentina, das Pampas à Patagónia, da boa carne e do melhor tango. Argentina, campeã do mundo, favorita de tantos. Argentina, albiceleste, com milhares nas bancadas com os braços estendidos e aquele som que leva um pouco de Bombonera e Monumental ao Catar. Argentina, a Argentina de Messi, a última Argentina com Messi. Argentina, presta bem atenção: isto não chega.

Num Mundial em que falámos tanto de outros assuntos, o futebol decidiu mostrar-se, dentro das quatro linhas, onde o mais forte tem mesmo de ser mais forte para derrotar o mais fraco. Grande parte da beleza disto está aqui, aliás. Não chega ser a Argentina, não chega ser favorita, não chega ter Messi.

Não chega começar a ganhar, não chega aparecer na cara do guarda-redes e marcar, em fora de jogo, uma, duas e três vezes. Não chega dar-nos aquela ideia de que vai ser só mais uma manhã de Mundial, uma manhã cinzenta e chuvosa por cá, sem nada de grande interesse a passar-se além da Argentina de Messi.

Adepto argentino sozinho na bancada, no final do jogo. Foto: AP

Mas isto do futebol também tem piada por causa do que aconteceu a seguir: numa segunda parte inesperada, provavelmente irrepetível, a Arábia Saudita reescreveu a história que tínhamos preparado para ela. Primeiro, por Saleh Al Shehri (aguardávamos todos pelo dia em que um ex-jogador do Mafra e do Beira-Mar tivesse este protagonismo num Mundial); depois, por Salem Al Dwasari, num daqueles momentos que convém emoldurar já e mostrar daqui a muitos anos aos netos: "Olhem aqui o avô, a marcar este golaço à Argentina, a Argentina do Messi!, num Campeonato do Mundo!", enquanto eles reviram os olhos com o desinteresse habitual das novas gerações.

A Argentina, afinal, é um comum mortal como nós. É uma equipa com as suas fragilidades, que não soube responder a esta surpresa, é uma seleção que vai ter de lutar muito nos próximos dois jogos pela qualificação para os oitavos de final. E a Arábia Saudita, não se esqueçam da Arábia Saudita a partir de agora, está tão em festa neste momento que até o rei decretou feriado. Sim, o sonho de Éder finalmente realizou-se! 

Parabéns, então, à Arábia Saudita, mesmo que a festa também seja do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, que recentemente soube que não irá ser julgado pela morte do jornalista Jamal Khashoggi devido a... imunidade diplomática. Mas enfim, já dizia o Presidente, esqueçamos isso. Porque os jogadores sauditas em campo souberam ser melhores do que a Argentina, e é deles esta vitória que nunca irão esquecer. Se hoje, por um bocadinho, nos concentrarmos apenas e só no futebol, lembrem-se que não chega estender uma passadeira e ser o melhor do mundo. Convém jogar.

AP Photo/Natacha Pisarenko

 

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