Irão-Estados Unidos: a política em campo, mais ainda do que há 24 anos

29 nov 2022, 09:15
EUA-Irão no Mundial 98

As seleções dos dois países que alimentam uma hostilidade de décadas defrontam-se num duelo decisivo, num contexto de enorme tensão. Em 1998 houve muito trabalho de bastidores e o jogo acabou por ser um exemplo de cordialidade. Como será em 2022?

Irão e Estados Unidos encontram-se em campo nesta terça-feira para um confronto que tem o apuramento no Mundial 2022 em jogo e vai muito para lá disso fora de campo. Também foi assim há 24 anos e, no meio da dimensão política, esse duelo de Lyon acabou por ser um exemplo de cordialidade. Desta vez, as circunstâncias em volta do confronto entre as seleções de dois países que alimentam uma hostilidade de décadas são de muito maior tensão.

Muita coisa mudou desde 1998 e também desde abril deste ano, quando o sorteio do Mundial do Qatar marcou este encontro. A morte da jovem Mahsa Amini em setembro, depois de ter sido detida por uso «incorreto» do véu islâmico, desencadeou uma onda de protestos que levou milhares às ruas. A repressão do regime teocrático de Teerão já resultou em centenas de mortes e milhares de detidos, mas não deteve o movimento de contestação, a que o desporto não ficou indiferente. Muitos jogadores da seleção, entre eles o portista Mehdi Taremi, solidarizaram-se com aqueles que saíram à rua. Houve retaliações, antigos internacionais detidos e apelos à expulsão do Irão do Mundial, a que se associaram grandes nomes do futebol iraniano, entre eles o histórico avançado Ali Daei, que fazia parte da equipa no Mundial 1998.

Mas a «Team Melli» viajou para o Qatar. E assumiu uma posição histórica ao primeiro jogo, com a força do silêncio, quando os jogadores não cantaram o hino no jogo frente à Inglaterra.

Não se repetiu a tomada de posição no jogo seguinte, frente a Gales, mas nas bancadas muitos iranianos e iranianas prolongaram os protestos, simbolizados por exemplo na imagem de uma mulher a mostrar uma imagem de Mahsa Amini.

Dos protestos às jogadas políticas, a enorme pressão sobre as equipas

No meio de tudo, uma pressão mediática avassaladora sobre a equipa do Irão. Depois da pesada derrota com a Inglaterra na estreia (6-2), Carlos Queiroz falou sobre isso. «Os meus jogadores não estão no seu melhor em termos de concentração, pelos problemas que os rodeiam. Eles são seres humanos, têm filhos e têm um sonho, que é jogar pelo seu país», disse o treinador português que vai orientar o Irão no terceiro Mundial e que também acusou a pressão em várias ocasiões, nalgumas delas em tom agastado e desafiador. O treinador questionou sobretudo a insistência da imprensa inglesa, devolvendo perguntas como esta: «Porque é que não perguntam ao Southgate o que ele acha do facto de Inglaterra e os Estados Unidos terem saído do Afeganistão e deixado todas as mulheres sozinhas?»

Do lado dos Estados Unidos, jogadores e treinadores da seleção tentaram manter distanciamento em relação ao contexto político. Mas as perguntas sobre a situação no Irão foram recorrentes. A conferência de imprensa de dois jogadores neste domingo, já depois de o defesa Walker Zimmerman ter dito que a equipa «defende incondicionalmente os direitos das mulheres», terminou abruptamente, depois de um repórter iraniano que tinha demorado a ter oportunidade de intervir pedir «respeito» pela imprensa internacional.

O conflito diplomático acentuou-se face à posição assumida neste domingo pela Federação norte-americana, que publicou nas redes sociais uma bandeira do Irão sem o símbolo de Alá. A imagem, entretanto apagada, pretendeu ser uma forma de manifestar «apoio pelos direitos das mulheres», segundo a US Soccer. E desencadeou uma resposta irada das autoridades iranianas, que formalizaram um protesto junto da FIFA, enquanto a agência iraniana de notícias Tasnim News defendia mesmo a exclusão dos Estados Unidos do Mundial, alegando que tinham violado os princípios da FIFA de não ofensa à «dignidade ou integridade» de um país.

O selecionador Gregg Berg Berhalter disse na antevisão do jogo que a equipa foi surpreendida pela tomada de posição da Federação e pediu desculpa por aquilo a que chamou um «ato desrespeitoso». «Tudo o que podemos fazer é pedir desculpa em nome dos jogadores e da equipa técnica, mas não é algo em que tenhamos participado. Não fazíamos ideia do que a Federação tinha feito», afirmou: «Claro que os nossos pensamentos estão com o povo iraniano, com todo o país. Mas o nosso foco é o jogo.»

As jogadas políticas sucedem-se. Na véspera do jogo, as autoridades iranianas anunciaram a libertação de 700 detidos, ao abrigo de uma «ordem especial» que se seguiu à vitória do Irão sobre Gales na segunda jornada do Mundial.

A segurança, a transmissão televisiva controlada e as flores em 1998

Estados Unidos e Irão não têm relações diplomáticas desde a Revolução Islâmica de 1979, quatro décadas de um afastamento alimentado pela influência norte-americana no anterior regime iraniano, pela crise dos reféns na embaixada norte-americana de Teerão, pelo papel americano na guerra Irão-Iraque e nos conflitos no Médio Oriente, pela diabolização dos Estados Unidos, o «Grande Satã». O conflito passou por vários momentos. Aos sinais de alguma distensão, com o acordo para que o Irão reduzisse a sua produção nuclear em 2015, sob a presidência de Barack Obama, seguiu-se novo afastar de posições, quando a administração de Donald Trump rasgou esse tratado e repôs o embargo económico ao Irão.

Quando as duas equipas se defrontaram pela primeira vez num Mundial, em 1998, já lá estava o essencial deste contexto, mas a tensão era apesar de tudo menor do que nesta altura. E mesmo assim o jogo no Estádio Gerland, em Lyon, foi rodeado de um enorme dispositivo de segurança, com receio de um ato terrorista, e exigiu muita diplomacia nos bastidores. Mehrdad Masoudi, assessor de imprensa da FIFA naquele Mundial, contou à Four Four Two que os responsáveis pela transmissão televisiva tinham uma lista de potenciais «agitadores» e indicações para evitar mostrar mensagens de protesto nas imagens que o mundo iria ver. E revelou que em campo o protocolo teve de ser alterado, porque o Irão devia dirigir-se à equipa dos Estados Unidos para o cumprimento inicial, mas a equipa recebeu ordens do líder iraniano para não o fazer.

No fim de contas, o regime do Irão quis passar uma imagem positiva e os jogadores entraram em campo com ramos de flores brancas, símbolo de paz, que ofereceram aos adversários. E o árbitro Urs Meier até promoveu uma foto conjunta, com os jogadores de ambas as equipas misturadas.

Vários jogadores do Irão assumiram na altura a importância do jogo para o seu país, evocando nomeadamente as vítimas da guerra com o Iraque. «Muitas famílias de mártires estão à espera que vençamos», disse então o avançado Khodadad Azizi, recorda a revista Time.

O jogo contava para a segunda jornada da fase de grupos e acontecia depois de ambas as seleções terem perdido na estreia. Em campo, o Irão foi mais forte. Um golo de Estili aos 40 minutos e outro de Mahdavikia aos 84 garantiram a vantagem que seria decisiva. McBride ainda reduziu, aos 87m, mas o 2-1 final garantiu a primeira vitória de sempre do Irão num Mundial. Na última ronda, o Irão perdeu com a Alemanha (2-0) e os Estados Unidos foram derrotados pela Jugoslávia, despedindo-se do Mundial de França com três derrotas. As duas equipas acabaram eliminadas.

«Olhando para trás, devia ter usado o lado político»

O duelo a que tinham chamado «A Mãe de todos os jogos» foi em campo um jogo de paz. No final, os jogadores norte-americanos congratularam-se pela forma cordial como a partida decorreu. «Fizemos mais em 90 minutos do que os políticos em 20 anos», disse o defesa Jeff Agoos.

Mas aquela derrota que acabaria por mandar os Estados Unidos para casa foi difícil de digerir para muitos. Steve Sampson, o selecionador norte-americano naquele Mundial, disse à Time que se arrepende de não ter aproveitado em favor da equipa a carga política em torno do jogo. «A FIFA, a Federação e a organização do Mundial pediram-nos para garantir que se trataria apenas de futebol e não política. Eu alinhei com isso. Mas olhando para trás, devia ter usado o lado político. O trabalho de um treinador é usar todas as ferramentas disponíveis para trabalhar a equipa», afirma.

O atual selecionador parece concordar, pelo menos com a ideia de que em 1998 o Irão encontrou muito mais motivação do que os Estados Unidos e que aquela vontade de vencer, venha de onde vier, é um exemplo a seguir. «Aquele jogo continua na minha cabeça, queima-me na cabeça», disse esta segunda-feira Gregg Berhalter, quando só uma vitória garante aos Estados Unidos o apuramento: «O que vi desde o apito inicial foi uma equipa que queria realmente ganhar o jogo e uma que não queria vencer o jogo. Para ganharmos o jogo amanhã essa tem de ser a mentalidade do grupo. Não queremos cometer os erros do passado.»

Depois da vitória sobre Gales no segundo jogo, o Irão chega a este último jogo a precisar de uma vitória para se apurar, mas o empate pode chegar, dependendo do resultado entre Gales e Inglaterra. Embora admita que o confronto com os Estados Unidos é especial, Queiroz diz que o seu esforço se concentra em manter o foco no jogo, afastando toda a pressão em volta. «Tenho de concentrar a minha mente em preparar a equipa para jogar o melhor futebol que puder. Porque se a minha mente cair na armadilha de dar atenção e se deixar destruir por todas estas coisas, estou a mentir ao futebol», disse o treinador português: «Se ao fim de 42 anos neste jogo como treinador ainda achar que posso ganhar jogos com estes jogos mentais, acho que não aprendi nada sobre o jogo, e isso não é verdade.»

A meio de um Mundial que está a ser mediaticamente politizado como nenhum outro - pela questão do Irão, pela controvérsia em torno dos direitos humanos no Qatar, pelas tomadas de posição de várias seleções - Queiroz deixou ainda um desejo, na conferência de antevisão do jogo: «Espero que os eventos em torno deste Mundial sejam uma lição para todos nós no futuro, e que aprendamos que a nossa missão é promover entretenimento e fazer as pessoas felizes durante 90 minutos.»

Ninguém lhes facilitou a vida, mas uma vez mais está nas mãos das seleções de Irão e Estados Unidos tentar, como em 1998, voltar a fazer disto «apenas» um jogo.

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