Blatter e o Mundial 2022: «A escolha do Qatar foi um erro»

8 nov, 09:33
Joseph Blatter (Ti-Press/Alessandro Crinari/Keystone via AP)

Antigo presidente da FIFA diz que o país é muito pequeno. «O futebol e o Mundial são grandes demais para isso». Plano era levar a prova aos Estados Unidos este ano, depois da Rússia, em 2018

O antigo presidente da FIFA, Joseph Blatter, afirmou que a escolha do Qatar para a organização do Mundial 2022 «foi um erro».

«O futebol e o Mundial são grandes demais para isso», referiu o antigo dirigente, presidente da FIFA na altura da votação para a atribuição do Mundial deste ano, em entrevista ao grupo de media suíço Tamedia, na segunda-feira.

«Foi uma escolha errada e eu era responsável por isso, como presidente da FIFA, na altura», disse ainda Blatter, de 86 anos, que explicou agora que o plano de origem era atribuir o Mundial 2018 à Rússia – tal como ali se realizou – e, em 2022, realizar-se nos Estados Unidos.

«Teria sido um gesto de paz se esses dois adversários políticos tivessem organizado o Mundial um depois do outro», declarou.

 

Blatter tinha defendido, ainda antes da decisão, que estava na altura de o Mundial ir para um país árabe. Depois da atribuição do Mundial 2018 à Rússia, ao fim de duas rondas, com 13 dos 22 votos possíveis, a votação para a organização da edição que começa este mês no Qatar teve quatro rondas de votação e acabou por ditar a eleição daquele país, com 14 votos, à frente dos Estados Unidos, com oito.

As suspeitas de corrupção da atribuição do Mundial 2022 ao Qatar surgiram cedo, revelando uma complexa teia global de troca de interesses e benefícios. Em 2011, o presidente da Confederação Asiática, o qatari Mohammed bin Hammam, foi banido pela FIFA, acusado de tentar comprar votos para a sua candidatura à presidência do organismo. Foi o primeiro membro daquele Comité Executivo formalmente sancionado.

O próprio Joseph Blatter referiu-se a «influências políticas» na decisão do Mundial 2022 realizar-se no Qatar, tendo dito mesmo, em 2013, tal como agora, que a atribuição do Mundial a este país fora um «erro», devido às condições climatéricas.

Na mesma entrevista dada aos meios suíços, na segunda-feira, Blatter, que foi presidente da FIFA até final de 2015, falou do francês Michel Platini (presidente da UEFA de 2007 a 2015), com quem trabalhou de perto e que também acabou visado pela justiça. Recorde-se que houve, ao longo dos últimos anos, várias investigações à corrupção associada a dirigentes do futebol internacional - algumas ainda em curso - sendo que, numa delas, Blatter e Platini foram absolvidos em julho, por não ter sido dado como provado o pagamento de 1,8 milhões de euros do antigo presidente da FIFA ao da UEFA.

«Uma semana antes do congresso da FIFA de 2010, Platini ligou-me para dizer que o nosso plano não ia funcionar. Ele foi convidado para ir ao palácio do presidente Sarkozy, que tinha acabado de almoçar com o príncipe herdeiro do Qatar», referiu, tendo Sarkozy - que começou a ser dado como envolvido no processo em 2013, pelo jornal France Football - dito a Platini: «Veja o que pode fazer, com os seus colegas da UEFA, pelo Qatar, quando o Mundial foi atribuído».

Blatter disse que perguntou o que fazer a partir dali, ao que Platini respondeu. «"Sepp, o que é que faria se o seu presidente lhe pedisse alguma coisa?". Disse-lhe que isso não me ocorreu, porque não temos um presidente na Suíça. Foi exatamente assim: graças aos quatro votos de Platini, o Mundial foi para o Qatar e não para os Estados Unidos. Também foi sobre dinheiro: meses depois, o Qatar comprou caças dos franceses por 14,6 mil milhões de dólares», explicou.

O Mundial 2022, no Qatar, arranca no próximo dia 20 de novembro e termina a 18 de dezembro.

Relacionados

Patrocinados