Cerca de 72 milhões de mulheres nos Estados Unidos faltaram ou atrasaram-se com os check-ups de saúde recomendados, de acordo com um novo inquérito. Esta sondagem, conduzida pela Gallup para a empresa de tecnologia médica Hologic, apurou que 90% das mulheres reconhecem a importância de terem consultas médicas regulares – mas mais de 40% faltaram ou adiaram um exame.
As mulheres têm dificuldade em dar prioridade à sua própria saúde, apurou o inquérito, com mais de 60% das mulheres a responderem que é difícil fazerem da sua saúde uma prioridade. Os números são particularmente impressionantes entre as mulheres mais jovens: 74% das mulheres da Geração Z e 70% das Millennials dizem que é difícil pôr a sua saúde em primeiro lugar, comparadas com 52% das baby boomers e 39% da Geração Silenciosa.
Confrontada com estes números, fomos falar com a especialista em bem-estar da CNN, a dra. Leana Wen, para saber mais sobre porque é que devem ser motivo de preocupação. O que são os exames preventivos que as jovens mulheres devem fazer? E que passos devem as mulheres dar para priorizarem a sua saúde e bem-estar? Wen é médica do serviço de urgências e professora associada adjunta na Universidade George Washington. Anteriormente, foi comissária da Saúde de Baltimore.
CNN: Quais as partes da sondagem que mais se destacam para si?
Dr. Leana Wen: Fiquei desanimada, embora não surpreendida, ao constatar que é tão comum as mulheres, especialmente as jovens, renunciarem aos rastreios de saúde. De acordo com os resultados, a maior parte das mulheres inquiridas mencionou fatores como a necessidade de cuidar de outros membros da família em primeiro lugar, as dificuldades com o trabalho e outros assuntos urgentes.
Este facto está em consonância com a minha experiência como médica e funcionária de saúde pública. Infelizmente, demasiadas mulheres só se preocupam com a sua saúde depois de lhes ter sido diagnosticada uma doença crónica. A nossa sociedade dá muito pouca importância à prevenção e existem muitas barreiras que impedem as pessoas de obterem cuidados preventivos.
Porque é que os exames de saúde regulares são tão importantes para as mulheres, incluindo as jovens?
Este estudo centrou-se nos rastreios de saúde para o cancro, por isso vamos começar por aí. Uma em cada cinco mulheres em todo o mundo desenvolverá cancro ao longo da sua vida. O tratamento precoce é fundamental para melhorar as taxas de sobrevivência, e isso depende de um diagnóstico precoce. É por isso que os rastreios são tão importantes. Os rastreios do cancro são realizados antes de as pessoas desenvolverem sintomas.
Há uma tendência global preocupante de aumento dos cancros em idade precoce, que se definem como casos de cancro diagnosticados em pessoas com menos de 50 anos. Entre 1990 e 2019, os cancros de início precoce aumentaram 79%. Nos EUA, enquanto as pessoas com mais de 50 anos registaram uma queda nas taxas globais de cancro entre 1995 e 2020, a incidência de cancro aumentou nas pessoas com menos de 50 anos.
Tudo isto torna ainda mais preocupantes os resultados do inquérito sobre as mulheres jovens que negligenciam os seus exames de saúde.
De acordo com o inquérito, 41% das mulheres norte-americanas atrasaram ou não fizeram os rastreios do cancro da mama, 35% do cancro do colo do útero e 33% do cancro colorrectal.
Que rastreios de cancro são recomendados para as mulheres mais jovens?
Eis as recomendações da US Preventive Services Task Force:
Para o cancro da mama, a USPSTF recomenda que as mulheres façam o rastreio de dois em dois anos, a partir dos 40 anos e até aos 74 anos. Esta é uma alteração recente. Anteriormente, a recomendação era começar entre os 40 e os 50 anos.
Para o cancro do colo do útero, o grupo de trabalho recomenda que as mulheres com idades compreendidas entre os 21 e os 29 anos sejam rastreadas de três em três anos com um teste de Papanicolau, que analisa as células do colo do útero. Para as mulheres com idades compreendidas entre os 30 e os 65 anos, a recomendação é que sejam rastreadas de três em três anos com o teste de Papanicolau, ou de cinco em cinco anos com o teste do papilomavírus humano (HPV) de alto risco (um vírus que pode causar cancro do colo do útero) ou com o teste do vírus combinado com o teste de Papanicolau.
Para o cancro do cólon, a USPSTF recomenda que tanto as mulheres como os homens iniciem os rastreios aos 45 anos. Isto também representa uma mudança em resposta ao aumento do cancro do cólon em indivíduos mais jovens; até há alguns anos, a recomendação era que os rastreios do cancro do cólon começassem aos 50 anos.
Todas as recomendações acima se aplicam a mulheres com risco médio de desenvolver estes cancros. As pessoas com um risco mais elevado devido a antecedentes familiares, antecedentes pessoais de cancro ou outros fatores de risco devem falar com os seus médicos sobre se devem iniciar o rastreio em idades mais precoces e com maior frequência.
Podem também necessitar de exames adicionais; por exemplo, as mulheres com um familiar de primeiro grau com cancro da mama podem ser aconselhadas a fazer uma ressonância magnética, para além de uma mamografia, e podem ser encaminhadas pelo médico de família para testes genéticos.
O que mais devem as mulheres saber sobre os rastreios regulares?
Idealmente, cada mulher tem um cuidador de saúde primário que visita todos os anos. Estas consultas devem servir para ficar a par dos rastreios que foram feitos e quando é que os próximos devem ocorrer.
Em primeiro lugar, as mulheres devem saber se têm circunstâncias médicas pessoais que as coloquem num nível de risco mais elevado do que as outras pessoas. Toda a gente deve tentar descobrir o historial da sua família em termos de doenças comuns, como o cancro ou doenças cardíacas. Devem falar do seu estilo de vida que podem influenciar fatores de risco, como fumar, beber álcool e a prática de atividade física.
Em segundo lugar, discutir os resultados dos rastreios. O que é recomendado depois deles e porquê? Estivemos a falar do rastreio do cancro, mas há rastreios para outras doenças crónicas que devem ser feitos.
Por exemplo, deve-se fazer um teste à pressão arterial nas visitas anuais a consultas de hipertensão. A USPSTF também recomenda rastreios à diabetes em adultos com entre 35 e 70 anos que tenham um índice de massa corporal que os coloque na categoria de peso a mais ou de obesidade e rastreio ao colesterol alto em mulheres com 45 ou mais anos que tenham risco acrescido de doença cardíaca.
Em terceiro lugar, as mulheres devem discutir questões relacionadas com a sua saúde reprodutiva. Se querem engravidar, devem otimizar a sua saúde em preparação para a gravidez. Caso contrário, devem discutir opções de contraceção. Ainda não discutimos o rastreio a infeções sexualmente transmissíveis, mas isto é algo que faz parte dos rastreios de saúde de rotina que devem ser discutidos no check-up anual.
E por fim, é importante discutir questões de saúde mental. A saúde mental é uma determinante fundamental da saúde em geral. As mulheres devem garantir que discutem preocupações com depressão, ansiedade e stress com os seus médicos. Há muitas opções de tratamento disponíveis – ninguém deve sofrer em silêncio.
Como podem as mulheres manter-se a par dos seus rastreios e do que precisam de fazer a seguir?
O problema é que muitas mulheres não têm um médico de família. Também podem negligenciar consultas por questões que estão destacadas neste inquérito – as mulheres podem estar ocupadas com outras circunstâncias de vida e apenas verem um médico quando alguma coisa está mal.
A outra questão em destaque nesta sondagem é que os médicos nem sempre abordam a questão dos rastreios. As mulheres têm maior probabilidade de fazerem rastreios se elas e os seus médicos tiverem uma discussão sobre a importância dos rastreios, indica o inquérito. E ainda assim, estas conversas por vezes não acontecem por uma série de razões.
Precisamos de um sistema de saúde melhor que garanta o acesso e a continuidade dos cuidados de saúde para todos, e os médicos precisam de ter mais tempo adequado para dar resposta a questões cruciais como a prevenção durante as consultas anuais.
Entretanto, recomendo que as mulheres se mantenham a par dos rastreios que fazem e tenham uma ideia de quando devem fazer os seguintes. Tragam essa lista convosco quando forem ao vosso check-up anual e perguntem ao médico se estão a cumprir os prazos.