Mulher conta como ela e uma criança foram violadas quando fugiam da guerra em Moçambique

Agência Lusa , BMA
7 dez 2021, 12:57
Moçambique: o regresso à "normalidade" em Palma após os ataques
Moçambique: o regresso à "normalidade" em Palma após os ataques

Vítima, de 39 anos, foi obrigada a viver com insurgentes. Quando conseguiu fugir, cruzou-se com uma menina de nove anos que tinha passado pelo mesmo

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Uma mulher de 39 anos fugiu de Muidumbe, centro de Cabo Delgado, em 2020, para escapar à guerra, mas acabou por ser violada e obrigada a viver com insurgentes.

Fugiu com cinco filhos e a mãe, de 79 anos, percorrendo dezenas de quilómetros até Macomia, vila sede de distrito, mas onde não ficou muito tempo, devido a novo ataque de rebeldes.

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Foi de novo para as matas, desta vez em direção à zona costeira de Mucojo, onde a família se dispersou e ela ficou sozinha, contou, num relato sob anonimato por causa do crime e abusos de que foi alvo.

Em 15 de outubro deste ano, quando tentava encontrar água num dos poços remotos frequentados por mulheres deslocadas, diz que teve "má sorte": foi capturada por insurgentes e foi violada pelo grupo, que a deixou praticamente inconsciente.

"Eles violaram-me, quase que desmaiei no local, até que um deles pediu aos outros para pararem, porque me queria como esposa", conta, já a salvo, em Pemba, capital provincial.

Assumiu o papel de esposa, mas poucos dias depois aproveitou uma oportunidade e escapou para Macomia, onde a 30 de outubro se entregou às autoridades. 

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Hoje, vive em casa de uma prima e espera autorização das autoridades para se mudar para um local de reassentamento, onde são atribuídos lotes de terra a deslocados para recomeçarem a vida em habitações feitas de caniço e adobe. 

Diz que continua "sob controlo da polícia", que a visita para se certificar da sua história: "Querem saber como escapei e onde estive durante o período dos ataques."

600 mulheres desaparecidas

As autoridades têm apelado à vigilância da população e ao mesmo tempo têm anunciado medidas para evitar que haja rebeldes infiltrados entre a população em fuga.

Na longa caminhada de Muidumbe até Pemba, levou consigo uma menor de nove anos, que encontrou sozinha e que também tinha sido violada por insurgentes.

Uma criança que na última semana esteve internada no hospital provincial de Pemba devido a sequelas do crime, com os exames médicos a confirmaram a agressão, e a mulher que a resgatou a prometer ajuda: "Cuido dela como se fosse minha filha."

A organização não-governamental (ONG) Human Rights Watch (HRW) publicou esta terça-feira um comunicado em que estima haver 600 mulheres desaparecidas em Cabo Delgado após sequestros, relatando que algumas acabaram vendidas a partir de 550 euros a "combatentes estrangeiros".

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Entre os apelos lançados, a HRW pede aos grupos insurgentes que libertem todas as pessoas e apela ao estado moçambicano para que, apesar das medidas de vigilância, trate as vítimas de forma adequada, pedindo à comunidade internacional que ajude nesse objetivo.

Cabo Delgado aterrorizada desde 2017

A província de Cabo Delgado é rica em gás natural, mas tem sido aterrorizada desde outubro de 2017 por rebeldes armados, sendo alguns ataques reivindicados pelo grupo jihadista Estado Islâmico. 

O conflito já provocou mais de 3.100 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED, e mais de 817 mil deslocados, de acordo com as autoridades moçambicanas.

Desde julho, uma ofensiva das tropas governamentais com apoio do Ruanda, a que se juntou depois a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral "SADC", permitiu aumentar a segurança, recuperando várias zonas onde havia presença de rebeldes, nomeadamente a vila de Mocimboa da Praia, que estava ocupada desde agosto de 2020.

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