Apesar de França acolher uma das maiores populações muçulmanas da Europa, os muçulmanos queer são frequentemente invisibilizados, diz Lenain, apontando para casos de retórica de ódio normalizada contra pessoas LGBTQ+ e para a crescente islamofobia
Como captar a essência de alguém que deseja permanecer anónimo? Este foi um dos desafios enfrentados pela fotógrafa franco-argelina Camille Farrah Lenain, no âmbito da sua série sobre a vida dos muçulmanos queer em França. Nos seus retratos cinematográficos e oníricos, vemos uma figura parcialmente oculta por um véu rosa translúcido, contemplando um espelho ornamentado. Noutra imagem, um enquadramento fechado capta o tronco de um homem transgénero, revelando uma cicatriz vertical e uma mão pousada calmamente sobre umas calças estampadas.
As imagens fazem parte do novo livro de fotografia de Lenain, "Made of Smokeless Fire" (Feito de Fogo Sem Fumo, numa tradução literal), lançado pela editora Loose Joints Publishing. "É importante para mim compreender plenamente as pessoas que fotografo", diz Lenain sobre o projeto de seis anos, que envolveu cerca de 50 participantes LGBTQ+ (identificados apenas pelo primeiro nome ou iniciais) de todo o país. As fotos são acompanhadas por fragmentos poéticos de textos de alguns dos retratados sobre a sua fé, desejos e memórias. Enquanto uns cortaram totalmente o contacto com as suas famílias, outros trilharam caminhos frágeis rumo à reconciliação. A diversidade de experiências é tão vasta como a dos participantes.
Como muitos dos participantes – embora não todos – preferiram manter o anonimato, Lenain recorreu à rica gramática visual do Islão: mãos pintadas com hena, pombas brancas, um símbolo Amazigh (ou berbere) de liberdade e o motivo recorrente do fumo. Numa imagem, uma jovem retratada com a palavra árabe para "justiça" pintada na bochecha olha de forma sensual para a câmara enquanto preenche o enquadramento com nuvens de fumo.
O título do livro faz referência aos jinn, criaturas sobrenaturais descritas no Alcorão como sendo "feitas de fogo sem fumo". "É comum acreditar-se que os muçulmanos queer são assim porque foram possuídos por jinn, embora estas entidades não sejam nem boas nem más", explica Lenain. Tal como a palavra "queer" recebeu um novo significado nos últimos anos, Lenain deseja o mesmo para os muçulmanos LGBTQ+ em relação a este termo. "Ao ressignificar a sua própria relação com os jinn, deixa de dar poder aos outros que os utilizam como arma contra si."
Um tio muito querido – e perguntas sem resposta
A semente da série foi plantada há anos, depois de Lenain ter ouvido uma entrevista de rádio com Ludovic-Mohamed Zahed, o imã gay radicado em Marselha que fundou a primeira mesquita inclusiva da Europa – e que, mais tarde, a ajudou a recrutar pessoas para os retratos.
No entanto, a pessoa que realmente impulsionou todo o projeto foi o querido tio de Lenain, Farid, um homem gay e seropositivo que faleceu em 2013. Um dos oito irmãos da sua mãe, Farid era o elo que mantinha unida a parte da família argelina radicada em Paris. "Passávamos muito tempo juntos em jantares, a celebrar aniversários, o Natal e o Eid", explica Lenain numa videochamada a partir da galeria Solarium, em Marselha, durante um evento de lançamento do livro. "Embora estivesse frequentemente doente, era também radiante, ria alto, adorava as suas cassetes da Madonna, vivia a brincar connosco e era o irmão ou o tio preferido de todos."
Após a sua morte, a família encarregou-a de organizar o arquivo fotográfico e digitalizar as recordações visuais do tio. Lenain começou a lamentar as conversas que nunca mais poderia ter. "A homossexualidade dele não era uma surpresa para mim", escreve no livro. Mas, ao começar a questionar a sua própria sexualidade, ela desejava perguntar-lhe: "Acreditava em Deus? Teria sentido necessidade de revelar a sua orientação sexual aos seus pais? Conseguia sentir-se plenamente gay e árabe em França?"
É pouco provável que Farid tivesse respondido "sim" a esta última questão. Apesar de França acolher uma das maiores populações muçulmanas da Europa, os muçulmanos queer são frequentemente invisibilizados, diz Lenain, apontando para casos de retórica de ódio normalizada contra pessoas LGBTQ+ e para a crescente islamofobia. O ano passado registou um aumento acentuado de atos antimuçulmanos, segundo as autoridades francesas – uma subida de quase 90% em relação ao ano anterior.
"Em França, existe um estigma palpável – basicamente a retórica da extrema-direita: este ódio contra as pessoas negras, árabes e visivelmente muçulmanas", diz Lenain, que vive atualmente nos EUA, dividindo-se entre Nova Orleães e Nova Iorque. Para as pessoas, o simples facto de existir na sociedade – seja nas ruas ou no trabalho – pode ser uma batalha árdua. Acrescente-se a esta equação a orientação sexual ou a identidade de género, e muitas vezes sentem-se forçadas ao silêncio.
Confiar é fundamental
Nos últimos anos, Lenain tem exposto estes retratos em parceria com organizações de base que apoiam populações LGBTQ+ e muçulmanas. "Faço sempre questão de que as pessoas que partilharam o seu tempo e as suas histórias estejam envolvidas", diz, acrescentando que isso pode incluir escrever textos para o livro, falar em eventos ou apresentar trabalhos ao lado dos seus. Ela cita duas artistas visuais engajadas que inspiraram a sua performance social: Nan Goldin e Zanele Muholi.
Ambas as fotógrafas fundaram coletivos que, respetivamente, combatem a epidemia de opióides e defendem a visibilidade das pessoas negras LGBTQ+ na África do Sul. "Tal como elas, o meu processo começa sempre pelo coletivo", explica Lenain. "No passado, a fotografia foi culpada de explorar grupos marginalizados, mas também pode ser uma ferramenta poderosa de cura e empoderamento."
Um ótimo exemplo da abordagem empática de Lenain está num retrato marcante de uma mão que surge por detrás de uma cortina vermelha espessa, segurando um rosário de contas brancas como pérolas. A dada altura do projeto, a pessoa retratada pediu a Lenain que retirasse a fotografia. Embora não fosse possível reconhecê-la na imagem, disse que a foto "parecia profundamente ligada a um momento da sua jornada para abraçar a sua identidade queer – uma jornada que ainda era frágil, recente e que estava em pleno desenvolvimento".
Embora Lenain tenha inicialmente lamentado a perda da imagem, concordou com o pedido. "As pessoas que retratam devem manter um certo poder de decisão sobre a forma como as imagens que criamos em conjunto são utilizadas", diz ela. "Isto significa abrir espaço e tempo para mudanças, conversas e crescimento". Por fim, a pessoa optou por incluir a foto – algo que Lenain vê como um avanço para a aceitação plena de si mesma.
Lenain dedica o livro ao seu tio Farid, a um modelo de presença luminosa chamado Lamine – que faleceu durante a realização do projeto – e a todos os "corpos queer e racializados – corpos em estado liminar". Algumas das imagens mais comoventes do livro são, curiosamente, desprovidas de presença humana. É o caso de uma foto acolhedora e etérea do que aparenta ser um edifício vazio e grafitado à beira-mar, situado na zona portuária suburbana nos arredores de Marselha – um local imortalizado por pintores pós-impressionistas como Cézanne.
“Na verdade, isto não é água”, diz Lenain, revelando que a abertura na parede enquadra uma nesga de chão iluminado pelo sol logo mais à frente. “Mas adoro o facto de as pessoas acharem frequentemente que é – um lembrete de que esta obra não é apenas documental e convida o espectador a usar a imaginação.”
Janelas e portas são elementos recorrentes na série, e Lenain vê-as como representações da “constante condição de estar entre dois mundos” característica destas vivências dos muçulmanos queer: a escolha entre ficar dentro, escondido, mas seguro, ou lá fora, livre, mas enfrentando muitos obstáculos e julgamentos.
“É também o portal para os nossos antepassados, para Farid, e o espaço entre o nosso mundo e o divino.”
