"Mr. Nobody Against Putin": o outro lado da guerra, o lado que Vladimir Putin não quer que se veja

António Guimarães , Artigo originalmente publicado a 9 de fevereiro de 2025
23 fev, 19:12
"Mr. Nobody Against Putin" (Facebook)

Documentário filmado de forma clandestina chegou a Sundance e venceu. O objetivo é contar a todos o que Vladimir Putin faz dentro de portas para manter a população doutrinada

Nota do editor: um ano depois da publicação deste artigo, e dois dias antes de se assinalarem os quatro anos da invasão russa, o documentário de Pavel Talankin venceu o BAFTA na sua categoria. Dentro de semanas vai competir também pelo Óscar

Há a guerra na Ucrânia, mas depois há também que cuidar de quem fica na Rússia, que deve continuar ou aprender a acreditar naquilo que Vladimir Putin pretende para o rumo do país. Por isso mesmo, o presidente russo continua a não descurar a propaganda interna, afastando eventuais críticas àquilo que insiste em chamar uma “operação especial”, e que está prestes a entrar no seu quarto ano.

Esta é uma batalha que não é feita de armas, mas antes de ideologia, sobretudo para garantir que a visão da sociedade russa continua ao sabor daquilo que o Kremlin pretende, o que também é feito junto das escolas.

Foi o que aconteceu no estabelecimento de ensino onde Pavel Talankin dá aulas, na longínqua escola secundária de Karabash, uma pequena localidade industrial nos Montes Urais, que separam a Rússia europeia da asiática.

Pavel Talankin, que entre os seus alunos é conhecido por Pasha, foi confrontado desde o início da guerra com propaganda militar e um apelo à militarização do país. Uma vez que era há muito o videógrafo daquela escola, os seus superiores acabaram por lhe pedir que documentasse uma nova diretiva do Kremlin: moldar uma geração por forma a que ela cresça numa visão ultranacionalista e que tenha vontade de se juntar ao exército para lutar contra a Ucrânia.

Sabendo que teria de obedecer às ordens, mas defendendo também que a guerra que decorre na Ucrânia não tem razão de ser, decidiu fazer diferente daquilo que seria uma visão sempre filtrada e ao estilo do que agradaria a Vladimir Putin. “Soube logo que isto ia ter de ser preservado como um registo histórico. Percebi logo que era material que não se podia perder”, afirmou em entrevista ao Observer.

Esses mesmos registos acabaram por levar à obra “Mr. Nobody Against Putin”, o que, traduzido de forma livre, dá qualquer coisa como “O Senhor Ninguém Contra Putin”, um documentário que estreou em janeiro no festival de cinema Sundance, e que venceu o prémio atribuído pelo júri para Cinema Mundial Documental Especial.

Puxando a fita, do filme da história, atrás, Pavel Talankin começou a ter a ideia do filme logo nos primeiros dias de guerra, iniciada a 24 de fevereiro de 2022. Acabou por chegar ao norte-americano David Borenstein, que o ajudou no projeto e acabou a realizá-lo em parceria.

Sob as ordens do que a escola lhe ia dizendo, sempre numa lógica propagandística, Pasha iniciou uma missão secreta e altamente arriscada para documentar a forma como a mensagem de guerra de Vladimir Putin passa em casa. Num país onde o jornalismo independente quase não existe - publicações como o The Moscow Times ou o Meduza foram imediatamente banidos após a guerra -, o professor entendeu que tinha um lugar privilegiado para contar uma história que ninguém podia contar.

“Qualquer jornalista que tentasse filmar o que estava a acontecer nas escolas era detido imediatamente. Fui colocado perante uma situação única. O Ministério da Educação da Rússia enviava imediatamente ordens para que certas aulas fossem filmadas, eu ia lá e filmava”, lembra o docente.

No documentário, Pavel Talankin mostra como às crianças é ordenado que marchem com a bandeira russa, leem livros de História completamente renovados que defendem a invasão à Ucrânia e até competem em torneios de lançamento de granadas.

Todos estes exercícios de propaganda são supervisionados pelas visitas de veteranos de guerra ou até mesmo, na altura em que foram feitas as filmagens, por mercenários do Grupo Wagner. Vão lá para pregar os “valores patrióticos” de uma Rússia à imagem de Vladimir Putin. Uma Rússia que é preciso apresentar às crianças.

“As escolas são, muitas vezes, os primeiros locais onde se espalha a propaganda. O fascismo pode enraizar-se das formas mais fáceis - começando nas escolas, com as crianças”, reiterou Pasha.

De resto, e dando razão ao que diz o professor, o próprio Vladimir Putin admitiu que está em curso uma militarização das escolas: “As guerras não são ganhas por comandantes, mas por professores”, referiu.

Entre os vários professores que aparecem no filme há diferenças da implementação do que é pedido. Abdulmanov, por exemplo, é um professor de história e confesso apoiante de Vladimir Putin, não idolatrasse também Josef Estaline, o líder mais famoso da União Soviética, e que foi responsável pela morte de milhões de russos.

Mas também há quem resista, mesmo que à sua maneira. “Muitos professores não querem fazer isto, mas estão encurralados”, admitiu Pavel Talankin.

“As pessoas estudam para serem professores e sonham em educar as crianças, depois veem-se forçadas a espalhar propaganda”, lamentou ainda Pasha, que fala da realidade de Karabash, onde as oportunidades de emprego são escassas e, para muitos, especialmente os professores, não há grande opção senão seguir a doutrina.

Sobre os efeitos da propaganda de Vladimir Putin, Pavel Talankin não tem dúvidas: “Para as crianças mais novas, tudo o que os professores dizem é verdade. O impacto a longo prazo da propaganda militar vai ser sentido”.

Quanto aos alunos mais velhos, como os que frequentam a escola onde estava Pasha, muitas vezes são mais céticos, ainda que a maioria acabe por ceder à propaganda. De resto, foi o que aconteceu a muitos dos amigos deste professor, que viu várias pessoas irem para a guerra, muitas para voltarem em caixões.

Com o filme em andamento e a postura anti-guerra sempre presente, Pavel Talankin acabou por não ter escolha senão fugir. Fê-lo em junho de 2024 sem contar a ninguém, nem mesmo à mãe, levando consigo sete discos rígidos de filmagens que agora se tornaram uma obra premiada.

Desde o lançamento do documentário que na terra natal de Pasha as reações têm sido mistas. “Ainda agora recebi uma mensagem de apoio de alguém em casa. Mas, antes disso, recebi uma série de ameaças, longas mensagens de voz a chamar-me traste, traidor da Pátria”, revelou.

“Quero que tanta gente quanto possível veja isto na Rússia. Não apenas em Karabash, mas em todo o lado. Para o próprio bem deles”, terminou.

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