Renata Cambra, a candidata do MAS que quer "meter o dedo na ferida" no Parlamento

20 jan, 19:47

Licenciada pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a candidata do MAS confessa que não estava à espera do "impacto" do debate dos pequenos partidos. Mas, aceita de bom grado as manifestações de apoio que tem recebido e a visibilidade que "o partido passou a ter"

Chega à hora marcada, discreta, sem que nada anuncie de quem se trate. Em Coimbra, cidade dos estudantes, como costuma ser referida, Renata Cambra, porta-voz do Movimento Alternativa Socialista (MAS), apresenta-se como se fosse um deles, sem comitivas ou altifalantes que anunciem a sua presença. Num primeiro momento, até aos jornalistas que estão junto às Cantinas Azuis da universidade passa despercebida. 

Mas, quem é afinal esta professora de 30 anos que na terça-feira, no debate dos partidos pequenos, surpreendeu tudo e todos e colocou o Twitter a falar sobre si? Direta, clara e coerente, assim se apresenta Renata Cambra a quem passa e quando nos sentamos para falar sobre quem é a porta-voz e o que é o partido. Sentamo-nos porque apesar de já estar no quinto dia de campanha, energia não falta a Renata e quis subir as Escadas Monumentais  - bem conhecidas dos estudantes de Coimbra - para tentar encontrar mais jovens na praça Dom Dinis, junto às Faculdades. 

Partidos tradicionais estão em crise "em toda a Europa"

A poucos metros do sítio onde agora distribui panfletos a quem passa, sempre questionando se os pode entregar, situa-se a Real República Prá-Kys-Tão, casa de Renata e onde regressa ciclicamente a cada viagem à cidade dos doutores.

"Posso entregar um panfleto do Movimento Alternativa Socialista? Não tens de levar se não quiseres", diz a jovem professora a um estudante que se prepara para descer a escadaria. E ele lá desce, de panfleto na mão, com a fotografia de Renata primeira página. "Andei eu tantos anos a fugir às lentes", desabafa a candidata.

Renata Cambra sobe a Escadaria Monumental em Coimbra (Foto: Paulo Novais/Lusa)

Renata diz-se pouco habituada a objetivas e atenção mediática, mas a verdade é que desde o debate dos partidos mais pequenos, na RTP, ocorrido na terça-feira, a sua popularidade disparou e durante a entrega dos panfletos são vários os estudantes que a reconhecem, que se viram para trás a meio da escadaria para acenar, ou que admitem:  "- Talvez vote em ti". O tratamento por tu, a proximidade e a juventude diferem em tudo da campanha tradicional de arruada, muitas vezes pautada por seguranças à volta do candidato e discursos nem sempre espontâneos.

"Em geral, os partidos tradicionais estão em crise. Não é só em Portugal, é em toda a Europa. Mesmo no que toca a eleições, vemos que é muito difícil ver um governo de maioria, e quando há geringonça por esta Europa fora, já nem são dois partidos, são três ou mais. As eleições na Alemanha são um exemplo claro disso. Os partidos tradicionais, tanto à esquerda como à direita, estão em crise porque já estão desgastados porque como também já estão dentro da lógica do sistema, acabam por se desgastar."

E Renata quer ser a alternativa a este desgaste. Militante e ativista, diz querer mudar e fazer por mudar é prática comum do seu dia a dia, mas as pessoas só agora tiveram conhecimento das suas vontades e das do partido porque só agora lhes foi dado o "megafone da cobertura mediática".

"Faço-o todos os dias do ano, não é só quando há eleições. Sou militante, sou ativista, em vários movimentos diferentes, do feminista ao climático. Isto é só uma forma diferente de o fazer hoje. Somos um partido que existe todos os dias para lutar por um mundo melhor, mas muitas vezes temos dificuldade em fazer chegar as nossas ideias às pessoas". 

Esquerda combativa

Mas, afinal, que partido é este que se diz combativo e a esquerda forte? Renata Cambra explica, com a assertividade de quem faz isto vida, não poupando ataques à geringonça, Bloco e PCP incluídos. 

"Somos um partido que quer construir uma esquerda forte e combativa, no contexto atual, porque vemos que nos últimos seis anos, com a aproximação da esquerda ao PS e com o abandonar das suas linhas programáticas para conseguir sustentar o governo do PS o resultado foi o reforço do próprio PS e o crescimento da extrema direita e a sua consolidação como oposição".

Para a porta-voz do MAS, se a esquerda quer fazer frente à extrema-direita e ser oposição, não pode subsistir "defendendo os interesses do PS", mas sim tomar outro caminho diferente daquele que tomou nos últimos seis anos. No entanto, Renata sabe que não será fácil, lembrando as vezes que a Esquerda não se soube colocar do lado de quem lutava pelos seus direitos e decidiu apoiar a geringonça, como foi o caso dos estivadores, dos professores e dos enfermeiros.

"Vemos que, mesmo depois de 6 anos de geringonça, o Bloco e o PCP continuam um pouco a ir por esse caminho, o próprio Livre já deixou bastante claro que o seu objetivo é sustentar o governo do PS. Achamos que mais que uma saída institutucional, mais do que uma esquerda que está adaptada e que muitas vezes se abstém de gritar quando é preciso em nome de um governo que está a aplicar políticas que são de direita, é preciso uma esquerda que não tem medo de pôr o dedo na ferida, uma esquerda que também quando apresenta propostas no Parlamento e elas são chumbadas ou recusadas, é uma esquerda que tem coragem de dizer: 'temos de ir para a rua lutar pelos nossos direitos'."

"Esquerda tem de estar do lado certo"

À cidade dos estudantes, dos doutores e dos amores, o Movimento Alternativa Socialista trouxe como bandeiras as propinas e a habitação. Renata trazia a lição estudada na ponta da língua e não se atrapalhou a explicar porque pede o MAS o fim das propinas para todos os estudantes. 

“A existência de propinas contribui para divisão social e segregação e não dá oportunidades aos setores mais desprotegidos de terem melhores perspetivas de futuro. Durante a geringonça fez-se muita propaganda de se ter baixado o valor das propinas, mas durante a pandemia, não dizem que só baixou o valor das licenciaturas, o valor dos mestrados não baixou ou aumentou. Se o governo aumentou o valor das propinas dos mestrados (essenciais em algumas profissões), isso continua a ser uma forma de promover a desigualdade, porque se nós precisamos de pessoas formadas, para ter empregos mais qualificados, nós temos de dar todas as oportunidades".

Estava dado o mote na conversa que faz Renata Cambra endireitar-se, como quem quer mostrar que não é só por estar em Coimbra que fala deste assunto, mas que sabe porque fala. "Quando em 2021, 71% dos pedidos de bolsas foram recusados, isso significa que algo de muito errado se passa".

E vai mais longe. Para a cara do MAS, isso significa que "há muita gente a querer ir para o Ensino Superior e que não tem essa oportunidade".

"Isso deixa logo uma grande fatia da população de fora e são sempre os mesmos que são desfavorecidos. Agora, o Governo está a falhar porque, supostamente, se é um Governo de Esquerda e permite que isto continue desta forma ao mesmo tempo que milhares de milhões continuam a ser levados para administrações de grandes empresas e de bancos para tapar buracos, para fugir para offshores e etc... há aqui um claro conflito de interesses e a Esquerda tem de estar do lado certo desse conflito, que é do lado dos que sofrem mais".

E é pelos que sofrem mais que Renata diz que vai à luta, não só no dia 30 de janeiro, não só nestas duas semanas em que até os 125 degraus das escadas monumentais subiu e desceu sem tropeçar (reza a lenda que as escadas têm cinco lances que correspondem ao número de anos dos antigos cursos e que o número de vezes que se tropeçava nas escadas equivalia ao número de cadeiras que se reprovava a cada ano), mas todos os dias do ano. 

"Estamos a concorrer a estas eleições porque queremos levar as vozes que estão a sair à rua em protesto para dentro do Parlamento e para saber dizer dentro do Parlamento, quando é necessário sair à rua e lutar, saber bater o pé, saber meter o dedo na ferida. É preciso apostar em renovar a Esquerda, em acordar a Esquerda que está no Parlamento".

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